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terça-feira, 13 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #393 - Piplup

Baseado em uma história real.


Farham, Inglaterra em 5 de agosto de 1914

Minha amada Rosely,
Escrevo-lhe esta carta pela última vez em meu escritório antes de partir para aquela que será, com certeza, não só a maior aventura de minha vida, como a última grande aventura sobre a face da Terra. Sei que a idéia de que um grupo de destemidos homens tentará cruzar o Antártico de uma ponta a outra parece loucura a uma dama tão delicada quanto bela, mas lhe digo, meu amor, que um homem deve fazer o que um homem tem que fazer.
Partiremos esta tarde a bordo do Endurance, nesta empresa que deve durar pouco mais de um ano. Como sentirei falta deste escritório, deste cheiro tão particular de tabaco que meu saudoso pai levou anos para construir, de como o Sol bate sobre os móveis ao entardecer, e podem-se ver minúsculas partículas de pó!
Mas isso não é nada, claro, comparado ao tanto que sentirei falta de meu amado anjo nesta Terra, que certamente tomou longas noites de planejamento do Senhor para que tão perfeito ser fosse formado nesta terra! Linda, é assim que minha Princesa é, como se fosse pintada qual por pincel em tela fina! Amo ouvir sua voz pura cheia de ternura, amo seu riso, o leve som de seu beijo em meu rosto, flor de esperança. Amor perfeito, que céu pode escurecer com seu sorriso? Seu sorriso angelical, o som de uma doce flauta, é como o brilho do pôr-do-sol a nascer. Ah! Se pudéssemos guardar em uma caixinha esses risos mágicos e eternos... Amo seus olhos quando, ouvindo uma história, se enchem de mistério, o brilho de teus olhos.. O teu sorrir de criança! É a essência da minha vida.
Estou bastante ansioso, minha amada Rosely, essa expedição, além de aventura e conhecimento, me trará fama e dinheiro o suficiente para que possa me estabelecer, e finalmente nos casarmos como tantas vezes juntos sonhamos. Em pouco mais de um ano, será a respeitável esposa de um dos últimos bravos desbravadores deste mundo.
Sinceramente seu, John.

Plymouth, Inglaterra em 6 de agosto de 1914

Oh minha amada Rosely,
Escrevo-lhe a presente epístola ainda entornado em profunda emoção, pois agora tenho a certeza de que esta empresa será a maior aventura da história das grandes aventuras, e que assim está predestinada pelo desígnio divino. Bem, acho melhor explicar-lhe os eventos desta tarde.
Com grande cobertura da imprensa, a serviço de vossa majestade, o mundialmente famoso capitão Shackleton fez zarpar o Endurance em direção a Geórgia do Sul, onde encontraremos o navio de reabastecimento vindo da Nova Zelândia. Essa expedição será grande, todos ali sabiam disto, e pude sentir o olhar de inveja recaindo sobre mim, como único e exclusivo repórter da coroa britânica nesta missão. Shackleton é um veterano dos mares e heróico sobrevivente, tenho certeza de que não há nada a temer nesta jornada. É verdade que o norueguês Ronald Amundsen foi o primeiro a chegar ao Pólo Sul, mas com certeza esta jornada retomará a glória e a conquista para os braços da mãe de toda civilização: a coroa britânica.
Prova irrefutável disso foi que, algumas poucas horas após zarparmos, o Endurance foi abordado pela marinha real britânica. Não se preocupe, minha amada, não havia nada equivocado sobre a nossa embarcação, acontece que, como deve ter conhecimento, na noite de 4 de agosto de 1914, o governo britânico, sob o primeiro-ministro Henry Asquith, declarou guerra ao Império Alemão. Ora, guerras vêm e vão, e tenho certeza de que esta será breve, e não trará maiores conseqüências ao curso da história, e de mesma forma assim enxergou o sábio almirantado Britânico, que liberou o Endurance da convocação obrigatória de estado de guerra, e assim podemos finalmente partir em nossa aventura.
Como vê, a sabedoria dos homens e a providencia divina estão ao nosso lado, não há o que temer.
Com amor, John.

