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terça-feira, 13 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #393 - Piplup

Baseado em uma história real.


Farham, Inglaterra em 5 de agosto de 1914

Minha amada Rosely,
Escrevo-lhe esta carta pela última vez em meu escritório antes de partir para aquela que será, com certeza, não só a maior aventura de minha vida, como a última grande aventura sobre a face da Terra. Sei que a idéia de que um grupo de destemidos homens tentará cruzar o Antártico de uma ponta a outra parece loucura a uma dama tão delicada quanto bela, mas lhe digo, meu amor, que um homem deve fazer o que um homem tem que fazer.
Partiremos esta tarde a bordo do Endurance, nesta empresa que deve durar pouco mais de um ano. Como sentirei falta deste escritório, deste cheiro tão particular de tabaco que meu saudoso pai levou anos para construir, de como o Sol bate sobre os móveis ao entardecer, e podem-se ver minúsculas partículas de pó!
Mas isso não é nada, claro, comparado ao tanto que sentirei falta de meu amado anjo nesta Terra, que certamente tomou longas noites de planejamento do Senhor para que tão perfeito ser fosse formado nesta terra! Linda, é assim que minha Princesa é, como se fosse pintada qual por pincel em tela fina! Amo ouvir sua voz pura cheia de ternura, amo seu riso, o leve som de seu beijo em meu rosto, flor de esperança. Amor perfeito, que céu pode escurecer com seu sorriso? Seu sorriso angelical, o som de uma doce flauta, é como o brilho do pôr-do-sol a nascer. Ah! Se pudéssemos guardar em uma caixinha esses risos mágicos e eternos... Amo seus olhos quando, ouvindo uma história, se enchem de mistério, o brilho de teus olhos.. O teu sorrir de criança! É a essência da minha vida.
Estou bastante ansioso, minha amada Rosely, essa expedição, além de aventura e conhecimento, me trará fama e dinheiro o suficiente para que possa me estabelecer, e finalmente nos casarmos como tantas vezes juntos sonhamos. Em pouco mais de um ano, será a respeitável esposa de um dos últimos bravos desbravadores deste mundo.
Sinceramente seu, John.

Plymouth, Inglaterra em 6 de agosto de 1914

Oh minha amada Rosely,
Escrevo-lhe a presente epístola ainda entornado em profunda emoção, pois agora tenho a certeza de que esta empresa será a maior aventura da história das grandes aventuras, e que assim está predestinada pelo desígnio divino. Bem, acho melhor explicar-lhe os eventos desta tarde.
Com grande cobertura da imprensa, a serviço de vossa majestade, o mundialmente famoso capitão Shackleton fez zarpar o Endurance em direção a Geórgia do Sul, onde encontraremos o navio de reabastecimento vindo da Nova Zelândia. Essa expedição será grande, todos ali sabiam disto, e pude sentir o olhar de inveja recaindo sobre mim, como único e exclusivo repórter da coroa britânica nesta missão. Shackleton é um veterano dos mares e heróico sobrevivente, tenho certeza de que não há nada a temer nesta jornada. É verdade que o norueguês Ronald Amundsen foi o primeiro a chegar ao Pólo Sul, mas com certeza esta jornada retomará a glória e a conquista para os braços da mãe de toda civilização: a coroa britânica.
Prova irrefutável disso foi que, algumas poucas horas após zarparmos, o Endurance foi abordado pela marinha real britânica. Não se preocupe, minha amada, não havia nada equivocado sobre a nossa embarcação, acontece que, como deve ter conhecimento, na noite de 4 de agosto de 1914, o governo britânico, sob o primeiro-ministro Henry Asquith, declarou guerra ao Império Alemão. Ora, guerras vêm e vão, e tenho certeza de que esta será breve, e não trará maiores conseqüências ao curso da história, e de mesma forma assim enxergou o sábio almirantado Britânico, que liberou o Endurance da convocação obrigatória de estado de guerra, e assim podemos finalmente partir em nossa aventura.
Como vê, a sabedoria dos homens e a providencia divina estão ao nosso lado, não há o que temer.
Com amor, John.

Recife, Brasil em 22 de outubro de 1914

Em triste estrada seguimos o mar
Em tristes dias triste tempo triste agonia
Em tristes solidões, tristes pensamentos
Me fazem falta seus alegres momentos
Sua alegria eterna, sua felicidade invejável
Seu sorriso angelical em meio ao mar maleável
Em meio às dores da vida, em meio às coisas ardidas
Seu sorriso me dava alegria
Como eu sinto saudade e queria ver
Nem que fosse só por um dia
Esse sorriso angelical que me trazia paz e harmonia...
Como me faz falta
Seu sorriso angelical...

Montevidéu, Uruguai em 14 de Novembro de 1914

Minha amada Rosely,
Percebo, quase acidentalmente, que já são quase três meses no mar, e pouca coisa realmente interessante há para relatar em águas conhecidas, a não ser minha saudade por ti. O que um não-marujo pode dizer sobre uma estadia de três meses ao mar que não possa ser emulado pela melhor das literaturas?
Temos 26 tripulantes além de Shackleton, compostos por cientistas, médicos, marinheiros profissionais, navegadores, ex-militares da Marinha Real Inglesa, além de mim, 69 cães mestiços para puxar trenós (os quais já conheço todos pelo nome a esta altura de viagem), dois porcos e um gato, que apesar do nome Madame Chippy, é macho. Nada particularmente incomum aconteceu até então, senão o fato de que adicionamos um clandestino à tripulação.
Conversei bastante com ele, seu nome é Perce Blackborow, e seu navio afundou. Ele e seu amigo Willian Bakewell estavam procurando emprego no porto, e o capitão contratou Bakewell, mas não Blackborow, devido à pouca idade e inexperiência. 17 anos e já tem um naufrágio nas costas, pode acreditar nisso Rosely?
Bakewell no entanto ajudou o amigo a embarcar clandestinamente, e ele permaneceu escondido no armário por três dias, enquanto o navio ancorava. Eu o descobri acidentalmente devido a Madame Chippy, e ele me implorou para que mantivesse o segredo até estarmos em alto mar, onde o capitão não teria muita escolha senão utilizar mais um par de mãos hábeis. Assim o fiz, e este será o nosso segredo.
O capitão Shackleton, entretanto, não pareceu nada contente com a adição, e a cena foi deveras memorável: desconfiado que os números de suprimentos não estavam fechando, reuniu toda tripulação no deck para um memorável sermão, que faria o mais tarimbado e antigo dos estivadores se encolher de medo. O carisma do capitão Shackleton é realmente apavorante: imagino que nada menos do que o necessário para sobreviver ao Antártico. Bakewell cedeu à pressão e, terrificado, confessou a verdade, apresentando seu companheiro ao capitão.
Shackleton terminou sua performance se aproximando de Blackborow e, a menos de um palmo do seu rosto, gritou “Sabe que nessas expedições nós freqüentemente ficamos famintos e, se há um clandestino a bordo, ele é o primeiro a ser comido?” com uma entonação suficiente para fazer qualquer homem adulto simplesmente se encolher e chorar, mas o garoto Blackborow apenas olhou o físico avantajado do capitão e respondeu “Eles teriam mais sorte tentando o senhor primeiro, senhor.”
Shackleton escondeu um sorriso satisfeito e o entregou para Frank Wild, com as ordens de “apresentá-lo ao cozinheiro primeiro”. Blackborow acabou se provando um valioso instrumento na tripulação, e todos achamos que no fim tudo acabou bem.
Dentro de 20 dias devemos chegar à Geórgia do Sul, e então a expedição realmente começará.
Com amor, John.

Ponto Rei Eduardo, Geórgia do Sul em 5 de dezembro de 1914

Minha amada Rosely,
Esta será a última carta que receberá em algum tempo, mas peço que não se preocupe, pois o motivo de tal é o melhor possível: estamos partindo hoje da Geórgia do Sul em direção ao outro lado do continente Antártico, de modo que não terei mais como enviar cartas. A civilização ficará para trás, e apenas a aventura nos aguarda. Naturalmente continuarei escrevendo como uma forma de registro, mas as epistolas daqui por diante muito provavelmente lhe serão entregues por minhas mãos, tal qual meu infinito amor e dedicação. Ore por mim, minha amada. Estaremos juntos em breve, não falta tanto agora.
Eternamente seu, John.

Ilhas Visokoi , Arquipélago Sanduíche do Sul em 24 de dezembro de 1914

Oh Rosely, oh Rosely!
Você deveria estar aqui para ver o que eu tenho visto nestes dias cada vez mais frios. Mas o frio, bem, o frio é um pequeno preço a se pagar por esta visão da criação em toda sua magnitude, que poucos homens tiveram e terão o privilégio de ver até o fim dos dias. É exatamente como se descrito pelo velho marinheiro: à nossa esquerda então o sol se levanta, do mar se eleva; em um claro esplendor... depois vai se pôr à direita no mar.
É uma visão única e impressionante.
Os icebergs que rompem a linha da água são colossos titânicos e impressionantes. Maiores que as mais altas construções que já vimos em Londres, e o capitão disse que estes são pequenos, pois degelaram bastante em seu caminho até aqui. Para qualquer lado que se olhe, não se vê a mão do homem, como se jamais houvesse existido neste mundo. Vimos, no entanto, alguns animais interessantes: baleias que são como ilhas explodindo em gêiseres no meio do oceano, cardumes de peixes e, próximo às ilhas, um tipo particularmente estranho de pingüim. São pequenos, andam desengonçadamente, e possuem marcas no peito como se usassem um casaco de inverno, os marinheiros os chamam de “piplups” devido ao piado agudo que eles emitem antes de mergulharem no oceano gelado (Piiiii.... *plup*)
Acho que você realmente ia gostar de ter um desses. Uma coisa estranha aconteceu, no entanto: perguntei brincando ao marinheiro Blackborow se eu poderia levar um desses de recordação, e ele me respondeu, muito sério, que esses animais são criaturas de mau agouro, e que se deve manter tanta distância deles quanto for possível. O que me surpreendeu nisso é que Blackborow não é o típico marinheiro supersticioso, já tive longas conversas interessantíssimas com ele, e o rapaz fala três idiomas, é realmente estranho que acredite nesse tipo de superstição. Mas bem, com superstição ou sem, prometo que vou levar ao menos algumas fotos para você desta fantástica viagem.
Feliz Natal, meu amor, que o Nosso Senhor abençoe os seus dias, como tem abençoado os meus.
Sinceramente seu, John.

