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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

[REVIEW] A Marvel fora da Invasão Secreta - Parte 4: Motoqueiro Fantasma

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Dono de um dos visuais mais bacanas e inspirados dos quadrinhos, o Motoqueiro Fantasma vinha penando numa fase bobinha, e quase inteiramente descartável, pelas mãos do escritor Daniel Way. Era daquele tipo de história em que a gente dava uma corrida de olho nas páginas e 10 minutos depois já estava lida. Nada que fosse horrível a ponto de dar desgosto, mas nunca chamou minha atenção.

A premissa de toda a sua fase como escritor era a seguinte: Johnny Blaze passou uma temporada no Inferno, conseguiu escapar de lá, mas veio em seu encalço o próprio Lúcifer, que, por algum acidente de percurso entre os dois mundos, teve sua "essência" fragmentada em 666 partes. Essas partes se espalharam pelo mundo, e tomaram posse dos corpos de um número igual de pessoas. Assim, a missão do Motoqueiro era eliminar todos os 666 hospedeiros do diabão e mandá-lo de volta pro Inferno.

Depois de muita história chata, mal escrita, e algumas vezes mal desenhada, a fase do Way terminou com uma revelação impactante: não foi culpa de nenhum demônio infernal a transformação de Johnny Blaze no Espírito da Vingança, mas de um anjo, Zadkiel, cujo objetivo é "apenas" tomar o trono do Paraíso para si. É puto e sedento pra cair de pau no anjo que o sacanou que Johnny Blaze termina o arco de Way. E é assim que o encontramos no início da fase escrita por Jason Aaron.

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"Isto aqui não é nada perto do que eu vou te fazer,
Zadkiel, seu filho da putaaaa!!"

Cabe um pequeno parágrafo sobre Aaron. Ele é um escritor que ganhou certo destaque na crítica especializada por suas histórias na série Scalped (Escalpelado), da linha Vertigo, da DC, que em breve será publicada pela Panini no mix mensal da vindoura Vertigo (série que eu aguardo ansiosamente), e pela fase que vem escrevendo da nova série protagonizada por Wolverine, Weapon X (a terceira, ao lado de Wolverine, e Wolverine: Origins). Ainda não conferi nenhuma das duas, mas, é um rapaz que nos próximos anos parece ter algumas chances de crescer como autor de quadrinhos.

A primeira grande sacada de Aaron em Motoqueiro Fantasma foi pegar o filete de premissa largado pelo Way como gancho e expandi-lo. Assim, sem pressa, ele foi acrescentando novas informações referentes à mitologia do personagem. Por exemplo, a explicação de que a moto de Johnny Blaze é movida pelo fogo infernal gerado por tudo que há de ruim no mundo. Ou, mais adiante, quando descobrimos que "Espírito da Vingança" não é um título exclusivo do Motoqueiro, mas de todo um grupo de soldados celestiais comandados por Zadkiel.

É a velha história da eterna guerra entre o Inferno e o Paraíso sendo revisitada, revisada e revitalizada.

Seus diálogos também são inspirados, e seguem o clima da história, brincando com conceitos religiosos, pervertendo-os, tudo em prol de um humor negro requintado que casa bem com a história de um cara muito puto que não tá nem aí pras crenças religiosas relativas à tal guerra, e só quer saber de fazer um anjo sangrar até a morte (se é que isto é possível).

Outro detalhe que chama a atenção são os personagens. Como numa boa história de terror à moda antiga, muitos deles são sacanas, barra-pesada, caricatos e divertidos. E Aaron faz bom uso do exagero na retratação de seus traços de personalidade tornando-os mais interessantes.

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As Enfermeiras Metralha!
Sim, elas têm muitas armas! E, sim, elas sabem usá-las!

Sam Raimi (das trilogias Evil Dead e Homem-Aranha) adoraria as histórias de Aaron, que usam muitos dos conceitos introduzidos pelo diretor ao gênero pelo qual ainda é muito aclamado. Estão lá a escatologia, sangue e mortes por desmembramento em excesso, tudo mostrado de forma exagerada e divertida, através de ótimas cenas de ação desenhadas com competência e desenvoltura por Roland Boschi. Seu estilo apresenta um traço bem solto, quase rascunhado, mas extremamente cinético, furioso, devastador, o que combina perfeitamente com a proposta de Aaron para a série, cuja pretensão é apenas nos oferecer uma HQ de terror cheia de ação e com um elenco de personagens fortes e cheios de atitude.

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Literalmente o Inferno sobre rodas!

O final da penúltima parte do primeiro arco de Aaron, "Forjado no inferno e a caminho do paraíso", é exemplar. Quatro linhas narrativas literalmente em rota de colisão, numa metáfora inteligente criada pelo autor a fim de mostrar que seus planos para Johnny Blaze é envolvê-lo numa corrida frenética que fatalmente o fará chocar-se com forças maiores que ele, só pelo gosto de levar seu título de Espírito da Vingança às últimas conseqüências.

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"Zadkiel! Tá me ouvindo daí de cima, seu merda? Tá vendo isto aqui na minha mão?
Quando eu te encontrar vou enfiar isto no teu cuzinho angelical até sangrar!"