Recife, Brasil em 22 de outubro de 1914

Em triste estrada seguimos o mar
Em tristes dias triste tempo triste agonia
Em tristes solidões, tristes pensamentos
Me fazem falta seus alegres momentos
Sua alegria eterna, sua felicidade invejável
Seu sorriso angelical em meio ao mar maleável
Em meio às dores da vida, em meio às coisas ardidas
Seu sorriso me dava alegria
Como eu sinto saudade e queria ver
Nem que fosse só por um dia
Esse sorriso angelical que me trazia paz e harmonia...
Como me faz falta
Seu sorriso angelical...

Montevidéu, Uruguai em 14 de Novembro de 1914

Minha amada Rosely,
Percebo, quase acidentalmente, que já são quase três meses no mar, e pouca coisa realmente interessante há para relatar em águas conhecidas, a não ser minha saudade por ti. O que um não-marujo pode dizer sobre uma estadia de três meses ao mar que não possa ser emulado pela melhor das literaturas?
Temos 26 tripulantes além de Shackleton, compostos por cientistas, médicos, marinheiros profissionais, navegadores, ex-militares da Marinha Real Inglesa, além de mim, 69 cães mestiços para puxar trenós (os quais já conheço todos pelo nome a esta altura de viagem), dois porcos e um gato, que apesar do nome Madame Chippy, é macho. Nada particularmente incomum aconteceu até então, senão o fato de que adicionamos um clandestino à tripulação.
Conversei bastante com ele, seu nome é Perce Blackborow, e seu navio afundou. Ele e seu amigo Willian Bakewell estavam procurando emprego no porto, e o capitão contratou Bakewell, mas não Blackborow, devido à pouca idade e inexperiência. 17 anos e já tem um naufrágio nas costas, pode acreditar nisso Rosely?
Bakewell no entanto ajudou o amigo a embarcar clandestinamente, e ele permaneceu escondido no armário por três dias, enquanto o navio ancorava. Eu o descobri acidentalmente devido a Madame Chippy, e ele me implorou para que mantivesse o segredo até estarmos em alto mar, onde o capitão não teria muita escolha senão utilizar mais um par de mãos hábeis. Assim o fiz, e este será o nosso segredo.
O capitão Shackleton, entretanto, não pareceu nada contente com a adição, e a cena foi deveras memorável: desconfiado que os números de suprimentos não estavam fechando, reuniu toda tripulação no deck para um memorável sermão, que faria o mais tarimbado e antigo dos estivadores se encolher de medo. O carisma do capitão Shackleton é realmente apavorante: imagino que nada menos do que o necessário para sobreviver ao Antártico. Bakewell cedeu à pressão e, terrificado, confessou a verdade, apresentando seu companheiro ao capitão.
Shackleton terminou sua performance se aproximando de Blackborow e, a menos de um palmo do seu rosto, gritou “Sabe que nessas expedições nós freqüentemente ficamos famintos e, se há um clandestino a bordo, ele é o primeiro a ser comido?” com uma entonação suficiente para fazer qualquer homem adulto simplesmente se encolher e chorar, mas o garoto Blackborow apenas olhou o físico avantajado do capitão e respondeu “Eles teriam mais sorte tentando o senhor primeiro, senhor.”
Shackleton escondeu um sorriso satisfeito e o entregou para Frank Wild, com as ordens de “apresentá-lo ao cozinheiro primeiro”. Blackborow acabou se provando um valioso instrumento na tripulação, e todos achamos que no fim tudo acabou bem.
Dentro de 20 dias devemos chegar à Geórgia do Sul, e então a expedição realmente começará.
Com amor, John.

Ponto Rei Eduardo, Geórgia do Sul em 5 de dezembro de 1914

Minha amada Rosely,
Esta será a última carta que receberá em algum tempo, mas peço que não se preocupe, pois o motivo de tal é o melhor possível: estamos partindo hoje da Geórgia do Sul em direção ao outro lado do continente Antártico, de modo que não terei mais como enviar cartas. A civilização ficará para trás, e apenas a aventura nos aguarda. Naturalmente continuarei escrevendo como uma forma de registro, mas as epistolas daqui por diante muito provavelmente lhe serão entregues por minhas mãos, tal qual meu infinito amor e dedicação. Ore por mim, minha amada. Estaremos juntos em breve, não falta tanto agora.
Eternamente seu, John.