Círculo Polar Antártico em 15 de janeiro de 1915

Rosely, meu amor,
Tivemos hoje o primeiro real contratempo neste empreendimento. Acordei ao som dos cães ladrando e dos homens trabalhando ruidosamente do lado de fora do navio, pensei por um momento que havíamos chegado ao nosso destino, mas o cronograma não fecharia. O navio praticamente não balança mais e, antes que eu pudesse me vestir e sair da minha cabine, ouvi a madeira estalando ruidosamente. Foi um grande susto que tomei, mas não tão grande quanto o que tomei ao chegar ao convés, e perceber que não havia água ao redor do barco! Logo encontrei o capitão, e ele rapidamente me pôs a par da situação: durante a madrugada um bloco de gelo escorregou por baixo do Endurance e, ao emergir, levantou o navio no alto de uma pequena plaforma. Agora os homens estão cavando uma rampa para devolver o navio ao oceano, mas deve levar algumas semanas na melhor das hipóteses. Do contrário a outra opção é esperar o bloco de gelo nos levar por algum lugar.
De qualquer forma, parece ser só um contratempo, o capitão não parece preocupado.
Sinceramente seu, John.


Círculo Polar Antártico em 02 de fevereiro de 1915

Rosely, minha amada,
Temo que minha estadia aqui vá demorar um pouco mais do que o esperado. O capitão Shackleton está cancelando o processo de escavação do gelo por vários motivos: o primeiro, e mais importante, é que os homens e os animais estão cada vez mais famintos com o trabalho duro e, neste ritmo, as provisões vão acabar antes que consigamos algum resultado. Houve um deslizamento e alguns cães morreram, além dos marinheiros Bolts e Kinglesthorn ficarem feridos. Nada grave, não se preocupe.
O capitão disse que o melhor a fazer nessa condição é esperar o bloco de gelo no qual estamos presos nos levar próximo ao continente, ou a uma das ilhas, e de lá seguir em um pequeno bote para conseguir ajuda de um rebocador. Até lá estaremos à deriva, mas não se preocupe: temos suprimentos suficientes, e o cozinheiro me disse que, por via das duúidas, não iria enterrar os cachorros mortos. Achei que fosse brincadeira, mas ele me pareceu bastante sério. Seja como for, não se preocupe. Logo estarei em casa.
Com amor, John.

Círculo Polar Antártico em 9 de abril de 1915

A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfriar...
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.
E o vento cede, as velas cedem... Quem iria
Tristeza mais triste encontrar?
E nós falávamos tão-só para romper
O silêncio do mar!

Rosely, minha amada Rosely, a cada dia que passa os dias vão ficando cada vez mais curtos, e as noites cada vez mais longas. Tive uma longa conversa com Blackborow e ele disse que, conforme a sua experiência, a menos que o bloco de gelo bata em outro, dificilmente vamos sair daqui antes de terminar o inverno.
Ore por mim, minha querida.

Círculo Polar Antártico em 19 de junho de 1915


Santelmo urdia à noite um coriscar de açoite,
Turbilhão e tropel;
A água - um óleo de bruxa - verde, azul e branca
Ardia sob o céu.
E alguns em sonhos garantiam ver o Espírito
Que atormentar nos deve;
Nove braças ao fundo, havia nos seguido
Do lar de névoa e neve.

Está fazendo mais frio a cada dia. Os dias estão ficando cada vez menores e, com eles, a disposição e o humor dos homens. Estamos morando há mais de seis meses neste bloco de gelo, navegando sem rumo ao sabor do oceano. As provisões estão diminuindo perigosamente, e não é mais incomum ocorrerem brigas devido ao cansaço, a fome, o frio ou uma combinação sinistra de ambos. Alguns homens já falam em sacrificar os cães, outros em sair para caçar alguns piplups, mas, de qualquer forma, está muito frio para fazer qualquer coisa. Mesmo escrever tem sido extremamente penoso, o inverno aqui é cruel como jamais pode ser imaginado, e temo que meus dedos acabem quebrando como pedaços de cera se eu forçá-los demais. Continue rezando por mim.
John.

Círculo Polar Antártico em 9 de julho de 1915

Eu não posso ir para casa
Eu não posso dormir
Eu não posso dar
Eu não posso receber
Quero ir para longe deste baile de soldados abatidos
Para casa, você ainda se lembra de mim?
Eu não tenho palavras melhores do que "obrigado por seu amor "
Eu não quero morrer aqui.

Círculo Polar Antártico em 13 de agosto de 1915

Depois de meses de aluguel atrasado, finalmente o cruel inverno antártico cobrou seu preço. O bloco de gelo onde o Endurance está se partiu, e o navio afundou numa fossa. Estamos esvaziando o navio e montando acampamento ao céu aberto, é só questão de tempo até a força descomunal do gelo esmagar completamente o Endurance. Perdemos alguns homens no deslizamento, assim como alguns cães, o que ironicamente aumenta um pouco nossas chances, devido a racionalização dos suprimentos. Passamos o dia inteiro com fome e com frio, mas ninguém fala senão o extremamente necessário. A dor no corpo devido ao frio é tanta que mal conseguimos dormir, isso quando não somos acordados pelos estalos ruidosos do Endurance sendo lentamente mastigado pelo gelo.

Círculo Polar Antártico em 31 de agosto de 1915

Após nove meses entalado, esta noite o Endurance finalmente sucumbiu à pressão do Antártico e é desmantelado pelo gelo, e seus restos são tragados pelo oceano. Vimos com melancolia e impotência o nosso lar nos últimos 12 meses sumir entre as prístinas água salgadas do oceano.
Restaram agora 20 homens, 14 cães, um acampamento, um bote salva-vidas, e mantimentos que não serão suficientes para todos.

Círculo Polar Antártico em 13 de setembro de 1915

Nosso suprimento de alimentos está quase acabando, de modo que mesmo o mais supersticioso dos homens está disposto a caçar alguns piplups, e qualquer outra coisa viva que se possa encontrar nessa região. Além do mais, como nossa sorte pode ficar pior do que já está? Os ventos gelados do inverno, e as tempestades de neve, provaram que a escolha do material usado em algumas das roupas mais leves foi um erro enorme. Elas encharcam constantemente, e a água dentro das botas causa sérios problemas de circulação do sangue. Cinco tripulantes estão com tuberculose, e outros quatro com gangrena nos pés, inclusive eu próprio, e meu amigo Blackborow. Fica cada vez mais claro que não resistiremos a outro inverno, e que temos que nos preparar para zarpar assim que o verão chegar.

Círculo Polar Antártico em 23 de setembro de 1915

Ainda escrevo apenas para ter algo com que manter a sanidade. Jamais mostrarei tão horríveis relatos a Rosely. Caçar os pingüins tem realmente se mostrado uma tarefa infernal, nós perdemos três homens em bolsões de gelo fino, e um atacado por um leão marinho. Imagino que realmente essas criaturas devem realmente ser amaldiçoadas, e a superstição dos marinheiros, da qual zombei do alto de meu conhecimento acadêmico, estava correta. Neste lugar, de que valia possuir um diploma ou um doutorado? A morte, o frio e a insanidade não pedem credenciais, ao contrário do que gostamos de nos iludir enquanto estamos quentes e protegidos em nossas cidades. Essa é a grande verdade da vida e ao mesmo tempo a piada da existência humana.
Falando em piada, durante o dia, e a noite toda, ouvimos o piado irritante daquelas criaturas, e me pergunto se não seria melhor simplesmente furar os tímpanos do que continuar com essa tortura. Em face da dificuldade e do risco em conseguir carne de pingüim, vamos sacrificar os cães que restam nos próximos dias, embora só de olhar pode-se ver que não há muita carne a ser tirada deles.

Círculo Polar Antártico em 7 de outubro de 1915

Apesar da chegada da primavera, o caminho para o mar parece não vir tão cedo, mas na primeira chance o capitão e os poucos homens ainda capazes se lançarão ao mar tentando chegar à ilha Elefante. Desistimos de caçar piplups devido à complexidade e ao risco da tarefa, não fosse o bastante esse bloco de gelo ser instável como areia, os bichinhos ainda têm a capacidade de cuspir água com força, e tudo que você não quer aqui é ficar molhado. Foi assim que minha gangrena piorou. Esta semana mais três homens pioraram da pneumonia, tuberculose ou qualquer coisa assim, e Blackborow teve os pés amputados por causa da gangrena. Amanhã será a minha vez.
Inferno na Terra esquecida por Deus em 10 de outubro de 1915

O capitão partiu no bote salva-vidas acompanhado de 3 homens, mas eu nem percebi. Ontem meus pés foram cerrados devido à gangrena, utilizando uma faca de cozinha quase cega, e sem nenhum tipo de anestésico, bebida ou atenuante, senão praguejar e gritar. Meus pés foram cerrados. Lentamente.


Círculo Polar Antártico em 27 de outubro de 1915

Hoje sacrificamos Boris, o último dos cães que embarcaram conosco. Amputado, há mais de meses comendo apenas gordura de foca, carne de cachorro, e eventualmente um biscoito integral (eles estavam sendo racionados, mas mesmo assim terminaram semana passada), nada me resta senão ouvir aqueles malditos pingüins do inferno zombando de mim dia e noite. Eu não me importo mais em comê-los, apenas queria esganar um por um daqueles demoniozinhos azuis, para que eles fechem sua maldita matraca do inferno.

Círculo Polar Antártico em 15 de novembro de 1915

Estou com febre, possivelmente uma infecção devido à amputação. Passo o dia oscilando entre delírios, sonhos, fome e frio. Lembro de uma velha canção que costumávamos ouvir juntos, lembra disso?
Viaje para a Lua
Você está dormindo, resolvendo um sonho
enquanto a luz da estrela deserta puxa as cordas do fantoche
Eu me esqueci de sorrir para poder ser forte
Tenho certeza de que se estivermos juntos, eu posso consegui-la de volta
Note que
Eu estou aqui esperando por você
Mesmo se o futuro for diferente de agora
Estou aqui esperando por você
Gritando
Certamente o meu coração está dobrando no fio que nos conecta
Não era preciso chorar
para me acordar naquela época
E por Deus, o que é preciso para tirar o piado agudo desses pingüins da minha cabeça? Por que eles não param? POR QUÊ? CALEM A BOCA SEUS MALDITOS MONSTROS DO GELO!