Já o segundo arco do escritor, "Deus não mora no pavilhão D", em que Johnny Blaze se infiltra numa prisão de segurança máxima atrás de uma pista sobre o paradeiro de Zadkiel, é menos empolgante.

Tan Eng Huat, o novo desenhista, até se sai razoavelmente bem, fazendo uso de seu estilo mais rebuscado pra transmitir a sensação de claustrofobia e peso do lugar.

Mas é aquela típica história que se encaixa entre o final de um arco maior e o início de outro. Uma rápida retomada de fôlego antes de partir pra ação novamente. Mas isto não chega a comprometê-la. Em menor escala ainda estão lá as perversões religiosas, desta vez representadas especialmente pela idéia do Paraíso supostamente ser um lugar tão temível quanto o Inferno, a ponto de um padre fazer um pacto com satanistas a fim de ter sua alma tomada pelo último quando morrer, só pra não ter que encarar Zadkiel e suas hostes celestiais revolucionárias.

A melhor cena fica pro final, quando o Motoqueiro espanca o Diácono brutamontes com uma Bíblia! Mais um bom exemplo de quão divertidas as histórias de Aaron são, mesmo que fazendo uso de idéias provocadoras e pervertidas.

O Motoqueiro Fantasma, escrito por Jason Aaron, começou a ser publicado por aqui em Universo Marvel 46.

Na 5ª e última parte desta série comentarei um pouco sobre o Punho de Ferro, de Ed Brubaker e Matt Fraction. See ya!

sábado, 3 de outubro de 2009

[REVIEW] A Marvel fora da Invasão Secreta - Parte 3: Homem de Ferro

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Desde a saga Guerra Civil o Homem de Ferro virou um dos maiores alvos dos holofotes do Universo Marvel. Como principal defensor da Lei de Registro de Super-Humanos, Tony Stark vem sendo considerado por muitos como um sujeito arrogante, um tanto prepotente, metido a sabe-tudo, um bilionário enobe, ou ainda um futurólogo que se acha dono da verdade.

Logo após a saga o herói passou por uma breve fase em seu título solo onde os escritores Daniel e Charles Knauff procuraram enfocar o lado mais humano do herói, mostrando-o como alguém que vivia uma crise de consciência por ter escolhido se voltar contra muitos de seus antigos companheiros em defesa do que acreditava ser o melhor para o futuro dos super-heróis dos Estados Unidos. Tony Stark foi retratado como um sujeito amargurado, que se sentia com o peso do mundo nas costas, e cheio de um desejo desesperador de provar que estava certo, apesar de tudo.

Tony Stark sempre foi um homem de muitas facetas. É o empresário, o industrial, o gênio inventor, o super-herói, e, após a Guerra Civil, ganhou mais uma delas, se tornando o diretor da SHIELD. A fase de Daniel e Charles Knauff focou-se mais neste aspecto, nos apresentando histórias que oscilavam muito em termos de qualidade, chegando a uma média final regular.

Após o lançamento de seu filme ano passado, a Marvel optou por dar uma nova revitalizada no personagem (antes ela já havia pedido a Warren Ellis para atualizar a origem do personagem, sobre a qual eu falei bastante aqui), criando um novo título pra ele, daí ressurgiu O Invencível Homem de Ferro (The Invincible Iron Man, no original), com histórias mais voltadas para o lado super-heróico de Tony Stark, e com várias referências retiradas diretamente da adaptação cinematográfica. A tarefa ficou nas mãos do escritor Matt Fraction e do desenhista Salvador Larroca.

O primeiro arco já começa promissor, apresentando uma premissa simples, mas que toca num ponto pertinente levantado pela seguinte questão: o que aconteceria se a tecnologia do Homem de Ferro fosse desvendada e barateada, a ponto de tornar-se descartável e à disposição de qualquer um que quisesse usá-la para seus próprios fins? É através da figura de Ezekiel Stane, filho de Obadiah Stane (o vilão do primeiro filme), um dos maiores inimigos de Tony Stark , que temos a resposta.

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Ele só quer vingança, e se divertir muito com isto

Ezekiel alcança um novo patamar de ameaça ao transformar homens em verdadeiras fontes de energia super-econômicas. Usando engenharia reversa em sucatas provenientes de armaduras do Homem de Ferro avariadas em combate, compradas no mercado negro, o rapaz encontra um meio de converter seres humanos em raios repulsores vivos, ou melhor, bombas repulsoras, sem a necessidade de fontes externas de energia. A idéia de converter a energia economizada pelo corpo humano em poder explosivo é ótima!

Outro detalhe que merece elogios é a construção narrativa da primeira parte do arco, inteiramente feita com base nos cinco maiores pesadelos de Tony Stark. Cada um é apresentado no decorrer da história contribuindo na criação de um clima de tensão crescente.

Matt Fraction também demonstra que foi bastante a fundo em seus estudos sobre o personagem, algo que nota-se na forma como mostra a mente de Tony Stark trabalhando: sempre tentando ficar um passo à frente, procurando antecipar eventos com base em probabilidades, e fazendo notas mentais para uso em futuras pesquisas e experimentos de aprimoração tecnológica, isto tudo até durante as batalhas.