Ilhas Visokoi , Arquipélago Sanduíche do Sul em 24 de dezembro de 1914

Oh Rosely, oh Rosely!
Você deveria estar aqui para ver o que eu tenho visto nestes dias cada vez mais frios. Mas o frio, bem, o frio é um pequeno preço a se pagar por esta visão da criação em toda sua magnitude, que poucos homens tiveram e terão o privilégio de ver até o fim dos dias. É exatamente como se descrito pelo velho marinheiro: à nossa esquerda então o sol se levanta, do mar se eleva; em um claro esplendor... depois vai se pôr à direita no mar.
É uma visão única e impressionante.
Os icebergs que rompem a linha da água são colossos titânicos e impressionantes. Maiores que as mais altas construções que já vimos em Londres, e o capitão disse que estes são pequenos, pois degelaram bastante em seu caminho até aqui. Para qualquer lado que se olhe, não se vê a mão do homem, como se jamais houvesse existido neste mundo. Vimos, no entanto, alguns animais interessantes: baleias que são como ilhas explodindo em gêiseres no meio do oceano, cardumes de peixes e, próximo às ilhas, um tipo particularmente estranho de pingüim. São pequenos, andam desengonçadamente, e possuem marcas no peito como se usassem um casaco de inverno, os marinheiros os chamam de “piplups” devido ao piado agudo que eles emitem antes de mergulharem no oceano gelado (Piiiii.... *plup*)
Acho que você realmente ia gostar de ter um desses. Uma coisa estranha aconteceu, no entanto: perguntei brincando ao marinheiro Blackborow se eu poderia levar um desses de recordação, e ele me respondeu, muito sério, que esses animais são criaturas de mau agouro, e que se deve manter tanta distância deles quanto for possível. O que me surpreendeu nisso é que Blackborow não é o típico marinheiro supersticioso, já tive longas conversas interessantíssimas com ele, e o rapaz fala três idiomas, é realmente estranho que acredite nesse tipo de superstição. Mas bem, com superstição ou sem, prometo que vou levar ao menos algumas fotos para você desta fantástica viagem.
Feliz Natal, meu amor, que o Nosso Senhor abençoe os seus dias, como tem abençoado os meus.
Sinceramente seu, John.

Círculo Polar Antártico em 15 de janeiro de 1915

Rosely, meu amor,
Tivemos hoje o primeiro real contratempo neste empreendimento. Acordei ao som dos cães ladrando e dos homens trabalhando ruidosamente do lado de fora do navio, pensei por um momento que havíamos chegado ao nosso destino, mas o cronograma não fecharia. O navio praticamente não balança mais e, antes que eu pudesse me vestir e sair da minha cabine, ouvi a madeira estalando ruidosamente. Foi um grande susto que tomei, mas não tão grande quanto o que tomei ao chegar ao convés, e perceber que não havia água ao redor do barco! Logo encontrei o capitão, e ele rapidamente me pôs a par da situação: durante a madrugada um bloco de gelo escorregou por baixo do Endurance e, ao emergir, levantou o navio no alto de uma pequena plaforma. Agora os homens estão cavando uma rampa para devolver o navio ao oceano, mas deve levar algumas semanas na melhor das hipóteses. Do contrário a outra opção é esperar o bloco de gelo nos levar por algum lugar.
De qualquer forma, parece ser só um contratempo, o capitão não parece preocupado.
Sinceramente seu, John.


Círculo Polar Antártico em 02 de fevereiro de 1915

Rosely, minha amada,
Temo que minha estadia aqui vá demorar um pouco mais do que o esperado. O capitão Shackleton está cancelando o processo de escavação do gelo por vários motivos: o primeiro, e mais importante, é que os homens e os animais estão cada vez mais famintos com o trabalho duro e, neste ritmo, as provisões vão acabar antes que consigamos algum resultado. Houve um deslizamento e alguns cães morreram, além dos marinheiros Bolts e Kinglesthorn ficarem feridos. Nada grave, não se preocupe.
O capitão disse que o melhor a fazer nessa condição é esperar o bloco de gelo no qual estamos presos nos levar próximo ao continente, ou a uma das ilhas, e de lá seguir em um pequeno bote para conseguir ajuda de um rebocador. Até lá estaremos à deriva, mas não se preocupe: temos suprimentos suficientes, e o cozinheiro me disse que, por via das duúidas, não iria enterrar os cachorros mortos. Achei que fosse brincadeira, mas ele me pareceu bastante sério. Seja como for, não se preocupe. Logo estarei em casa.
Com amor, John.