Círculo Polar Antártico em 21 de novembro de 1915

Formigas vivem em formigueiros. Ursos vivem em cavernas. Pessoas vivem em CASAS... não no gelo. Pessoas não são cobertas com pele, e nossos corpos não se dão bem com frio, chuva ou vento. Nosso pé dói se pisamos numa simples pedrinha afiada. O frio congela nosso sangue, e os malditos pingüins não calam a boca, não consigo dormir. Estamos absolutamente sem comida há três dias, não sinto nada da cintura pra baixo, e as malditas criaturas piam noite e dia. Bem, se houvessem noites e dias aqui... Acho que deu para entender.
Não temos nenhuma noticia do capitão ainda, possivelmente ele está morto, e nenhuma ajuda virá.

Círculo Polar Antártico em 28 de novembro de 1915

Décimo dia sem comida, nós chegamos ao nosso limite. Eu sei o que acontece agora. Ouvi os homens falando enquanto eu fingia delirar de febre. Ou eu realmente delirava de febre? Acho que é inútil conjecturar a esta algura. O suprimento de carne acabou, mas existe onde conseguir mais sem ter que correr atrás dos malditos pingüins do inferno que só nos levam à ruína. Olhei ao redor. Parece que eles planejavam levar as palavras do capitão ao pé da letra. O clandestino seria o primeiro a ser...
Preciso fugir daqui, preciso ir embora, preciso sair desse inferno com o pouco de humanidade que me resta. Prefiro morrer no gelo fora do acampamento, talvez eu consiga ainda esganar um ou dois malditos pingüins antes que eu morra. Sim, é o que farei: vou rastejar para fora daqui enquanto todos tiverem dormindo. Morrerei, certamente, mas morrerei ao menos como um cidadão britânico. Ao menos isso.

Anotação final em 29 de novembro de 1915

Minha amada Rosely,
Nestes dias cruéis, invernais e infernais, perdi tudo que era mais importante para mim antes desta fatídica viagem. Perdi minha fé em Deus (apenas quem nunca esteve neste inferno gelado pode acreditar que tal ser realmente existe, e se existe é ridículo acreditar que ele se importa, ou tem algum bom sentimento no coração), perdi meus pés e, honestamente, perdi minhas memórias de você. Não lembro como é o seu rosto ou a cor de seus olhos, e todas as lembranças boas que remanescem parece que aconteceram com outra pessoa... em outra vida.
Não sei se ainda te amo. Será que sinto algo por você? Eu ainda sinto algo?
Choro às vezes, querendo lembrar. Minhas lembranças se foram.
Como você era? Que tipo de pessoa você era? Que tipo de pessoa eu era antes disso tudo?
Não sei se ainda te amo.
Não sei se o meu coração ainda reagiria à tua voz. Não acho que meu coração reagiria a mais nada.
Ou se meu corpo ainda reagiria ao teu toque. Não acredito mais que preciso do teu olhar para viver.
Tua presença já não me faz falta, pois nada mais me faz falta: estou acabado.
Nossa música é apenas uma canção antiga. Teu perfume é só um cheiro que consegui guardar em minha mente. Tua foto no álbum só representa um conhecido de alguns anos atrás... Não sou mais humano o suficiente para ter sentimentos tão profundos.
Acho que não consegui fugir a tempo, minha humanidade se foi.

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John era exatamente o que você via: um farrapo humano delirando entre a fome, o frio, a febre (causada pela infecção da amputação nada cirúrgica) e a falta de sono. Nesta época do ano os piplups escolhem os parceiros para o próximo inverno, e por esse motivo os machos da espécie cortejam as fêmeas disponíveis. Acontece, entretanto, que os piplups possuem uma proporção natural de 87,5% de machos para 12,5% de fêmeas, de modo que a disputa por uma fêmea é bastante acirrada, e é freqüente se ouvir por dias a fio os cantos de cortejo dos piplups, o que para humanos soa apenas como meros pios.
Além de tudo, John estava convencido de que seria canibalizado por seus colegas de desastre assim que estes devorassem o seu amigo Blackborow primeiro, e que precisava fugir dali antes que a última desumanidade se abatesse sobre ele. Devido aos delírios, e devido também à forte cena do discurso do capitão, que ficou gravada impressionantemente em sua mente, John não compreendeu perfeitamente o que acontecia entre os homens naquele momento: eles realmente discutiram se deveriam antropofagisar o marinheiro Blackborow, mas isso devido ao fato de que ele havia falecido há poucas horas, fato esse que John nunca veio a tomar ciência, e pensava que se tratava de comer uma pessoa até então viva. Se você pensar no assunto, as duas possibilidades são realmente horríveis, mas a que John vislumbrava conseguia ser pior devido a uma boa margem de votos.

Enquanto todos dormiam, John se arrastou pela neve, engatinhando, agarrando-se com unhas e dentes a qualquer saliência que pudesse usar para avançar e sair na direção do acampamento, praticamente uma escalada. Sua cabeça doía, seus olhos lacrimejavam de fome, e arrastar os cotocos feridos que outrora foram seus pés na neve não parecia igualmente menos doloroso.
Mas ele sabia onde ir, em seu delírio e loucura não havia espaço para dúvida. Seguiu o incessante piado até a beirada do bloco de gelo, onde alguns piplups estavam reunidos, mas mergulharam assim que o avistaram. Tomado por uma loucura animal, por um ódio contido e guardado contra tudo que havia lhe acontecido até então, uma última tentativa desesperada de tirar do peito tudo que não mais lhe cabia, ou então apenas a mera chance única de descontar em alguém antes do fim, se jogou como uma lince ensandecida sobre o bando de piplups à beira do bloco de gelo, e todos pularam na água, exceto por um, que John conseguiu agarrar firmemente entre seus dedos.
Como já foi dito, era um farrapo humano, sim, uma sombra patética do que já fora um dia enquanto pessoa, sim, e agora, a um passo de ter sua insana vingança, brilhava em seu olhar um brilho de loucura e insanidade, que conseguiam deixar suas feições mais profanas e perturbadas do já era até então. Com efeito, John começou a rir. Rir alto e insanamente, rir como um doente demente.
Por um momento esqueceu a dor, o frio, a fome e a desesperança onipresente do Antártico, e apenas sentiu a criatura, o filhote, não, mais do que isso, a VIDA pulsando, se debatendo em suas mãos. Então disse ele ao filhote entre seus dedos, com um carinho e ternura impares, como se esta fosse a criatura mais amada em toda história da criação até este ponto. Suas mãos, portando a pequena ave, tremiam. Seu queixo batia comulsivamente, seu nariz estava congelado e seus joelhos simplesmente queimavam sobre o gelo. Ainda sim, ele disse com todo carinho e cuidados humanamente possíveis:

“E tudo que eu sinto é este momento
E tudo que eu respiro é sua vida
Porque mais cedo ou mais tarde isso acabará
E eu não quero sentir sua falta essa noite

E eu não quero que o mundo me veja
Porque não creio que entenderiam
Quando tudo estiver destruído
Eu só quero que você saiba quem eu sou
E eu desistiria da eternidade para toca-lá
Pois sei que você me sente de alguma forma
Você é o mais próximo do paraíso que eu chegarei
E eu quero ir para casa agora .”

Dito isso, abocanhou com uma mordida só a cabeça do pinguinzinho, o que foi uma cena particularmente dantesca, tendo em vista que ele efetivamente arrancou a cabeça do animal em troca de alguns dentes e pedaços da sua gengiva. John começou então a chorar compulsivamente, infantilmente, de forma aberta e abrupta, como homem algum deve jamais chorará em momento nenhum.
Como tudo mais na vida, esse ataque insano de insanidade não pôde deixar de ter conseqüências, e efetivamente as teve: de imediato outros piplups surgiram para defender o da sua espécie. Como não havia mais o que defender, pois o filhote já havia sido decaptado, restava a boa e velha dose de ultraviolência e vingança pessoal. Os pingüins bicaram o que conseguiam alcançar de John, o que incluía (mas não limitava a) seus olhos, sua gengiva, suas amputações nos pés, e seus dedos congelados que quebravam como velas de cera. A dor inenarrável, velha companheira de toda desventura humana. Os nervos sensoriais registrando cada célula de sua língua sendo arrancada por bicos inclementes, suas iris sendo atravessadas e coisas de menor calão.

Mais ou menos na altura em que os pingüins estavam mordendo sua língua, como se fosse um pinto pegando uma minhoca (e, com efeito, arrancando-a) John sentiu vagamente alguém o arrastando dali, puxando-o pelo que restara de suas pernas.
Sem poder enxergar (pois as bicadas levaram seus olhos) ou falar (assim como sua língua), John pôde ouvir perfeitamente a voz do capitão Shackelton, que havia acabado de retornar com uma traineira para tirá-los dali e levá-los para casa. Ah, se ele ao menos tivesse chegado dois minutos antes...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #039 Jigglypuff

Pokémon Sickness é uma nova série de textos que eu postarei aqui no blog, em parceria com o Aélsio, que fará ilustrações.

Bem, o que é Pokémon Sickness? São contos isolados, cada um sobre um dos monstrinhos, sem nenhuma relação entre si, senão o fato de que se passam no mesmo universo.

Outro ponto em comum às histórias é que elas tentarão buscar o que há de mais doentio, asqueroso e perverso na pobre alma deste que vos escreve. O que implica que as histórias envolverão temas como drogras, estupro, mutilação, suicídio, tortura, incesto, abuso infantil, e daí ladeira abaixo. Sim, isto com pokémons.

Então, eu realmente recomendo que simplesmente pule os textos desta série caso se sinta ofendido, tenha menos de 18 anos, ou simplesmente não vá muito com a minha cara. Bem, era o que tinha a explanar. Aos que decidiram continuar, bom texto, e obrigado pela preferência.

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Ricardo foi tomado por um sentimento branco, puro e cristalino. Como se mergulhasse em uma piscina de luz quente. Isto deveria ser a sensação equivalente, ele ponderou, a perder a virgindade, embora quanto a isto ele poderia tão somente imaginar. Fosse como fosse, o que realmente importava é que ele havia finalmente feito. Estava concluído, não podia ser desfeito agora.