E o autor, que parece ser um grande fã do herói, ainda faz bom uso da alta tecnologia à disposição de Tony Stark, como na cena em que o vemos trabalhando num programa secreto de monitoramento de todos os heróis e vilões usuários de armaduras tecnológicas espalhados pelo planeta. Ou naquela em que é mencionada a inexistência de um "suporte técnico" exclusivo da armadura do Homem de Ferro, fato que o obrigada a realizar autodiagnósticos periódicos sempre que nota pequenas distorções em seu funcionamento.

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Tony e sua preocupação com o uso de tecnologias derivadas de seus inventos

Outra que merece destaque é a seqüência que demonstra com mais clareza a idéia de que o grande objetivo de Tony Stark, ao criar o Homem de Ferro, foi estender os sentidos humanos através da tecnologia: ele e a armadura alcançam um nível de integração tamanho que, ao acessar a constelação de satélites da Starktec, se torna capaz de lutar contra membros da IGA (Idéias de Genocídio Avançadas) ouvindo um concerto de Bach, enquanto acompanha uma apresentação da filial inglesa das Indústrias Stark, ouve os lances de um jogo de beisebol, monitora um satélite prestes a ser invadido por um hacker, e retransmite dados de desempenho da armadura para sua diretora de operações, tudo isto em questão de segundos.

As histórias de Fraction ainda reservam espaço para reflexões filosóficas e políticas referentes à era em que vivemos, onde o avanço tecnológico ameaça lançar a humanidade em uma nova onda de ataques terroristas e guerras inimagináveis, o que ajuda o leitor a se envolver mais com a trama ao encontrar "ecos" de nosso mundo na ficção inteligente que conseguiu criar.

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Ataque de uma das bombas repulsoras humanas de
Ezekiel Stane à filial de Valência das Indústrias Stark

Outra bola dentro do escritor é a forma como trata a relação entre Tony e Pepper, mais uma conseqüência do filme, que deu grande destaque à personagem, interpretada por Gwyneth Paltrow. Fraction faz uso de uma ironia trágica para lançar o relacionamento do casal a um novo nível de envolvimento, tornando-os ligados por um fator em comum, e reforçando o papel fundamental da tecnologia sobre a vida das pessoas mais íntimas de Stark. Basta dizer que agora não apenas Jim Rhodes (a.k.a. Máquina de Combate) é um exemplar dos híbridos humanos/máquinas criados por Tony Stark.

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Cena meiga: Tony ensinando Pepper a voar até
ser interrompido pela vaca da Maria Hill

Mas tais histórias não teriam o mesmo brilho se não contassem com os desenhos de Salvador Larroca, um desenhista espanhol que, a exemplo do protagonista das mesmas, vem se aprimorando a cada novo trabalho.

Lembro-me dos primeiros trabalhos que li desenhados pelo Larroca, onde ele emulava o traço de Jim Lee, quando este ainda era muito aclamado (hoje em dia seu traço perdeu-se no meio de tantos "sósias"). Mais tarde aderiu a um estilo semelhante ao seu conterrâneo, Carlos Pacheco; teve sua fase influenciada pelos mangás; mas agora ele finalmente atingiu a maturidade, criando um estilo próprio, fotorealístico até certo ponto, que ainda assim consegue manter-se fluido e dinâmico, o que confere às cenas de ação o ritmo adequado e a clareza necessária para acompanharmos cada um de seus lances. Além disto Larroca é um ótimo desenhista de máquinas, requisito fundamental para as histórias do Homem de Ferro.

Mas Larroca é um desenhista que depende muito de um bom colorista, já que não faz muito uso de sombras e hachuras em seus desenhos. Felizmente ele conta com o ótimo Frank D'Armata, que soube usar os tons certos pra dar peso à arte do rapaz, fazendo uso de uma paleta de cores que confere mais realismo às cenas, e um visual cinematográfico às histórias.

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Tá na hora de virar o jogo, Tony!

Restando apenas mais um capítulo para sua conclusão, o arco "Os Cinco Pesadelos" tem se mostrado tenso, com suspense, ação e ficção-científica muito bem equilibrados em uma narrativa excepcionalmente bem conduzida por Matt Fraction e Salvador Larroca. O penúltimo capítulo, publicado mês passado em Avante, Vingadores! 33, mostrando a primeira luta direta entre Tony e Ezekiel, é empolgante o suficiente pra deixar qualquer leitor ansiosíssimo pra conferir o desfecho.

Homem de Ferro de Fraction e Larroca vem sendo publicado no Brasil desde Avante, Vingadores! 30. Torço para que a dupla ainda tenham muitas histórias pra contar. Os apreciadores de boas narrativas em quadrinhos agradecem.

E na 4ª parte desta série falarei sobre o Motoqueiro Fantasma de Jason Aaron. Até lá!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

[REVIEW] A Marvel fora da Invasão Secreta - Parte 2: Thor

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Continuando a série de textos sobre os heróis da Marvel cujos títulos regulares foram poupados da obrigação de entrar na onda da Invasão Secreta, neste falarei da fase atual de Thor, o Deus do Trovão.