Círculo Polar Antártico em 9 de abril de 1915

A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfriar...
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.
E o vento cede, as velas cedem... Quem iria
Tristeza mais triste encontrar?
E nós falávamos tão-só para romper
O silêncio do mar!

Rosely, minha amada Rosely, a cada dia que passa os dias vão ficando cada vez mais curtos, e as noites cada vez mais longas. Tive uma longa conversa com Blackborow e ele disse que, conforme a sua experiência, a menos que o bloco de gelo bata em outro, dificilmente vamos sair daqui antes de terminar o inverno.
Ore por mim, minha querida.

Círculo Polar Antártico em 19 de junho de 1915


Santelmo urdia à noite um coriscar de açoite,
Turbilhão e tropel;
A água - um óleo de bruxa - verde, azul e branca
Ardia sob o céu.
E alguns em sonhos garantiam ver o Espírito
Que atormentar nos deve;
Nove braças ao fundo, havia nos seguido
Do lar de névoa e neve.

Está fazendo mais frio a cada dia. Os dias estão ficando cada vez menores e, com eles, a disposição e o humor dos homens. Estamos morando há mais de seis meses neste bloco de gelo, navegando sem rumo ao sabor do oceano. As provisões estão diminuindo perigosamente, e não é mais incomum ocorrerem brigas devido ao cansaço, a fome, o frio ou uma combinação sinistra de ambos. Alguns homens já falam em sacrificar os cães, outros em sair para caçar alguns piplups, mas, de qualquer forma, está muito frio para fazer qualquer coisa. Mesmo escrever tem sido extremamente penoso, o inverno aqui é cruel como jamais pode ser imaginado, e temo que meus dedos acabem quebrando como pedaços de cera se eu forçá-los demais. Continue rezando por mim.
John.

Círculo Polar Antártico em 9 de julho de 1915

Eu não posso ir para casa
Eu não posso dormir
Eu não posso dar
Eu não posso receber
Quero ir para longe deste baile de soldados abatidos
Para casa, você ainda se lembra de mim?
Eu não tenho palavras melhores do que "obrigado por seu amor "
Eu não quero morrer aqui.

Círculo Polar Antártico em 13 de agosto de 1915

Depois de meses de aluguel atrasado, finalmente o cruel inverno antártico cobrou seu preço. O bloco de gelo onde o Endurance está se partiu, e o navio afundou numa fossa. Estamos esvaziando o navio e montando acampamento ao céu aberto, é só questão de tempo até a força descomunal do gelo esmagar completamente o Endurance. Perdemos alguns homens no deslizamento, assim como alguns cães, o que ironicamente aumenta um pouco nossas chances, devido a racionalização dos suprimentos. Passamos o dia inteiro com fome e com frio, mas ninguém fala senão o extremamente necessário. A dor no corpo devido ao frio é tanta que mal conseguimos dormir, isso quando não somos acordados pelos estalos ruidosos do Endurance sendo lentamente mastigado pelo gelo.

Círculo Polar Antártico em 31 de agosto de 1915

Após nove meses entalado, esta noite o Endurance finalmente sucumbiu à pressão do Antártico e é desmantelado pelo gelo, e seus restos são tragados pelo oceano. Vimos com melancolia e impotência o nosso lar nos últimos 12 meses sumir entre as prístinas água salgadas do oceano.
Restaram agora 20 homens, 14 cães, um acampamento, um bote salva-vidas, e mantimentos que não serão suficientes para todos.

Círculo Polar Antártico em 13 de setembro de 1915

Nosso suprimento de alimentos está quase acabando, de modo que mesmo o mais supersticioso dos homens está disposto a caçar alguns piplups, e qualquer outra coisa viva que se possa encontrar nessa região. Além do mais, como nossa sorte pode ficar pior do que já está? Os ventos gelados do inverno, e as tempestades de neve, provaram que a escolha do material usado em algumas das roupas mais leves foi um erro enorme. Elas encharcam constantemente, e a água dentro das botas causa sérios problemas de circulação do sangue. Cinco tripulantes estão com tuberculose, e outros quatro com gangrena nos pés, inclusive eu próprio, e meu amigo Blackborow. Fica cada vez mais claro que não resistiremos a outro inverno, e que temos que nos preparar para zarpar assim que o verão chegar.