Não que ele sequer pensasse em desfazer, é claro. A inigualável sensação de possuir borboletas dançando no seu estomago lhe dizia que ele estava fazendo certo, era uma embriagante sensação de triunfo – até onde ele se lembrava, a primeira em muitos anos que não tinha qualquer relação com World of Warcraft.

Passou a língua sobre os lábios secos mais uma vez, e seus dedos correram pelo teclado, checou seu e-mail no Gmail, e um abismo de decepção o invadiu quando não viu a faixinha branca de nova mensagem no alto da lista de e-mails (todos compostos por mensagens em fóruns, notificações do YouTube, listas de discussão e coisas do gênero – nenhum email pessoal, até onde podia ser visto na tela). Respirou fundo, e então ele viu o contador de novas mensagens modificar para (1), e novamente a euforia triunfante tomou conta de si. Era isso, havia sido confirmado, tudo aconteceria conforme ele planejara. Estava confirmado. Havia feito. Haviafinalmente comprado.

Tamanha foi a euforia que quase emitiu um som – definitivamente estava nos seus melhores dias.

Finalmente aliviado, se largou para trás na cadeira. Quem olhasse sua expressão poderia julgar que ele acabara de desarmar uma bomba, completar uma neurocirurgia de 14 horas, ou construir um castelo de cartas de 4 andares. Mas nada disso, não foi isso que ele fez. O que ele havia feito era comprar algo na internet.

Ora, não é a compra em si que o deixou nesse estado de vitória e superação, já que nenhuma anormalidade consistia para ele comprar produtos pela rede, a bem da verdade muito mais era o processo inverso, sobretudo quando envolvia (bate na madeira) falar com pessoas. Não, não foi o que ele comprara, e sim a finalidade com a qual ele comprara. Esse era o segredo aqui, essa era a pergunta do milhão de dólares: não “o que”, nem “como”, mas... por quê?

O que, você me pergunta, leva alguém a este estado semi-nirvanístico apenas com uma simples compra na internet? E eu te responderei: o mais antigo e nobre de todos os sentimentos, aquilo que nos define como espécie única dentre todas. O sentimento sobre o qual foram construídos reinos, impérios e nações, o sentimento em nome do qual vidas foram arruinadas, purezas maculadas e chagas propagadas. Enfim, o mais humano de todos os sentimentos, filha mais velha do ódio com a impotência: a vingança.

Ricardo tocou o seu próprio ombro, tenso. Imaginou por um momento como seria a sensação de ser tocado por outra pessoa, mas tentou afastar esses pensamentos: uma coisa de cada vez, e não podia sonhar longe demais, ao menos não agora. Não agora que finalmente estava tão perto de finalmente realizar alguma coisa. E só então se deu conta de que estava tão perto, embora essa súbita ciência também o fez perceber o quão profundamente apavorado estava. Realmente ia acontecer, não ia? Não era mais um plano idiota de criança, ou nada do tipo, era uma realidade... Cara, isso realmente o assustou!

Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, afastando os pesados óculos de aro grosso com a outra mão. Tentou se concentrar, lembrar do que estava fazendo, do por quê estava fazendo, do que ele precisava fazer para finalmente poder seguir com a sua vida.

A primeira vez que ele viu Amanda foi no dia em que ela foi transferida para a sua escola. Isso era por volta dos seus catorze anos e, Deus!, como ela era perfeita. “Ela sorria como um anjo, e deve chupar como um demônio”, foram esses seus exatos primeiros pensamentos ao vê-la pairando graciosamente no corredor da escola daquele verão. Mesmo naquela idade ela já possuía seios empinados e firmes, e pernas que fariam um cavalo de corrida ficar deprimido. Ah, o rosto de anjo e as madeixas loiras, tão absolutamente perfeita...

O segundo pensamento depois disso envolve uma parede branca, e um bocado de sangue e reboco no seu nariz. Aparentemente algumas pessoas pensavam que ela era boa demais para ser observada por alguém como ele, o que era uma opinião da qual ele próprio compartilhava. Quer dizer, se Deus quisesse que ele pudesse ficar no mesmo hectare de alguém como ela teria lhe dado alguma qualidade, não é mesmo?

A resposta mais provável era “sim”, e naturalmente poucos neste mundo duvidariam disso. E Marcos era uma dessas pessoas. Marcos, no entanto, tinha uma forma toda própria e especial de demonstrar ao mundo, e sobretudo ao patético Ricardo, o que ele pensava. Essas “demonstrações de opinião” usualmente terminavam com Ricardo na enfermaria, e essa não seria uma exceção.

Obviamente que ele disse, quando questionado pela professora responsável, que escorregou. Sozinho. Parado no meio do corredor. Ok, Ricardo era um péssimo mentiroso, mas o que mais ele poderia dizer? Que o cara mais “cool” do colégio bateu com a cabeça dele contra a parede, apenas porque ele estava olhando a garota nova, e absolutamente perfeita, que provavelmente Marcos já estaria enjoado de comer até o fim da próxima semana? É, certo...

Ser feio, tosco e patético já era suficiente, não precisava ser suicida também, obrigado.

E além disso, mesmo que ele contasse a verdade, que diferença faria? Se em um sonho louco de verão Marcos fosse, sei lá, expulso, e ele sobrevivesse o bastante para continuar freqüentando o colégio, e a turminha de Marcos simplesmente “deixasse passar”, se todas essas coisas improváveis acontecessem... mesmo assim nada mudaria. Levaria menos de uma hora para que algum candidato a macho alfa do colégio tomasse o seu lugar. Afinal de contas, era isso que as garotas gostavam e, infelizmente para ele, pisar em caras como ele (literalmente também, mas não limitado a) é parte do ritual de acasalamento da nossa espécie. Alguns nascem para ser o herói do filme de artes marciais, alguns nascem para ser o figurante que entra em cena só para tomar porrada e fazer o herói parecer mais heróico ainda.

Essa, naturalmente, não foi a única vez que os “caras legais” da escola o lembraram de qual era o lugar dele, sob o olhar de aprovação das garotas que ele queria para si. Nem todas as vezes envolviam dano físico, embora seus algozes não fizessem muito esforço para impedi-lo, e sim toda sorte de humilhação que se possa imaginar. Nesses anos todos, Ricardo acabou aprendendo algumas lições valiosas: que havia uma forma certa de se vestir (que envolvia nunca, jamais, chamar a atenção, e apenas usar roupas basicamente iguais), que sua memória era a única coisa com a qual ele podia contar ao voltar da escola (cadernos, livros e materiais escolares NÃO eram para os fracos, conforme ele constatou), e que havia pessoas para as quais ele não podia olhar, lugares que ele não podia ir, e caminhos que ele não devia seguir. Falhar em compreender essas lições, entre outras, lhe resultou aprendizados extremamente desagradáveis, como por exemplo: poucas pessoas podem realmente dizer qual o gosto do excremento humano ao paladar. Ricardo podia.

Como eu disse, não foram lições nem tampouco fáceis de se aprender, e isso é mais do que é necessário dizer sobre sua adolescência.

A partir desse ponto, você já deve ter concluído sobre quem se tratava a sua vingança. O que você deve estar se perguntando é como ele faria isso. Havia Ricardo comprado uma arma na internet, e pretendia entrar em uma festa e sair atirando em todos aqueles cães cretinos? A resposta é não.

Vou mentir se disser que Ricardo realmente nunca considerou essa possibilidade, mas essa não é uma boa idéia. Não porque ele seja capaz de sentir qualquer proto-sentimento de compaixão ou perdão, nada disso. O que fez Ricardo abandonar essa idéia foi simplesmente que outras pessoas já haviam feito isso, e o resultado simplesmente não era bom. As “vítimas” saiam como pobres anjinhos imaculados do Senhor, enquanto o cretino miserável que havia feito isso era apenas um desequilibrado mental sem motivo, provavelmente nazista e pedófilo nas horas vagas. O que, absolutamente, não era verdade, mas no fim era como as pessoas viam as coisas. Isso o fez abandonar a idéia das armas, se Ricardo fizesse isso eles venceriam.

E ele teria sua vitória, nem que fosse a última coisa que pudesse fazer na vida, pelo menos uma vez na vida ele venceria. Nem que fosse uma só, mas ele a teria, e faria valer a pena, faria valer cada segundo. Esse era o pensamento que o mantinha agora, e o fazia se sentir tão vivo e, pela primeira vez, tão … no controle. Essa vez, e só dessa vez, as coisas aconteceriam do seu jeito. Ele teria sua vingança.

O e-mail na caixa de entrada do Gmail confirmava isso.

Teria sua vingança pois o que ele havia comprado não era nenhum tipo de arma, nem nada do tipo, era na verdade algo muito, muito, muito mais... especial...

Duas semanas depois, Ricardo estava agachado atrás de um arbusto do outro lado da rua, onde era a festa de formatura da turma do segundo grau. Todos foram convidados, inclusive Ricardo – o que era uma espécie de última sacaneada para com ele. Não que ele fosse tão importante assim a ponto de merecer uma última pegadinha trabalhada, ele nunca foi nada disso na vida de ninguém.

Depois daquilo cada um provavelmente seguiria um rumo diferente. Alguns iriam para a faculdade, alguns iriam abraçar um emprego, alguns viveriam do dinheiro dos pais, e alguns viveriam da sua boa aparência enquanto pudessem. Enfim, um final de segundo ano particularmente comum, e não era preciso dizer qual dentre esses seria o destino que Amanda abraçaria, ou vice-versa.

Ah, Amanda... tinha planos muito especiais para ela essa noite. Com certeza ela jamais esqueceria enquanto vivesse, e esse pensamento em particular causou um sorriso em Ricardo. Se de nervosismo ou felicidade, ou qualquer outra coisa, jamais saberemos. Nesse instante ele a viu de relance enquanto ela descia de algum carro que custava mais do que todo dinheiro que já passara nas suas mãos até então, embora não tenha visto mais detalhes, pois instintivamente se escondeu no arbusto do outro lado da rua como se ela pudesse vê-lo se ele a enxergasse. “Não que ela fosse se importar”, acrescentou mentalmente. “Não que alguém fosse se importar”, tornou a acrescentar.