Antes cabe uma breve recapitulação:

Em 2004 rolou a saga Vingadores - A Queda, republicada ano passado num encadernado pela Panini. Nela a equipe de super-heróis passava pelo pior dia de suas vidas. Muitas tragédias rolaram, Homem-Formiga, Visão e Gavião Arqueiro morreram, a Feiticeira Escarlate se revelou a culpada pela bagunça, que no final da história ficou louca, e foi passar uma temporada de repouso supervisionado pelo o papai Magneto e o maninho Mercúrio na devastada Genosha.

O que o Thor teve a ver com tudo isto? Nada, na verdade. Paralelo às desgraças que seus companheiros enfrentavam por conta da piração da Feiticeira Escarlate, em Asgard estava rolando "apenas" o Ragnarok, também conhecido como Crepúsculo dos Deuses Nórdicos, ou simplesmente, "Rapa fora, Thor, que já deu!"

Não li esta saga, mas sei que depois de muita batalha, muitos gritos e ranger de dentes, todos os deuses nórdicos, incluindo Thor, "se murio!", e foram mandados para o Vazio, o lugar para o qual as divindades asgardianas vão quando deixam de existir (sim, soa um tanto contraditório).

Daí que passou pouco mais de 3 anos e resolveram dar uma nova chance pro Deus do Trovão. Botaram a tarefa de ressuscitá-lo nas mãos de Joseph Michael Straczynski (nome imponente, não?), nos roteiros, e Oliver Coipel, nos desenhos. O primeiro já nos brindou com a ótima Poder Supremo, uma versão mais sombria e "realista" da Liga da Justiça, com o porém de ser publicada pela Marvel (!). O segundo foi o competente desenhista da saga Dinastia M, uma conseqüência direta de Vingadores - A Queda, onde a loucura da Feiticeira Escarlate chega ao ponto em que ela simplesmente dá uma repaginada NO MUNDO, e bota os mutantes como espécie dominante, e Magneto como o imperador da Terra (enfim, uma versão melhor escrita da saga Era do Apocalipse, de 1995, com o porém que desta vez quem mandava no pedaço era o Mestre do Magnetismo...).

De início o que chama a atenção na primeira história da dupla criativa é a idéia de que o Vazio não é uma dimensão à parte de qualquer outra, mas as profundezes abissais dos corações humanos. Com o Ragnarok os deuses asgardianos caíram, cada qual, num "vazio" diferente. Assim, Straczinsky delegou aos mortais a tarefa de permitir, ou não, o retorno dos deuses. É um conceito interessante, que remete tanto às idéias de C. G. Jung, sobre inconsciente coletivo e arquétipos, como à questão da origem da criatividade humana e da própria idéia de deuses como criações do ser humano, e não o oposto.

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Blake e Thor novamente vinculados

É uma abordagem criativa, pois Straczinsky embarcou no universo mitológico do personagem quando tudo que fora previsto na mitologia original já havia ocorrido com a versão super-heróica do deus nórdico. O Ragnarok era o único evento que restava, e quando finalmente aconteceu a situação tornou-se ainda mais complicada pro escritor que viesse a trabalhar com o personagem. Diante disto, sua preferência por uma nova abordagem, e a reformulação da mitologia asgardiana foi uma decisão acertada e revigorante.

Assim, os deuses asgardianos agora se encontram na mesma situação em que Thor se viu em diversas fases de sua vida: dependendo de um mortal para se manifestar na Terra, servindo de "canal" entre o plano divino e o mundano, com o porém de que, no caso dos demais deuses e divindades, é Thor quem decide quando vão se manifestar, e não seus "hospedeiros", como ocorre com Donald Blake, o médico que abriga em si a essência do Deus do Trovão.


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Ele podia escolher quais deuses voltariam a existir,
mas no final das contas acabou liberando geral. Tsc tsc tsc...

A reforma no papel dos deuses nórdicos também afetou a natureza de Asgard, seu reino, que agora não mais existe num outro plano dimensional, mas numa réplica mais "modesta" construída a partir de um naco do deserto de Oklahoma, sobre o qual fica pairando, de forma mais contemplativa do que imponente. É tempo dos deuses refletirem sobre seu papel nesta nova posição que ocupam.

Outra idéia bacana é a interação que esta abordagem mais "pé no chão" permitiu existir entre os deuses e os mortais, que até o momento foram representados pelos habitantes pacatos e simplórios de Oklahoma City. O melhor episódio até agora foi o do rapaz apaixonado pela deusa Kelda, uma beldade, que se afeiçoa pelo sortudo e o convida a fazer uma visita a Asgard. A cena em que ele tenta ensinar um bando de guerreiros asgardianos a jogar basquete é hilária!

Outro ponto a favor é a sacada de Loki ter "reencarnado" em uma mulher, tornando-se um mistério até que ponto tal mudança afetou seu caráter, isto até que comece a posar de boa samaritana, e a manipular as opiniões de alguns deuses a respeito da atual condição de Asgard fazendo uso de sua atual persona sedutora.