Círculo Polar Antártico em 23 de setembro de 1915

Ainda escrevo apenas para ter algo com que manter a sanidade. Jamais mostrarei tão horríveis relatos a Rosely. Caçar os pingüins tem realmente se mostrado uma tarefa infernal, nós perdemos três homens em bolsões de gelo fino, e um atacado por um leão marinho. Imagino que realmente essas criaturas devem realmente ser amaldiçoadas, e a superstição dos marinheiros, da qual zombei do alto de meu conhecimento acadêmico, estava correta. Neste lugar, de que valia possuir um diploma ou um doutorado? A morte, o frio e a insanidade não pedem credenciais, ao contrário do que gostamos de nos iludir enquanto estamos quentes e protegidos em nossas cidades. Essa é a grande verdade da vida e ao mesmo tempo a piada da existência humana.
Falando em piada, durante o dia, e a noite toda, ouvimos o piado irritante daquelas criaturas, e me pergunto se não seria melhor simplesmente furar os tímpanos do que continuar com essa tortura. Em face da dificuldade e do risco em conseguir carne de pingüim, vamos sacrificar os cães que restam nos próximos dias, embora só de olhar pode-se ver que não há muita carne a ser tirada deles.

Círculo Polar Antártico em 7 de outubro de 1915

Apesar da chegada da primavera, o caminho para o mar parece não vir tão cedo, mas na primeira chance o capitão e os poucos homens ainda capazes se lançarão ao mar tentando chegar à ilha Elefante. Desistimos de caçar piplups devido à complexidade e ao risco da tarefa, não fosse o bastante esse bloco de gelo ser instável como areia, os bichinhos ainda têm a capacidade de cuspir água com força, e tudo que você não quer aqui é ficar molhado. Foi assim que minha gangrena piorou. Esta semana mais três homens pioraram da pneumonia, tuberculose ou qualquer coisa assim, e Blackborow teve os pés amputados por causa da gangrena. Amanhã será a minha vez.
Inferno na Terra esquecida por Deus em 10 de outubro de 1915

O capitão partiu no bote salva-vidas acompanhado de 3 homens, mas eu nem percebi. Ontem meus pés foram cerrados devido à gangrena, utilizando uma faca de cozinha quase cega, e sem nenhum tipo de anestésico, bebida ou atenuante, senão praguejar e gritar. Meus pés foram cerrados. Lentamente.


Círculo Polar Antártico em 27 de outubro de 1915

Hoje sacrificamos Boris, o último dos cães que embarcaram conosco. Amputado, há mais de meses comendo apenas gordura de foca, carne de cachorro, e eventualmente um biscoito integral (eles estavam sendo racionados, mas mesmo assim terminaram semana passada), nada me resta senão ouvir aqueles malditos pingüins do inferno zombando de mim dia e noite. Eu não me importo mais em comê-los, apenas queria esganar um por um daqueles demoniozinhos azuis, para que eles fechem sua maldita matraca do inferno.

Círculo Polar Antártico em 15 de novembro de 1915

Estou com febre, possivelmente uma infecção devido à amputação. Passo o dia oscilando entre delírios, sonhos, fome e frio. Lembro de uma velha canção que costumávamos ouvir juntos, lembra disso?
Viaje para a Lua
Você está dormindo, resolvendo um sonho
enquanto a luz da estrela deserta puxa as cordas do fantoche
Eu me esqueci de sorrir para poder ser forte
Tenho certeza de que se estivermos juntos, eu posso consegui-la de volta
Note que
Eu estou aqui esperando por você
Mesmo se o futuro for diferente de agora
Estou aqui esperando por você
Gritando
Certamente o meu coração está dobrando no fio que nos conecta
Não era preciso chorar
para me acordar naquela época
E por Deus, o que é preciso para tirar o piado agudo desses pingüins da minha cabeça? Por que eles não param? POR QUÊ? CALEM A BOCA SEUS MALDITOS MONSTROS DO GELO!