Feito isto, só restava esperar. Mil dúvidas percorreram a sua cabeça: e se a entrega atrasasse? E se não funcionasse? Quer dizer, era algo bastante fora da realidade do dia-a-dia, e toda certeza que ele tinha eram alguns vídeos no YouTube e olhe lá.. Tamborilou com os dedos no pulso coberto por uma manga escura, olhou para a sacola de viagem ao seu lado. Repassou um checklist das coisas que havia pego, e não lembrou de ter esquecido nenhuma. Em seguida pensou que seria muito estranho ele lembrar de ter esquecido alguma coisa...

Alguns tensos minutos depois, um som de carro parando em frente a casa onde acontecia a festa chamou sua atenção. Seu coração deu um salto: era um furgão da Fedex. Era isso, estava finalmente acontecendo!

O entregador desceu do carro, deu a volta, e abriu a porta traseira do furgão, conferiu em uma prancheta com auxílio da luz do poste, pegou uma caixa do tamanho aproximado de uma televisão, e se dirigiu em direção à casa. Tocou a campainha e, instantes depois, a porta abriu. Mesmo do outro lado da rua Ricardo pôde ouvir música alta incomodando os seus ouvidos, ali dentro devia estar praticamente insuportável... ou ao menos para quem não era acostumado. Mas se ele fosse o tipo de pessoa que se habituara a este tipo de lugar, aquela entrega não estaria sendo feita agora, e tudo seria tão diferente... Mas não era e, de qualquer forma, era tarde demais para voltar atrás agora. A entrega estava feita, e o homem da Fedex entrava em seu furgão para ir embora. A porta da casa onde acontecia a festa fechou.

Do outro lado daquela porta, dentro da festa, a entrega da caixa havia causado uma certa comoção. As pessoas se acotovelavam para ver o que estava dentro da caixa, já que era não era normal fazerem entregas em uma festa. E esse era o tipo de “não-normal” bom e aceitável, o que as pessoas gostavam e contavam depois, como se fosse uma aventura para se vangloriar depois, mas dentro do socialmente esperado.

Dentre as pessoas na festa, Marcos e Amanda abriram seu caminho até a caixa, cada um a seu próprio modo, e chegaram vindo de lados opostos da festa. Se olharam por um instante de forma tensa, dando a entender que havia uma história entre eles, e então voltaram a atenção para a caixa, que uma garota estava abrindo nesse instante. O som da música baixou, e várias vozes em tons diferentes se fizeram ouvir:

- O que é?

- Ai, que fofo!

- É de verdade?

- É de pelúcia?

- Tá vivo?

- Eu nunca tinha visto um desses pessoalmente... Qual o nome dele?

- Tá perguntando pra mim? Eu lá tenho cara de quem assiste Globo Repórter?

Entre as várias perguntas que permeavam o ar daquela sala, um grito agudo se elevou, e então houve silêncio.

- O-os... os olhos... olhos dele... meu deus...

Várias garotas fizeram uma expressão misturada de asco e medo, virando o rosto. Um garoto comentou em tom baixo, quase um tanto constrangido em não ser ignorante sobre o que era aquela coisa:

- Ouvi dizer que os caçadores arrancam os olhos deles para que eles não fiquem estressados e cantem em qualquer lugar.

O que estava dentro da caixa era uma espécie de criatura... estranha. Parecia uma almofada, um puff redondo com orelhas de gato e patas curtinhas. Era de uma cor rosada, quase roxa, um tanto perturbadora na verdade, mas não tanto quanto o fato de que, no lugar de seus olhos (que ocupariam a maior parte da cabeça), haviam apenas profundos espaços escuros. Era uma figura que ao mesmo tempo evocava uma certa inquietação e tensão, ao mesmo tempo que era fofo e digno de pena.

- Tem mais alguma coisa dentro da caixa – alguém comentou, pegando uma caneta marca-texto do fundo da caixa – E tem um bilhete também... “dar para ele”.

Sem ter muita certeza do que estava fazendo, a jovem apenas colocou a caneta na pata da ... coisa, de uma forma que ela parecia que ia segurá-la. Ao sentir a caneta em sua pata, a criatura de tonalidade roxo-doentia começou a se mexer um pouco mais, e parecer um pouco menos um puff estático. A criatura se debateu um pouco com certa ferocidade, até que finalmente a colocaram de pé sobre uma mesinha. Todos na festa agora prestavam atenção nessa cena bastante incomum, afinal, não era todo dia que um animal exótico de um canto obscuro do mundo era entregue no meio da sua festa e começava a ... cantar?!?

Sim, cantar. A pequena criaturinha exótica começou a cantar naquele dia que acordou cinza, de olhos inchados, em que a noite havia fugido com a lua. A canção se derramou pela sala, ela se despedaçou em mil gotas de dor mais profunda que o som de mil trovões rasgando a noite. Foi essa a maneira que encontrou de entoar uma canção de amor, e fazer sangrar a noite sua dor.

Após alguns instantes, não havia quem presente estava naquela sala que não estivesse com os olhos marejados. Fosse pelo sono, que inexplicavelmente abatia com violência as pálpebras, fosse pela profunda dor e melancolia, que a canção da criaturinha infligia em seus corações. De alguma forma, eles sabiam que a criatura cantava sobre a dor, sobre a melancolia do cativeiro, da mutilação, e da desesperança, mesmo que nenhuma palavra houvesse naquela canção. Essa é uma daquelas coisas que só a música consegue fazer.

Em poucos minutos todos estavam dormindo no chão da sala, não poucos com o rosto inchado em lágrimas.

Alheia a tudo isso, pois não enxergava de qualquer maneira, a criatura mutilada apenas continuou cantando e cantando, mesmo que ninguém ali houvesse para ouvi-la.

Foi mais ou menos nessa altura que a porta de entrada se escancarou, e Ricardo entrou marchando triunfante na sala, com pesados fones acústicos cobrindo seus ouvidos. Embora a proteção o impedisse de ouvir a música, aquela cena o comoveu quase tanto quanto: havia dezenas de adolescentes inconscientes no chão, dormindo profundamente um coma induzido. E ele conhecia muitos deles ali. Ah, como os conhecia...

Havia sonhado com aquilo por semanas, não meses, não, não, anos a fio! Bem, não aquela forma de vingança específica, mas aquela sensação, aquele momento. Era quase bom demais para ser verdade. Mas ERA verdade, e isso fez seus olhos marejarem de alegria.

Ricardo colocou sua bolsa de viagem ao seu lado, e agora abria o zíper lentamente, enquanto olhava em volta sem saber por onde começar. Se sentia como um nerd que descobriu um emulador novo, e agora não fazia idéia do que começar a baixar diante de uma vasta biblioteca de títulos. Na dúvida, decidiu começar pelo básico. Enquanto mexia na sacola podia-se perceber que haviam diversos objetos ali e, após algum tempo, Ricardo puxou um bastão de beisebol e uma filmadora digital.

Colocou a câmera sobre o suporte de marfim da lareira, de modo que ela enfocasse toda sala.

Enquanto se deslocava entre os corpos inconscientes no chão (a princípio tomando o cuidado de não pisar em ninguém, mas então, se auto-corrigindo para lembrar do que estava fazendo ali) pensava honestamente que seria mais difícil. Que na hora teria alguma crise de humanidade, ou falta de coragem, ou piedade, enfim, essas coisas que a gente adora falar que faria, mas na hora apenas seria um bom rapazinho civilizado. Entretanto não foi difícil lembrar de piedade, mais precisamente de todas as vezes que ele não teve isso. Uma terceira pessoa, um expectador externo, ao ver essa cena, seria bastante rápido em condená-lo pelo que estava fazendo, mas onde estavam esses condenadores anônimos quando ele precisou de ajuda? Agora na vez dele é que era errado? Não, definitivamente não. O que estava fazendo era absolutamente direito, era o SEU direito. Esses pensamentos lhe deram forças, e uma determinação que ele não imaginava ter, e quando ele viu já havia terminado os preparativos: dois rapazes do grupo de Marcos estavam deitados sobre o braço do sofá, com as costas arqueadas para cima formando um sinistro U invertido.

Imediatamente Ricardo ergueu o taco de beisebol acima da cabeça e começou a bater. Apenas bater. Com fúria, com ódio. Cada pensamento, cada lembrança lhe dava mais força e determinação. O atrito da madeira com suas mãos queimava, mas isso só lhe dava mais prazer ao imaginar que muito pior estariam os que estavam na outra extremidade do taco. Lembrou também que aqueles cretinos tinham notas pavorosas, mas que estavam em vias de conseguir uma bolsa de estudos esportiva em uma faculdade local. “Bem, não mais” ele pensou, com um sorriso inspirado e divino. Continuou golpeando, batendo com a força que tinha até seus braços absolutamente cansarem. Decorridos cinco minutos (chutou num cálculo mental, talvez fosse bem menos), observou satisfeito (e cansado) que o osso da coluna dos dois fazia uma forma estranha e bizarra sob a pele. É, aquilo iria ser suficiente, era hora de seguir em frente ... O prato principal...

O prato principal, o prato principal... Onde estava Marcos?

Olhou ao redor e não viu ninguém parecido com ele na sala. Viu, contudo, o pequeno Jigglypuff cego que havia comprado na internet, ainda entretido, cantando sozinho. Evitou olhar por mais de um instante, aquela figura sem olhos o perturbava profundamente, e ele não precisava de outros pensamentos agora. Precisava era achar Marcos... Quando ele achou algo muito mais valioso.

Amanda estava caída e dormia no tapete de lá como um anjo. Bem, talvez anjos não fossem tão bonitos. O que importa realmente é que ela estava particularmente linda essa noite, em seu vestido azul de cetim, semi-transparente em algumas partes, numa combinação tão encantadora de fofura e gostosura que até mesmo um soldado de Terracota se apaixonaria se olhasse por tempo demais, mesmo com a notável desvantagem de estar morto. Claro, tinha aquela coisa da calça pra dentro das botas que as gostosas sempre usam (deve ser um código que eles ensinam no clube das pessoas bonitas, vai saber), mas, fora isso, estava perfeita.

Entretanto, Ricardo não foi tomado por nenhum sentimento de paixão ou sublimação artística. Foi tomado apenas por... ódio e raiva.

Veja, Marcos era um idiota, um monstro, um animal. Mas era apenas isso, era um animal que fazia o que fazia porque era o que precisava fazer para ter garotas como ela. Era apenas um animal que seguia seus instintos, não é como se ele tivesse muita escolha sobre isso. É um fato da vida que, para ter garotas desse nível, você tem que ser um monstro sem coração, e usar quem preciso for da forma que possível for. Mas Marcos era apenas um lacaio, um capanga. Amanda era diferente.