É também notável a maneira compassada com que Straczynski vem conduzindo a história. Sem a preocupação de trazer em todas as edições grandes combates e partir logo de um acontecimento marcante pra outro, a cadência mais suave com que tudo ocorre contribui na tarefa de realçar a sensação de que trata-se de uma fase mais reflexiva na vida daqueles personagens. Mas isto não o impediu de imprimir uma crescente inquietude que, a cada história, torna mais nítida a idéia de que algo grande está prestes a ocorrer, algo que aos poucos vem sendo preparado por debaixo dos panos. Toda a primeira edição, unicamente dedicada ao retorno de Thor, e a segunda, que mostra a reconstrução de Asgard, são ótimos exemplos de como escrever boas histórias a partir de uma idéia simples, e sem a necessidade de criar inúmeras sub-tramas pra prender a atenção do leitor até o mês seguinte.


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E finalmente... Asgard!


Claro que uma abordagem um tanto fora do convencional, no que diz respeito a quadrinhos de super-heróis, pedia um desenhista que se adaptasse à tarefa, e felizmente Straczynski teve a felicidade de conseguir Oliver Coipel para o trabalho. Um artista que apurou seu estilo desde seu trabalho em Dinastia M (o último antes deste que pude conferir). Usando um traço mais limpo, de linhas finas, econômicas e expressivas, suas figuras humanas são estilizadas mas sem cair em excessos e exageros, e soam muito naturais. Há ainda um tom épico em sua forma de contrastar os personagens e os cenários onde se encontram, e nota-se uma sutil influencia européia em sua maneira de conduzir a narrativa, especialmente na forma elegante com que desenha os vestuários dos personagens, e a forma como retrata a ação.

Straczinsky ainda consegue surpreender o leitor brincando e subvertendo clichês do gênero. Na terceira edição, quando Thor se encontra com o Homem de Ferro, após descobrir que o herói fora um dos responsáveis por cloná-lo e usar seu clone durante a Guerra Civil, que por sua vez foi responsável pela morte do Golias, era de se esperar mais um dos típicos quebra-paus entre os dois heróis. Mas o escritor, conhecendo a natureza de seu personagem, e lidando justamente com a idéia de que a estadia de Thor no Vazio deu-lhe tempo o bastante pra refletir sobre sua antiga agressividade e impulvidade, faz o Deus do Trovão dar uma baita lição de moral no Homem de Ferro, e colocá-lo em seu devido lugar, como um mero mortal dentro de uma armadura tecnológica que nem chegaria perto de dar conta de um acesso de fúria do loirão e seu Mjolnir. A parte física da coisa resume-se a um baita choque atordoante que Thor aplica no Homem de Ferro, apenas pra imobilizá-lo e calar sua boca e sua arrogância. Já estava na hora de ele ouvir um pouco. Afinal, quem mandou ele mexer com um deus?


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Cala a boca e me escuta!
(...) Gamei em você!


É de idéias simples e renovadoras como estas que os quadrinhos de super-heróis precisam. Felizmente ainda há caras como Straczinsky e Coipel pra nos oferecer um pouco de novos ares neste gênero que a cada ano nos entrega mais autoplágios do que ousadias.

Thor vem sendo publicado no Brasil pela Panini na revista Os Novos Vingadores, desde a edição 53.

P.S.: a partir da edição 67 a Panini deu uma pausa na fase escrita por Straczynski para a publicação da mini-série Secret Invasion: Thor, com histórias de Matt Fraction (de Punho de Ferro, série sobre a qual pretendo escrever em breve), e desenhos de Doug Braithwaite (da excelente maxi-série Justiça, publicada pela DC Comics) ligada à saga Invasão Secreta, que de início se mostrou interessante, embora soasse como uma quebra no ritmo e nas idéias desenvolvidas pelo escritor anterior. Mas, como a saga termina em dezembro, creio que logo em seguida veremos o retorno da dupla criativa ao personagem.

Até a próxima parte, quando elucubrarei a respeito da atual fase do Homem de Ferro. Aguarde e confie!


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E TENHO DITO!!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

[REVIEWS] A Marvel fora da Invasão Secreta - Parte 1

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Bucky Barnes, o sucessor de Steve Rogers

Enquanto em praticamente todas as séries mensais de super-heróis Marvel a Invasão Secreta ocupa boa parte das páginas, há aqueles personagens que ainda permanecem com seus respectivos títulos intocados pela supersaga do ano. E como eu já falei um pouco dela aqui no blog, desta vez achei interessante abordar as histórias que ainda não têm a menor ligação com o evento (embora eu pretenda voltar a fazer comentários a seu respeito num futuro post).


Pelo próprio fato de não sofrerem influência da Invasão, estas histórias já ganham um atrativo a mais, oferecendo uma opção aos leitores que buscam uma leitura mais descompromissada, que não os obrigue a ler praticamente todas as séries mensais da Marvel.

Vamos começar pelo Capitão América, cujas histórias atualmente contam a longa saga de Bucky Barnes assumindo o capuz e o escudo de Steve Rogers, a fim de dar continuidade ao seu legado.

Ed Brubaker, que vem escrevendo o título do personagem desde muito antes da Guerra Civil, a cada nova edição mostra um pouco mais de seu talento como escritor, sem apelar para grandes eventos e, o mais importante, sem a necessidade de ter um personagem icônico como Steve Rogers por trás do famoso uniforme que personifica a bandeira dos Estados Unidos.