Círculo Polar Antártico em 21 de novembro de 1915

Formigas vivem em formigueiros. Ursos vivem em cavernas. Pessoas vivem em CASAS... não no gelo. Pessoas não são cobertas com pele, e nossos corpos não se dão bem com frio, chuva ou vento. Nosso pé dói se pisamos numa simples pedrinha afiada. O frio congela nosso sangue, e os malditos pingüins não calam a boca, não consigo dormir. Estamos absolutamente sem comida há três dias, não sinto nada da cintura pra baixo, e as malditas criaturas piam noite e dia. Bem, se houvessem noites e dias aqui... Acho que deu para entender.
Não temos nenhuma noticia do capitão ainda, possivelmente ele está morto, e nenhuma ajuda virá.

Círculo Polar Antártico em 28 de novembro de 1915

Décimo dia sem comida, nós chegamos ao nosso limite. Eu sei o que acontece agora. Ouvi os homens falando enquanto eu fingia delirar de febre. Ou eu realmente delirava de febre? Acho que é inútil conjecturar a esta algura. O suprimento de carne acabou, mas existe onde conseguir mais sem ter que correr atrás dos malditos pingüins do inferno que só nos levam à ruína. Olhei ao redor. Parece que eles planejavam levar as palavras do capitão ao pé da letra. O clandestino seria o primeiro a ser...
Preciso fugir daqui, preciso ir embora, preciso sair desse inferno com o pouco de humanidade que me resta. Prefiro morrer no gelo fora do acampamento, talvez eu consiga ainda esganar um ou dois malditos pingüins antes que eu morra. Sim, é o que farei: vou rastejar para fora daqui enquanto todos tiverem dormindo. Morrerei, certamente, mas morrerei ao menos como um cidadão britânico. Ao menos isso.

Anotação final em 29 de novembro de 1915

Minha amada Rosely,
Nestes dias cruéis, invernais e infernais, perdi tudo que era mais importante para mim antes desta fatídica viagem. Perdi minha fé em Deus (apenas quem nunca esteve neste inferno gelado pode acreditar que tal ser realmente existe, e se existe é ridículo acreditar que ele se importa, ou tem algum bom sentimento no coração), perdi meus pés e, honestamente, perdi minhas memórias de você. Não lembro como é o seu rosto ou a cor de seus olhos, e todas as lembranças boas que remanescem parece que aconteceram com outra pessoa... em outra vida.
Não sei se ainda te amo. Será que sinto algo por você? Eu ainda sinto algo?
Choro às vezes, querendo lembrar. Minhas lembranças se foram.
Como você era? Que tipo de pessoa você era? Que tipo de pessoa eu era antes disso tudo?
Não sei se ainda te amo.
Não sei se o meu coração ainda reagiria à tua voz. Não acho que meu coração reagiria a mais nada.
Ou se meu corpo ainda reagiria ao teu toque. Não acredito mais que preciso do teu olhar para viver.
Tua presença já não me faz falta, pois nada mais me faz falta: estou acabado.
Nossa música é apenas uma canção antiga. Teu perfume é só um cheiro que consegui guardar em minha mente. Tua foto no álbum só representa um conhecido de alguns anos atrás... Não sou mais humano o suficiente para ter sentimentos tão profundos.
Acho que não consegui fugir a tempo, minha humanidade se foi.

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John era exatamente o que você via: um farrapo humano delirando entre a fome, o frio, a febre (causada pela infecção da amputação nada cirúrgica) e a falta de sono. Nesta época do ano os piplups escolhem os parceiros para o próximo inverno, e por esse motivo os machos da espécie cortejam as fêmeas disponíveis. Acontece, entretanto, que os piplups possuem uma proporção natural de 87,5% de machos para 12,5% de fêmeas, de modo que a disputa por uma fêmea é bastante acirrada, e é freqüente se ouvir por dias a fio os cantos de cortejo dos piplups, o que para humanos soa apenas como meros pios.
Além de tudo, John estava convencido de que seria canibalizado por seus colegas de desastre assim que estes devorassem o seu amigo Blackborow primeiro, e que precisava fugir dali antes que a última desumanidade se abatesse sobre ele. Devido aos delírios, e devido também à forte cena do discurso do capitão, que ficou gravada impressionantemente em sua mente, John não compreendeu perfeitamente o que acontecia entre os homens naquele momento: eles realmente discutiram se deveriam antropofagisar o marinheiro Blackborow, mas isso devido ao fato de que ele havia falecido há poucas horas, fato esse que John nunca veio a tomar ciência, e pensava que se tratava de comer uma pessoa até então viva. Se você pensar no assunto, as duas possibilidades são realmente horríveis, mas a que John vislumbrava conseguia ser pior devido a uma boa margem de votos.