Ela... E mulheres como ela sabem exatamente que tipo de pessoas são os canalhas pra quem elas dão. Elas têm total ciência disso e, mais importante ainda: têm total controle sobre isso. Bastava uma palavra dela e Marcos, ou qualquer outro candidato a macho alfa, não precisaria ferrar com a vida de ninguém apenas para se mostrar digno. APENAS UMA PALAVRA. Ela podia ter feito isso a qualquer momento, ELA PODIA TER PARADO ISSO A HORA QUE QUISESSE. Ela podia. Bastava apenas uma ordem. Ela podia, mas não quis.

Seu orgulho como fêmea exigia do macho que desejasse ejacular em suas entranhas (ou em sua garganta, dependendo do quão macho fosse) provasse constantemente que era o dono do território. O tempo todo, sem demonstrar fraquezas, sem demonstrar piedade ou consideração por outro ser humano (que são um tipo de fraqueza, afinal). Era apenas esse o comportamento que ela e garotas como ela exigem do seu macho favorito.

Não fosse por ela, e pelos caprichos dela, Ricardo ainda teria uma vida...

Levou menos de um segundo para ir até a sacola e voltar carregando um pequeno pote de vidro. Se abaixou até ela, inclinava-se pra ela. Tocou de leve sua bochecha e fechou os olhos, como faziam nos filmes. Sentiu os lábios macios e quentes dela, mas de alguma forma não foi exatamente tudo que ele sempre sonhou, tudo que ele sempre achou que seria. Na verdade não foi lá muito mágico, foi meio sem graça até.

Então era isso? Era por causa disso que a sua vida foi destruída? É por causa dessa porcariazinha que cogitou por anos cada forma de suicídio, por mais dolorosa que fosse, como prêmio absoluto? Para que alguém sentisse essa porcariazinha? Ah, mas era a gota d’água. Era só o que faltava MESMO! Agora chega, não tinha ido longe demais, não tinha sequer é começado! FILHA DA PUTA! VADIA! MISERÁVEIS! CRETINOS! FILHOS DA PUTA DESGRAÇADOS DO INFERNO! Agora eles iam ver!

Inclinou a cabeça da garota para trás, como ensinado no procedimento de RCP, o que fez com que ela ficasse com a boca bem aberta. Abriu então o pote de vidro, e despejou o líquido meio esverdeado sobre o rosto dela. Um vapor branco e fedorento ergueu-se, e quando ele olhou novamente, a carne do rosto estava completamente deformada, de forma que o fogo ficaria com inveja por jamais ser capaz de conseguir um resultado tão bom. Empolgado com o resultado da deformação que criara, derramou o resto do frasco sobre o corpo dela (sobretudo os seios e a genitália), e entornou novamente o restinho do frasco sobre o rosto dela de modo que um filme B de terror não faria maquiagem pior.

Atirou o frasco de ácido, agora vazio, para trás, e preparou o golpe de misericórdia: parou com os dois pés ao lado da cabeça dela, puxou o cinto da fivela, o arrancou com um movimento brusco, e logo fez o mesmo com a calça. Nu da cintura para baixo, se agachou sobre a cabeça de Amanda e então cagou. Cagou com força. Cagou firme. Cagou forte. Cagou muito.

Satisfeito (quando o estoque de tacos que havia comido nos preparativos acabara), ergueu-se e quase teve medo de olhar o resultado. Conseguiu acertar uma boa parte dentro da boca, não tudo, mas o suficiente para transbordar e cobrir de merda todo o rosto, e os recém-abertos ferimentos. Uma obra de arte de dar orgulho, se querem saber...

Aliviado, tanto espiritual quanto fisiologicamente, ergueu-se, ainda limpou a bunda com o vestido da garota, vestiu as calças, e decidiu prosseguir. Olhou mais uma vez ao redor, e dessa vez não viu o Jigglypuff sobre a mesa. Onde a coisinha havia ido? Pensou em tirar os fones para descobrir se a criatura ainda cantava, mas logo se deu conta que essa seria uma idéia profundamente estúpida. Decidiu apenas se apressar. Não sabia exatamente quanto tempo o efeito da canção duraria se o bicho tivesse parado de cantar.

Após uma rápida geral pela casa, finalmente encontrou Marcos, mas dessa vez a coisa teria que ser jogo rápido, sem direito a beijinho ou jantar a luz de velas. É, sim, seu humor estava ótimo, melhor do que em qualquer outro momento que ele conseguia se lembrar, finalmente estava... em paz. Uma rápida viagem de ida e volta a sua sacola e ele já estava pronto.

Levantou o rapaz que tinha quase duas vezes o seu tamanho, e três vezes a sua massa apenas em músculos. Com um certo esforço tirou as calças dele, e o colocou de bruços no chão com a bunda empinada, de forma que a câmera sobre a lareira tivesse um bom ângulo. Com tranqüilidade, e um prazer quase sexual, pegou o vibrador de 30cm, e mergulhou na lata de piche, para só então enfiá-lo com força no reto do seu antigo colega. Oh boy, o que era aquela sensação? Quem disse que a melhor sensação do mundo é amar e ser correspondido é porque nunca teve a oportunidade de enfiar um vibrador embebido em piche no ânus da pessoa que você odiou por anos e anos... Sentir as pregas do cu se rompendo uma a uma, o sangue escorrendo, a dor que ele sentiria quando acordasse... Aquela definitivamente foi a melhor sensação da sua vida, sem sombra de dúvida. Podia dizer que se morresse agora estaria satisfeito. Enfiou o objeto até ele desaparecer completamente, o que não foi tarefa fácil, ainda que extremamente gratificante, e desejou boa sorte aos que tentassem tirar ele dali. Ok, mentira, não desejou boa sorte.

Mas seu trabalho ali estava concluído. Havia, claro, mais o que gostaria de fazer, mas algo lhe dizia que esse era um tipo de tempo do qual ele não dispunha no momento. O Jigglypuff estava sumido, e aquelas pessoas podiam acordar a qualquer momento agora. Acendeu o isqueiro do bolso, e colocou fogo na cortina da sala, pegou sua sacola, a câmera, e saiu apressadamente.

Enquanto caminhava pelo quintal em direção à calçada, conectou a câmera ao seu celular, para uploadear o vídeo para o Metacafe (o YouTube baniria rápido demais), mas isso era apenas uma preocupação mundana perto de como ele se sentia no momento...

Dizer que havia tirado um peso do seu peito era um clichê batido e pequeno perto do que realmente sentia. A comparação mais correta seria dizer que sentia como se respirasse pela primeira vez na vida. Ricardo não fazia mais esforço em conter as lágrimas, ou gritar mesmo a plenos pulmões. Sentiu-se tão humano, tão vivo, como se a vida começasse do zero agora. Sentia-se assolada por sensações genuínas, contraditórias, dispersas, mas muito fortes...

Sua vida finalmente poderia começar agora, finalmente ele teria uma chance de apenas ser normal, deixar o passado para trás e ser ... TOMBO.

Ricardo sentiu o gosto pétreo do asfalto em sua boca misturado com o férreo do sangue dançando entre seus dentes. Havia tropeçado em alguma coisa e caído de boca no asfalto, sentiu com a ponta da língua que havia soltado alguns dentes na queda. Ao abrir os olhos, e procurar no que havia tropeçado, teria se cagado de medo se já não tivesse resolvido essa questão fisiológica há poucos minutos antes. A poucos centímetros da sua cabeça estava uma visão tão perturbadora quanto demoníaca. A iluminação pública da rua conferia um tom muito mais arroxeado e doentio à criatura, e o vazio no lugar dos olhos... como se sugassem a sua própria alma, jamais havia visto algo tão aterrador e apavorante tão de perto. Tomado por um pavor e perturbações sobrenaturais, rolou para longe daquela visão dantesca e profana o mais rápido que pôde, como se a corrupção de todo o mundo que recaiu sobre aquela criatura originalmente fofa e adorável agora devorasse suas tripas com fúria e rancor. Aquilo era desumano demais... até para ele.

Se afastou da criatura como pôde, rastejando em direção à rua.

E, apavorado que estava, não viu o caminhão se aproximando.

Ricardo não morreu após tropeçar na criatura mutilada e ser atropelado por um caminhão.

Mas também jamais se recuperou. Ricardo passou o resto de seus dias mantido por aparelhos no hospital, nem vivo nem morto. Sua família não permitiu que ele tivesse esse privilégio, morrer parecia ser bom demais para ele. Ele passou os próximos 70 anos enlouquecendo entre pensamentos, preso dentro de um corpo que não respondia, a mais cruel de todas as prisões, e infindáveis pesadelos sobre um perturbador monstro púrpura sem olhos...


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #025 Pikachu


Pokémon Sickness é uma nova série de textos que eu postarei aqui no blog, em parceria com o Aélsio, que fará ilustrações.
Bem, o que é Pokémon Sickness? São contos isolados, cada um sobre um dos monstrinhos, sem nenhuma relação entre si, senão o fato de que se passam no mesmo universo.

Outro ponto em comum as histórias é que elas tentarão buscar o que há de mais doentio, asqueroso e perverso na pobre alma deste que vos escreve. O que implica que as histórias envolverão temas como drogras, estupro, mutilação, suicídio, tortura, incesto, abuso infantil, e daí ladeira abaixo. Sim, isto com pokémons.

Então, eu realmente recomendo que simplesmente pule os textos desta série caso se sinta ofendido, tenha menos de 18 anos, ou simplesmente não vá muito com a minha cara. Bem, era o que tinha a explanar. Aos que decidiram continuar, bom texto, e obrigado pela preferência.

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Larissa levou quase uma semana inteira para compreender porque todos estavam agindo daquela maneira, carregando aquelas coisas para cima e para baixo. Ora, você tem que lembrar que quando se tem quatorze anos, na era da informação, uma semana sem entender alguma coisa é bastante tempo.

Mas o que ela poderia fazer? Era uma menina deveras ocupada, de fato. Aula de manhã todos os dias à tarde, tinha inglês às segundas e quartas, natação às terças e quintas, e finalmente jazz às sextas, ufa! Não era a toa que estava por fora da última modinha do momento, masfelizmente era popular o bastante (tendo em vista que era magra e bonita o bastante, naturalmente) para que lhe inteirassem das últimas tendências entre os jovens.