É exemplar a forma equilibrada com que tem explorado todos os personagens coadjuvantes da mitologia do Capitão América, como Falcão, Sharon Carter, Viúva Negra, passando por breves participações do Tony Stark, e até mesmo personagens mais obscuros do passado do herói, como é o caso de alguns dos homens que já assumiram o uniforme do Capitão ao longo da história e que já pintaram nos capítulos anteriores escritos por Brubaker. Todos têm espaço o suficiente pra acrescentarem algo de relevante à trama maior que ele vem desenvolvendo pacientemente.


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Não é o Caveirão, mas toca um terror fodido

E já que toquei nela, merece elogios também todo o mistério que Brubaker vem criando em torno dos planos elaborados pelo Caveira Vermelha, Dr. Faustus e Arnim Zola desde o início de sua fase no título. Todos eles são vilões que no passado foram diversas vezes mal utilizados, e ridicularizados por atuações vergonhosas. Brubaker soube ressaltar muito bem o melhor (ou seria pior?) de cada um, de forma a criar histórias cheias de tensão e suspense, que conseguem este efeito mais pelo que está subentendido do que pelo explicitamente apresentado.


Na verdade toda a fase escrita por Brubaker até o momento pode ser encarada, pra usarmos um termo das grandes redes de TV americanas, como uma temporada cujo tema principal é a luta do Capitão América, não importando se trata de Steve Rogers ou Bucky Barnes, mas do símbolo que independe daquele que o porta, contra seu mais ferrenho inimigo, o Caveira Vermelha, que desta vez não está disposto a derrotar apenas o homem, mas também todo o mito por trás dele, seu legado, tanto física como psicologicamente. É mais um embate de conceitos diametralmente opostos do que uma troca de socos, chutes, explosões e escudadas de vibranium que ricocheteiam.

Nota-se isto não só relembrando o grande plano por trás da morte de Steve Rogers, mas também pela forma como o vilão vem procurando perverter tudo que faz parte do mito do Capitão América, destruindo e manipulando homens que já usaram o uniforme e o escudo em períodos onde Rogers esteve incapacitado, transformando a mulher que ele mais amou em sua principal arma na sua elaborada conspiração, e nas histórias mais recentes dando a entender que tem planos até mesmo para o filho que ela espera do herói falecido.


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Matar Steve Rogers foi só seu 1º passo

Muitos podem não ter gostado da pouca variedade de vilões a atormentar a vida do Capitão América na fase atual, mas acho que o Caveira funciona perfeitamente. Ele é tão vil e manipulador como Ben Linus, da série Lost, embora ele me lembre mais o saudoso Arvin Sloane, o grande inimigo de Sidney Bristow em Alias. E como a atual fase do Capitão América é uma longa série de histórias de espionagem, cabe muito bem aqui a citação a outra série do gênero.


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O Contemporâneo vs. O Clássico

Vale a pena correr atrás das histórias já escritas por Brubaker, todas publicadas aqui no Brasil na revista Novos Vingadores, desde a edição 25, ou esperar que a Panini republique as primeiras histórias de sua autoria em uma série de encadernados, o que será o meu caso, já que comecei a acompanhá-la somente após a morte de Steve Rogers, tendo que recorrer a scans na internet pra me inteirar do que havia ocorrido antes.


Continuarei a falar dos heróis Marvel que ficaram de fora da Invasão Secreta no próximo post, que tratará da ótima fase que vem tendo Thor, o Deus do Trovão, desde seu literal retorno do Limbo!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

[PODCAST] Conversando na Inexistência: Prisões, parte 2



Está de volta o seu, o meu, o nosso podcast mais amado do Brasil!

O esfuvisiante podcast volta para completar o papo sobre prisões com muito mais emoção!

O que está esperando? Ouça online agora!



Guia do Podcast
00:01 Introdução
00:40 Naufrago
01:16 Final Alternativo do Filme http://www.youtube.com/watch?v=JVaiA6sUvsg
01:30 Eles nunca sabem quando parar...
03:44 Papilon, parte 2
05:15 I want to break free
07:26 Prisões nos quadrinhos, a Ilha Riker
09:01 Mantendo os caras dentro
10:36 Prisão No 42 (Marvel)
12:45 Planeta Prisão (DC)
13:50 E os japa?
16:30 Asilo Arkham (e o cão do inferno)
21:00 O podcast foi gravado ANTES do lançamento do jogo Arkham Asylum
22:31 Arqueiro Verde: Escape From Super Max
24:10 Asilo Arkham, o filme?
24:54 Prison Break, o game?
26:40 A experiencia (não o da mulher pelada, o outro filme)http://pt.wikipedia.org/wiki/Das_Experiment
28:15 Jogos Mortais
31:46 O Senhor das Moscas
36:36 A Grande Escapadahttp://pt.wikipedia.org/wiki/The_Great_Escape
43:44 Alien 3 (será melhor abordado no proximo podcast)
48:00 Watchmen
50:27 Considerações Finais: Rodrigo
51:30 Considerações Finais: Cilon
51:45 LLL, textos sobre as prisõeshttp://www.sobresites.com/alexcastro/prisoes/mudancas.htm
52:33 Considerações Finais: Aélsio

E não perca o próximo podcast com o tema ALIEN e PREDADOR!


domingo, 19 de julho de 2009

[REVIEWS] Kick-Ass e Ultimate Wolverine vs Hulk

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Kick-Ass


Tá, vamos falar de Kick Ass, uma das HQs mais quentes do momento!