Enquanto todos dormiam, John se arrastou pela neve, engatinhando, agarrando-se com unhas e dentes a qualquer saliência que pudesse usar para avançar e sair na direção do acampamento, praticamente uma escalada. Sua cabeça doía, seus olhos lacrimejavam de fome, e arrastar os cotocos feridos que outrora foram seus pés na neve não parecia igualmente menos doloroso.
Mas ele sabia onde ir, em seu delírio e loucura não havia espaço para dúvida. Seguiu o incessante piado até a beirada do bloco de gelo, onde alguns piplups estavam reunidos, mas mergulharam assim que o avistaram. Tomado por uma loucura animal, por um ódio contido e guardado contra tudo que havia lhe acontecido até então, uma última tentativa desesperada de tirar do peito tudo que não mais lhe cabia, ou então apenas a mera chance única de descontar em alguém antes do fim, se jogou como uma lince ensandecida sobre o bando de piplups à beira do bloco de gelo, e todos pularam na água, exceto por um, que John conseguiu agarrar firmemente entre seus dedos.
Como já foi dito, era um farrapo humano, sim, uma sombra patética do que já fora um dia enquanto pessoa, sim, e agora, a um passo de ter sua insana vingança, brilhava em seu olhar um brilho de loucura e insanidade, que conseguiam deixar suas feições mais profanas e perturbadas do já era até então. Com efeito, John começou a rir. Rir alto e insanamente, rir como um doente demente.
Por um momento esqueceu a dor, o frio, a fome e a desesperança onipresente do Antártico, e apenas sentiu a criatura, o filhote, não, mais do que isso, a VIDA pulsando, se debatendo em suas mãos. Então disse ele ao filhote entre seus dedos, com um carinho e ternura impares, como se esta fosse a criatura mais amada em toda história da criação até este ponto. Suas mãos, portando a pequena ave, tremiam. Seu queixo batia comulsivamente, seu nariz estava congelado e seus joelhos simplesmente queimavam sobre o gelo. Ainda sim, ele disse com todo carinho e cuidados humanamente possíveis:

“E tudo que eu sinto é este momento
E tudo que eu respiro é sua vida
Porque mais cedo ou mais tarde isso acabará
E eu não quero sentir sua falta essa noite

E eu não quero que o mundo me veja
Porque não creio que entenderiam
Quando tudo estiver destruído
Eu só quero que você saiba quem eu sou
E eu desistiria da eternidade para toca-lá
Pois sei que você me sente de alguma forma
Você é o mais próximo do paraíso que eu chegarei
E eu quero ir para casa agora .”

Dito isso, abocanhou com uma mordida só a cabeça do pinguinzinho, o que foi uma cena particularmente dantesca, tendo em vista que ele efetivamente arrancou a cabeça do animal em troca de alguns dentes e pedaços da sua gengiva. John começou então a chorar compulsivamente, infantilmente, de forma aberta e abrupta, como homem algum deve jamais chorará em momento nenhum.
Como tudo mais na vida, esse ataque insano de insanidade não pôde deixar de ter conseqüências, e efetivamente as teve: de imediato outros piplups surgiram para defender o da sua espécie. Como não havia mais o que defender, pois o filhote já havia sido decaptado, restava a boa e velha dose de ultraviolência e vingança pessoal. Os pingüins bicaram o que conseguiam alcançar de John, o que incluía (mas não limitava a) seus olhos, sua gengiva, suas amputações nos pés, e seus dedos congelados que quebravam como velas de cera. A dor inenarrável, velha companheira de toda desventura humana. Os nervos sensoriais registrando cada célula de sua língua sendo arrancada por bicos inclementes, suas iris sendo atravessadas e coisas de menor calão.

Mais ou menos na altura em que os pingüins estavam mordendo sua língua, como se fosse um pinto pegando uma minhoca (e, com efeito, arrancando-a) John sentiu vagamente alguém o arrastando dali, puxando-o pelo que restara de suas pernas.
Sem poder enxergar (pois as bicadas levaram seus olhos) ou falar (assim como sua língua), John pôde ouvir perfeitamente a voz do capitão Shackelton, que havia acabado de retornar com uma traineira para tirá-los dali e levá-los para casa. Ah, se ele ao menos tivesse chegado dois minutos antes...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #089 - Muk


Pokémon Sickness é uma coletânea de contos isolados entre si, mas ambientados no mesmo mundo.