Havia uma semana mais ou menos que todos andavam para cima e para baixo com uma espécie de ratazana de pêlo amarelado e preto, e que conseguia gerar alguma eletricidade, segundo o que os meninos diziam. “Ainda assim era uma ratazana”, foi o que ela pensou naquela segunda-feira enquanto torcia o nariz. O que ela não sabia, e esse era o fato que ela levou quase uma semana toda para descobrir, é que havia estreado na televisão um desenho animado cujo garoto protagonista tinha uma ratazana dessas, e crianças, sendo como são, não puderam evitar imitar, de modo que não precisou sequer uma semana de exibição do desenho animado para que quase toda criança na escola andasse com um rato colorido como uma placa de trânsito para cima e para baixo.

Por volta da segunda semana os próprios professores acabaram se dando por vencidos, após infrutífera batalha contra a obsessão infantil, e apenas permitiam que as crianças carregassem a mascote da moda dentro da sala. “Em poucos dias eles cansam disso”, diziam eles. O que de certa forma era verdade: é muito mais fácil esperar que uma criança se canse de um brinquedo novo do que tentar tirá-lo dela, pois assim são as crianças.

Fosse como fosse, Larissa não tinha o menor interesse nessa mania em particular, e a idéia de andar para cima e para baixo esfregando uma ratazana no corpo lhe parecia, sobretudo... anti-higiênica. Isso era o que ela pensava, e qualquer um que a conhecesse saberia disto, o que significa, naturalmente, que seus pais não fariam a menor idéia do que ela pensava sobre a questão. Veja, seus pais não eram más pessoas, mas eram pessoas muito ocupadas: trabalhavam o dia todo, e à noite viam a garota apenas uma hora ou duas durante o jantar, mas isso era tudo (curiosamente, se lhe perguntassem diretamente, eles jamais diriam que o trabalho era mais importante que a sua filha única, embora fosse exatamente assim que agissem, adultos são estranhos deste modo de toda forma...). Como resultado, em pouco tempo Larissa acabou tendo sua própria e exclusiva ratazana amarelada de estimação, e seus pais passaram mais uma noite de consciência tranqüila, certos de que estavam fazendo tudo que podiam (e deveriam) por sua filhota amada.

A primeira vez que foi apresentada ao seu novo animal de estimação, Larissa teve de fazer uma profunda força interna para sorrir como sorria toda vez que seus pais lhe davam um presente, como se justificasse a ausência deles. Mas aquilo foi, definitivamente, a gota d’água!
Ora, ela não queria um estúpido rato amarelo que passava o dia falando obscenidades! Ela não queria ser empurrada com qualquer nova febre sobre a qual seus pais leram num jornal (indo ou voltando do trabalho, é claro) que as crianças estavam querendo naqueles dias, droga! Ela queria apenas ter pais, P-A-I-S, um pai e uma mãe, não uma porcaria de um rato amarelo e preto! O quão difícil era entender isso, porcaria? Era isso que ela valia para eles? A presença dela podia ser comprada com um rato na opinião deles? Era isso, então?

Sua atuação aquela noite foi perfeita, como se esperaria de uma menina saudável e feliz no entanto, e ela sorriu como uma adolescente agradecida diante de seus pais pelo presente. Então chorou e chorou a noite toda sozinha em seu quarto.

- ... pika...?

- NA SUA BUNDA!

Estas foram as primeiras palavras que Larissa trocou com seu novo mascote.

Contudo, nas semanas seguintes, as coisas não foram tão ruins quanto Larissa pensou que seriam. Não a respeito de seus pais, claro, mas estes ela já dava como causa perdida mesmo, mas sim a respeito da ratazana amarelada. O rato era, afinal de contas, uma companhia agradável... ou ao menos tanto quanto uma ratazana podia ser. Pelo menos era alguma coisa viva para sentir o calor, roia a fiação da casa para enlouquecer seus pais (a vingança é um prato que se come frio... sobretudo quando se trata de banho frio) e era melhor que falar sozinha, não muito, mas ainda era. Ainda por cima, o rato efetivamente possuía certa carga elétrica nos seus pêlos e dava uma espécie de choque... Não, não era choque exatamente, era mais a sensação gostosa de formigamento quando você encosta em uma CPU mal aterrada, por exemplo. Enfim, era uma boa companhia para passar o tempo. Não que ela tivesse muito tempo disponível de qualquer forma (seus pais deviam achar que se ela estivesse ocupada o bastante não perceberia que eles não estavam lá), mas as horas que passava sozinha no fim das contas eram mais bem aproveitadas com alguma companhia.

Mesmo que fosse de um rato. Amarelo.

Alguns meses depois a moda havia passado e o rato ficado, e no fim desse período já não parecia uma coisa ruim assim.

Aos quinze anos havia conseguido convencer seus pais (através de SMS no celular) que deveria largar o jazz às sextas, porque aquilo atrapalharia seus estudos. “Estudos”, essa palavra mágica que ao ser evocada imediatamente resolvia as questões ao seu favor, afinal, que pai se oporia a algo que era imprescindível ao futuro daquela estranha pra quem eles pagavam as contas? Eles não tinham envergadura moral para negar tal pedido, e isso era um fato.

Assim sendo, pela primeira vez na sua vida, Larissa tinha as sextas-feiras livres para ela. Bem, ela e a ratazana, mas a essa altura a garota já considerava o rato meio que como parte da vida dela, parte dela. Se não tinha pais, pelo menos tinha um rato amarelo. Não é tão triste como soa realmente. Mas, voltando às sextas-feiras, era claro que Larissa não estava interessada em estudar: suas notas iam bem o bastante, obrigado. O que ela queria era algum tipo de hábito, de ritual, um momento só dela que daqui a quinze anos ela iria poder dizer com nostalgia e saudade: “quando eu tinha quinze anos, toda sexta-feira a tarde eu...”.

Sim, sextas à tarde seriam o seu momento especial, só faltava ela descobrir o que faria nesse momento pessoal e especial (“o seu momento”, como diria um psicólogo). Nessa parte ela não tinha tido boas idéias ainda, até porque ela nunca foi uma menina particularmente brilhante de idéias, diga-se de passagem, então tudo que conseguiu pensar era em comprar pipoca de chocolate (que ela vomitaria depois) e assistir um filme. A idéia era apenas provisória, ela disse para si mesma, e assim que pensasse em algo especial logo colocaria essa coisa “especial” no horário.

Bem, acontece que mais alguns meses se passaram e nenhuma idéia realmente especial acabou vindo. Por outro lado, a coisa dos filmes com a pipoca temporária não era tão ruim assim, na verdade era bem legal, e no fim ela acabou aceitando como atividade oficial do seu “dia especial da Larissa”. Então era assim: toda sexta-feira ela baixava um filme no computador, deitava na cama de casal dos pais, colocava o rato sobre o peito, e assistia ao filme no seu notebook, enquanto comia pipoca com uma mão, e sentia aquele “choquinho gostoso” de passar a mão nos pêlos do rato com a outra. Era um “ritual” simples, porém extremamente gostoso, e não raras vezes ela acabava adormecendo no conforto, tendo que acordar apressadamente antes que seus pais chegassem e descobrissem que ela não estava estudando porcaria nenhuma. Pensando bem, ela achava que eles não se importariam realmente, mas ela gostava da sensação de estar fazendo algo errado, proibido. Era como se fosse mais um pontinho marcado contra a indiferença de seus pais em sua vida, uma pequena vitória pessoal, e quando se tem quinze anos, pequenas vitórias pessoais eram tudo que se tinha contra seus pais.

Então agora aquela era a vida de Larissa às sextas-feiras a tarde. E por um tempo foi bom.

Como boa adolescente que era, Larissa contou no calendário a estréia do filme “Crepúsculo”. Hey, não fique olhando com essa cara! Na sua época você fez o mesmo quando saiu Street Fighter, que é tão bom quanto, e você não está me vendo te julgar, está? Pois é. Mas continuando, Larissa esperou ansiosamente esse dia e, quando chegou, ela se negou veentemente a aceitar qualquer um dos vários convites para assisti-lo no cinema. Ninguém além do seu rato sabia do verdadeiro motivo, mas Larissa não tinha dúvida que para ela aquele era um filme especial demais para ser visto em qualquer outro lugar, em qualquer momento que não o “seu” momento especial. Quer dizer, era o filme que ela esperou a vida toda (quando se tem quinze anos essa afirmação não é tão profunda ou duradoura quanto se torna posteriormente), era justo que ela assistisse em seu momento especial, não? Larissa achou que era.

Bastante ansiosa como quem ia ganhar um brinquedo novo, Larissa preparou a pipoca, o notebook, tudo com o maior cuidado para que cada coisa saísse perfeita. Sentiu uma pontada leve de desespero no peito quando não achou seu rato nos primeiros dois segundos, mas logo tudo tinha corrido conforme o esperado, e ela estava em sua posição especial no seu dia especial para ver seu filme especial.

Larissa respirou fundo e abriu o arquivo... que para sua genuína surpresa não era Crepúsculo.
Ocasionalmente acontece de você baixar um arquivo que supostamente é um filme, e descobrir só tarde demais que não era daquilo. Tanto as distribuidoras de filmes (que querem desestimular as pessoas a baixarem o conteúdo desse filme) quanto desocupados que só querem saber que ferraram a vida de alguém (mesmo sem ver o fruto do seu trabalho) são comuns a essa prática.

O que Larissa havia baixado tinha realmente bastante sobre mordidas e coisas sendo sugadas, mas definitivamente não eram vampiros, e não era sangue que estava sendo sugado. Ela piscou atônita ao entender o que estava acontecendo, tanto pela frustração de não ser este o filme que ela queria ver, quanto pela cena em si. A cena em si consistia em um ator tendo o seu pênis vigorosamente sugado e mordido por uma morena de seios fartos.
Ela nunca havia visto esse tipo de filme antes, aliás, muitas coisas naquela cena ela nunca havia visto antes, entre elas um homem como aquele. Como toda a garota da sua classe, já havia espiado os meninos trocando de roupa no vestiário, e com certeza nenhum deles possuía um dote como o daquele ator que, segundo seus confusos cálculos mentais, tinha um membro que devia se estender até o joelho do homem. Então era por isso que se usava a expressão “tirar água do joelho”? Quer dizer, aquele tipo de coisa era... normal? Era comum os homens terem o negócio daquele tamanho? E isso significava que eventualmente ela teria uma coisa daquelas dentro de si? Quer dizer, ela mal podia imaginar que caberia, sequer caberia na sua boca como a mulher do filme estava fazendo... foi mais ou menos a essa altura que ela percebeu que sua boca estava completamente umedecida, e com certeza não era a única parte do seu corpo.