Sim, este sou eu falando de outro trabalho do Mark Millar! Sim, eu sei que estou soando um tanto repetitivo agora com mais um post onde falo de mais uma criação do autor! Mas, sinceramente, eu não me importo de que pareça que estou sem idéias, porque acredito que é sempre louvável falar a respeito de bons trabalhos de outras pessoas, e recomendá-los pra quem aprecia o tipo de arte que produzem.

Acho que antes de falar qualquer coisa sobre Kick-Ass, preciso deixar bem claro que não se trata de uma obra-prima dos quadrinhos, o que não a impede de tornar-se um dos trabalhos mais divertidos e empolgantes dos últimos anos, duas características que, felizmente, já se tornaram uma marca registrada da maioria das HQs escritas por Mark Millar.

A premissa é até muito simples. Dave, um garoto vivendo num mundo muito parecido com o nosso, fã de quadrinhos de super-heróis, não se conforma com o fato de até hoje não ter aparecido uma pessoa em todo o planeta que se engajasse na tarefa de se tornar um super-herói, justamente por existir tantas que admiram histórias protagonizadas por homens e mulheres que um dia decidiram vestir uniformes espalhafatosos e lutar pra fazer do mundo um lugar um pouco melhor, o que acaba rendendo a primeira das muitas frases que se tornam antológicas na HQ: "Por que tem tanta gente querendo ser a Paris Hilton, e ninguém querendo ser o Homem-Aranha?"

O inconformismo do rapaz acaba se tornando uma obsessão, quando ele chega à conclusão de que não há nenhuma profissão, nenhuma carreira a ser seguida neste mundo que irá proporcionar a mesma realização que teria se fosse um super-herói. Daí pro dia que resolve comprar pela internet uma roupa de mergulho que ele dá um jeito de transformar em seu traje é um pulo.

A forma realista com que Millar trabalha o conceito é exemplar, sempre reforçando a idéia de que tudo o que vemos através do traço de John Romita Jr., mais competente que nunca em sua segunda parceira com o escritor escocês, poderia perfeitamente acontecer no nosso mundo. Isto rende outra das melhores cenas da série até aqui, vista no final da segunda edição, quando Dave, sob sua identidade super-heróica, é visto atuando pela primeira vez em público, e tem sua luta com bandidos registrada pela câmera do celular de um dos espectadores, que não perde tempo em jogá-la no YouTube, começando, com isto, a ascenção meteórica da carreira de Dave como o precursor do surgimento de super-heróis no seu mundo, e dando a ele seu codinome, que por sua vez é o título da série.

A cada novo trabalho Mark Millar se firma um pouco mais como um dos escritores de quadrinhos mais criativos da atualidade. Seus trabalhos proporcionam ao leitor uma satisfação a cada dia mais difícil de se obter lendo séries regulares de super-heróis.

Achei particularmente genial a forma como o autor trata o surgimento de pessoas que vestem uniformes coloridos pra combater o crime inicialmente como uma "moda" que pega, pra mais tarde se tornar um estilo de vida totalmente novo, que acaba ganhando entre seus admirados um status comparável ao dos astros do rock. Difícil não pensar que, se algo assim acontecesse no nosso mundo, seria justamente dessa maneira que nós, pessoas "normais", lidaríamos com isto.

Mas os melhores momentos da HQ ficam mesmo pra quando Millar volta a se focar na vida de Dave, o protagonista que acaba se vendo no meio de uma revolução cultural pra qual deu início sem o menor controle. Suas reações ao alastramento de super-heróis, a forma como lida com sua identidade secreta diante do pai viúvo, e especialmente a maneira que encontra de falar sobre isto com a garota por quem é apaixonado, e pra quem finge ser gay, só pra ficar perto dela... É Millar se divertindo e ao mesmo tempo ousando cada vez mais.

Dave soa como um Peter Parker sem superpoderes, menos moralista, e mais egoísta. Sua vida, em dado momento, vira um caos de problemas dignos das melhores histórias do Homem-Aranha, e é delicioso ler seus comentários e reflexões a respeito de quão fodida sua existência se torna a cada dia.

Kick-Ass já está em sua 6ª edição nos Estados Unidos, e felizmente ainda não há uma previsão para o seu fim. A cada nova história ela consegue se sustentar não somente como uma extrapolação muito criativa a respeito da influência das histórias de super-heróis sobre a vida de seus admiradores, mas também sobre a maneira como os jovens de hoje assimilam, e muitas vezes abraçam, a violência como uma forma de expressar suas aspirações a uma vida menos conformista diante de um mundo tão cheio de regras, carreiras, e problemas que precisam passar por tanta burocracia e convenções sociais pra se resolverem.

É a rebeldia juvenil elevada a um nível somente permitido dentro dos limites de uma arte dinâmica como os quadrinhos. É a fome de viver no limite em um mundo que a cada dia que passa soa mais monótono e apático a tudo. Um mundo que talvez precise justamente de um visionário como Dave, vestindo uma roupa de mergulho, empunhando seus cacetetes, e mostrando pra todos que não quer seguir a porra das expectativas que a sociedade deposita nele. Também precisamos de um Kick-Ass!




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Ultimate Wolverine vs. Hulk


Damon Lindelof, uma das mentes criativas por trás da série Lost, devia seriamente considerar uma carreira paralela como escritor de quadrinhos. Neste seu primeiro trabalho fora da TV ele se mostra tão a vontade com o formato que não dá pra evitar a vontade de ver do que mais ele é capaz explorando outros personagens.

Graças ao seu papel-chave na condução da intrincada trama de Lost, Damon entregou o roteiro dos dois primeiros números dessa mini-série em seis edições há mais de três anos atrás. Somente em julho de 2008 ele arrumou um tempo em sua agenda pra retomar a história do ponto onde a havia largado. Felizmente toda a espera e espectativa em torno dela valeu a pena.

Ultimate Wolverine vs Hulk é a versão reformulada e contemporânea do primeiro quebra-pau entre dois dos super-heróis mais barra-pesada da Marvel. Como o próprio título indica, ela se passa no Ultiverso, uma versão alternativa do universo da Casa das Idéias onde heróis como os X-Men, Homem-Aranha e Vingadores ganharam uma repaginada em suas origens.

Lindelof já começa a história com uma splash-page pra deixar qualquer leitor ávido pra saber como o baixinho peludo vai se safar da enrascada em que se meteu. Esta eu faço questão de mostrar aqui, só pra deixar quem ainda não leu mais curioso ainda:



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RAAAAAAH!! Vamos ver se o seu fator de cura dá conta disto!


Mas, Lindelof não se permite apenas esta ousadia. Há também uma ótima sacada envolvendo a identidade da Mulher-Hulk, que ganha sua versão Ultimate na mini-série, do tipo que leitores de longa data vão adorar, e cuja implicação culmina na ótima frase: "Eu ainda não estou certo se aquilo era uma luta ou uma foda."

E tem mais! Ao contrário do que pode parecer, a mini não mostra uma longa troca de socos e chutes estrondosos, e garras de adamantium fazendo correr muito sangue verde, embora também mostre um bocado disto. Lindelof sabe o que a maioria dos leitores esperam de uma história envolvendo uma dupla de personagens que já têm um longo histórico de desentendimentos em seu passado no universo tradicional da Marvel, e por isto mesmo tenta fugir da maioria das convenções. E é aí que entra outro dos melhores elementos de sua história: os diálogos entre Logan e o Gigante Esmeralda. É uma troca de sopapos verbais que chega ao ponto de ser mais empolgante e divertida de se ver do que as páginas onde eles saem na mão.

E, como se tudo isto já não bastasse, Lindelof ainda brinca com uma das marcas registradas de seu trabalho em Lost: os flashbacks. É um vai e vem do passado para o presente, e deste para o futuro, que o tempo nas mãos do escritor parece um ioiô. Cenas são revisitadas e mostradas de novas perspectivas diversas vezes, ganhando um significado maior dentro da trama principal. Tudo muito bem conduzido de maneira que o leitor não chega a ficar totalmente perdido, e mesmo quando isto acontece mais adiante se mostra intencional, porque faz parte do show de Lindelof na condução da narrativa.

E, claro, não podia deixar de tecer alguns comentários sobre o lance mais polêmico da história: o tratamento dado ao fator de cura de Wolverine. Pela cena aí de cima vocês já podem ter uma idéia de algumas das extrapolações que ele se permitiu. Eu mesmo, quando a vi, fiquei pensando que já estavam indo longe demais com esse papo de que o baixinho pode se safar de qualquer tipo de ferimento. Mas, Damon também sabe disto, e muito provavelmente sabe dos absurdos que andam fazendo com o Sr. Logan de uns tempos pra cá, como pode ser comprovado na cena abaixo, retirada de Wolverine v3#48:



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Músculos e órgãos brotando de um esqueleto de adamantium?! WTF?!!


Pois bem. Muita gente chiou com a forma como ele interpreta o poder mutante de Wolverine na mini-série. Num primeiro momento realmente soa forçado demais. Porém, na minha opinião, Lindelof soube lidar com isto muito bem quando optou por não se levar tão a sério. Ele sabia que estava escrevendo uma história em quadrinhos de super-heróis onde extrapolações ocorrem praticamente a cada página virada, e sabia quão absurda soaria a "cena da cabeça", e felizmente soube tirar desta, e de outras tantas, algumas das melhores sacadas da mini-série, fazendo os próprios personagens tirarem sarro da situação absurda em que se encontravam, como num dos meus diálogos preferidos:

- Pode coçar pra mim o meu nariz?
- Por quê? Pra você comer meu dedo?
- Pelo menos você o pegaria de volta assim que eu o engolisse! *sorrisinho sarcástico*



Já o desenhista Leinil Francis Yu, apesar de suas limitações na hora de desenhar expressões faciais, se saiu muito bem ao longo de toda a mini-série, mantendo um trabalho competente e eficiente, imprimindo o ritmo certo tanto nas cenas de ação, quanto nos diálogos rápidos e certeiros que percorrem todas as seis edições.

Enfim, um embate muito bem escrito que superou todas as minhas espectativas. Vale a leitura, com certeza!