Essa sensação não era de todo estranha para ela, já havia sentido algo parecido no seu primeiro beijo algum tempo atrás (que aliás foi bem frustrante, perto do que esperava, e por muito tempo ela considerou se não seria lésbica sem saber, quando na verdade era só uma menina que esperava demais do mundo real). Mas, mesmo assim, não era nem de perto o que sentia agora, esse impulso, essa necessidade animal de agarrar aquela coisa enorme e dura, de apertar o mais forte que pudesse como que para testar a sua solidez, e enfiá-la na sua boca com ímpeto, como a mulher do filme fazia. Antes que se desse conta, suas coxas alvas e macias se esfregavam uma contra a outra, numa tentativa frustrada de saciar o que quer que precisasse ser saciado entre elas, mas de alguma forma as coisas não estavam normais. Enquanto pensava no que um membro daquele tamanho faria com ela numa posição de quatro, tirou a camiseta sem nem perceber, e aí tivera a sensação mais estranha da sua vida até então: uma pequena corrente elétrica passou pelo seu corpo, e sua coluna deu um pequeno espasmo, e ela não pôde conter um grito. Aquela foi, definitivamente, a melhor sensação da sua vida até aquele momento.

Após alguns instantes para se recuperar do choque, instantes esses em que ela ficou toda mole e semi-consciente, olhou ao redor e entendeu o que havia acontecido: seu pequeno mamilo rosado e enrijecido havia tocado o seu rato amarelado, e aquela pequena corrente elétrica que seu corpo produzia havia causado aquela sensação... indescritível.

Larissa não pensou por um momento sequer em tentar entender o que estava acontecendo, ou o que ela estava fazendo, ou mesmo porque estava fazendo, apenas sabia que precisava de mais daquilo. Seguindo cegamente seus instintos, apenas arrancou a saia justa do jeito que pôde (e sem saber direito como conseguiu tirar sem rasgá-la, apenas a tirou e a atirou para o lado). Não fazia a menor idéia do que fazer agora, nunca havia feito nada parecido e naturalmente nunca tinha tido esse tipo de conversa com sua mãe (ou qualquer outro tipo de conversa na verdade, mas esse pensamento só a fez agir logo para parar de pensar). Apenas desceu a mão lentamente pelo ventre macio e alvo, coberto apenas e tão somente por uma minúscula e praticamente invisível penugem tipicamente infantil. Chegou com a ponta dos dedos até a parte onde a pele se fendia na região do púbis e dava acesso a parte interna do seu corpo com o receio de que estava fazendo uma grande e ousada, para não dizer inédita exploração, como se aquela parte não andasse para cima e para baixo com ela desde o dia que nasceu.
Ao tocá-la, puxou o rato contra o seu peito e a soma do toque com a eletricidade em seus seios nus a fez ver tudo em tons de branco novamente por alguns segundos. Sua respiração acelerada estava tão entrecortada e ofegante que quase não era suficiente. Larissa agora não fazia mais idéia realmente do que fazer ou de como fazer, por um momento lhe ocorreu a idéia louca de procurar no Google mas definitivamente a idéia quase foi engraçada pq nada no mundo de forma alguma a faria parar o que estava fazendo.

Apenas conseguia pensar que precisava de um homem como o do filme, nesse exato momento, agora. Aprofundou um pouco o dedo que estava entre suas pernas, e apenas a sensação de calor de umidade que sentiu em sua falange já seria suficiente para fazer com que ela gritasse novamente, mas dessa vez ela apenas mordeu o lábio com severa força. Ah, o que ela não faria por um pênis como aquele agora... não, qualquer um seria suficiente, qualquer um MESMO.
E ao pensar nisso abriu os olhos e encarou o sorriso torto e doentio que a encarava de volta na cabeça do seu rato amarelado. A idéia foi tão gritantemente louca e tão doente que mesmo naquela condição zumbificada semi-orgasmica ela se obrigou a arregalar os olhos e pensar “o que diabos eu estou cogitando?!?”

Mas não havia muito que cogitar, o animal era castrado de qualquer forma e nunca, nunca mesmo que ela iria tira-lo do contato (e pequena corrente elétrica que fazia passar) de seus mamilos. Ela não queria ficar sem aquela sensação, de jeito nenhum, de forma nenhuma MESMO... a menos... hmm... a menos que...

Ela deslizou o dedo pelo que agora já era a parede interna da sua vagina e soltou um “hmmfpf” abafado por mordia os lábios para não gritar. Observou novamente a criatura e constatou com espanto que ela possuía uma cauda longa e ondulada... realmente longa, com certeza pelo menos uns bons 30 centímetros. Hm, ao pensar nesse número lembrou-se da cena que vira (e que devia estar rodando ainda, o notebook fora simplesmente jogado de lado), no quanto a essa altura ela precisava de um homem com aquele dote todo dentro dela (“o que diabos estou pensando!?!” seu ultimo suspiro de consciência protestou). Não tinha, é claro, um homem como aquele com ela e desconfiava que não teria dentro dos próximos minutos. Mas tinha, por outro lado, um rato. Um rato tão bem dotado quanto, embora de outra forma... mas teria que servir, não?

Quando Jonh Steinbeck comparou ratos e homens definitivamente não era isso que ele tinha em mente...

Moveu a ponta dos dedos da mão esquerda e tocou a ponta da cauda do rato, que respondeu com uma pequena corrente elétrica como todo o resto do corpo fazia. Era o incentivo que faltava para fazer o que não acreditava que estava prestes a fazer. Mas já era tarde demais para voltar atrás, tarde demais para descobrir que homem algum poderia competir com a sensação de uma cauda em forma raiada oprimida contra sua feminilidade...

E então ela o fez.

Seis meses se passaram.

Nesses meses em diante a sexta-feira especial de Larissa finalmente teve um significado especial como ela queria originalmente, embora não fosse nada do que ela (ou qualquer um na verdade) poderia esperar. De uma certa forma estranha e doentia, Larissa acabou encontrando algo especial para seu momento especial em seu dia especial “dela” e essa história poderia terminar aqui, apenas como uma aventura louca adolescente. Entretanto não termina. As coisas não são tão simples assim. O nosso mundo é um pouco mais doente do que isso...

Depois de alguns meses, Larissa começou a se sentir um pouco estranha. No começo foi apenas dor de cabeça, que rapidamente evoluiu para febre e calafrios que passaram como sendo um resfriado a principio e com isso ela podia lidar. Entretanto eventualmente seus olhos tomaram uma tonalidade amarelada e mesmo aos 16 anos uma pessoa sabe que isso não é um bom sinal. Mas o que ela podia fazer? Não podia pedir ajuda sem explicar o que estava fazendo, já que parecia bem obvio que havia uma ligação entre seus estranhos sintomas e suas atividades extracurriculares.

A isto juntaram-se os problemas respiratórios, dor abdominal e diarréia, aos quais ela tentou disfarçar bravamente entretanto quando vieram os desmaios, bem, isso foi algo um pouquinho alem da liga dela e contra isso não pode evitar. E mesmo seus pais, sempre tão ausentes quanto antes, não podem deixar de perceber quando a sua filha desmaia de cara na sopa (bem, a maioria deles pelo menos)

O que aconteceu, e isso Larissa veio a descobrir só quando acordou zonza já nua no hospital, coberta apenas por um fino avental que deixava sua bunda descoberta, é que ela havia contraído uma rara doença bacteriana transmitida por roedores que causara danos nos rins, falha nos rins e problemas respiratórios e inflamação na membrana ao redor do cérebro e cordão espinhal. Este ultimo, lhe informaram com pesar, complicava em muito o tratamento.

A principio porque o médico e seus pais fizeram aquela cara, o que “complicar o tratamento” significava. Entretanto quando entendeu a explicação, seu coração já fragilizado quase parou de vez. Infelizmente ela não teve tanta sorte. Acontecia era que os danos cerebrais impediam que ela tomasse anestesia sem ter um colapso cardiorrespiratório irreversível, o que não seria um problema tão grande assim não fosse o único tratamento disponível: a bactéria disseminada pelo organismo podia ser tratada com antibióticos leves, mas o mesmo não poderia ser feito no foco da infecção. Antibióticos leves não resolveriam a tempo e antibióticos pesados a matariam. Quando assimilou essas informações, Larissa simplesmente vomitou o pouco que conseguiu, o que seria feito com ela era, era...

Basicamente, o médico explicou, a única solução seria remover cirurgicamente as áreas mais afetadas pela bactéria, o que no caso dela se resumia ao clitóris e boa parte da parede vaginal. Sem anestesia. Larissa novamente quase vomitou, exceto que dessa vez não havia mais nada para por para fora senão a própria bile. Era demais para ela, tão horrível, mas tão horrível MESMO numa situação dessas, vergonha não chegou nem perto de ocupar seus pensamentos. Se a vergonha quisesse um lugar dentro da cabeça dela, teria que pegar uma senha e esperar o pavor, o pânico e o desespero brincarem até cansar.

Mas não havia alternativa. Alias, havia: morrer. Mas seus pais jamais permitiram isso.
Seus pais jamais fariam essa escolha, jamais escolheriam a dor e o sofrimento (alem das responsabilidades criminais) deles por alguém que eles mal conheciam. Larissa teria de ser mutilada, destituída da sua feminilidade em sua carne, pois era o caminho mais confortável para todos, exceto para ela. E sem anestesia.

“Se tiver sorte”, ela pensou “talvez eu desmaie ou mesmo morra antes de ficar realmente ruim”.
Infelizmente para ela, a essa altura Larissa já devia ter aprendido que ela não era uma menina de sorte.
15 horas depois, não podia se dizer sequer que ela era uma menina. Ela esteve consciente o tempo todo.

Ninguém da equipe do hospital jamais esqueceu os gritos que ouviram naquele dia.