E se Pokémons realmente existissem no nosso mundo?
Mas repare, estou falando do nosso mundo frio, cruel, quebrado e corrupto, não um mundo colorido onde crianças de 10 anos saem passeando por florestas e tudo fica muito e muito bem?

São contos doentios, degenerados, amorais e infelizes.
Cada conto é focado em um dos pokémons, mostrados de uma forma suja, pervertida e sombria.
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- Papai, vem logo pra casa, tem barulhos estranhos... O mano tá estranho... Não acorda... Tô com medo...

Os jovens se olhavam, assustados. Olhos arregalados, respiração entrecortada e ofegante, todos os sinais físicos e claros de que a adrenalina corria sem medo de ser feliz entre as sinapses do cérebro. O coração trabalhava como se não houvesse amanhã. Enfim: estavam encagaçados.

- Cara... – um deles arriscou, mas foi interrompido pela sinfonia funesta que ecoava vindo do andar de baixo.

Eram gritos, não, berros, urros desesperados de uma criatura em dor. Uma dor que não podia mensurada, não podia ser medida em palavras, era apenas o desespero e agonia em sua forma mais pura e simples, mais primitiva e animal. Era o som de uma vida sendo vivissecada, era um som infernal e inesquecível. Ambos sabiam que esse som provinha de uma criança, uma criança de apenas 6 anos de idade, que a esta hora estava sendo digerida viva no andar de baixo da casa.

- Cara... – o mesmo tornou a acrescentar, assim que os gritos silenciaram – temos que fazer alguma coisa...

“Sim, dar o fora daqui” o outro pensou, mas nada disse.

- Os gritos pararam... será que ele foi embora?

O outro teve um péssimo pressentimento sobre onde essa conversa ia terminar, mas novamente nada disse. Mesmo no escuro sabia que o outro olhava em direção à porta. Com efeito, seus piores temores se confirmaram, e ele viu seu companheiro de terror indo até ela. Mas que diabos! Esse pessoal nunca assiste filmes de terror? Voltar lá para checar se o monstro foi embora só é pior do que se enfiar no porão numa hora dessas (e fazer sexo, mas não achou que esse fosse um risco que ele corria nesse exato momento...). Ainda sim, não pôde evitar de soltar um “não, cara!” quando seu amigo se moveu até a porta.

- Ela é minha irmã, eu tenho que... – mas parou aí. Aparentemente seus pensamentos só tinham ido até o “eu tenho que fazer alguma coisa”, já que obviamente não fazia idéia do que poderia fazer. E além disso tinha o fato de que estavam, como eu já disse, encagaçados. Mas foi mesmo assim.

Nando se dirigiu pé ante pé em direção à porta, com medo de ser traído pelo piso de assoalho, que poderia emitir algum ruído (o que efetivamente não aconteceria, pois a casa era de alvenaria), abriu a porta com o cu na mão, e seguiu em direção à escada. Deixado sozinho no quarto semi-iluminado, Pedro olhou ao redor pensando no que fazer, o que não resultou em muita coisa. Amaldiçoando mentalmente em todas as línguas que conhecia (uma só), seguiu seu amigo.

Após ter cruzado o corredor, amargurando cada passo, viu Nando na beira da escada agarrado ao corrimão. Seu amigo estava chorando, lágrimas escorriam fluentemente de seus olhos como ele nunca havia visto em sua vida, e só não pensou nada dele (homens não choram, qualquer um sabe disso) porque ele próprio já estava com os olhos marejados. Não por medo ou qualquer coisa que havia visto, mas sim pelo cheiro. Deus, o que era aquele cheiro? Era como se o oitavo círculo do inferno contivesse todo o esgoto da Terra e você estivesse tomando banho nele. Era pior que o peido do Mamute, que fez a classe inteira evacuar a escola. Fato verídico. A essa altura seus olhos estavam reduzidos a enxergar apenas as suas próprias lágrimas que escorriam.

Ajoelhado no fim da escada (ou no começo dela, depende de onde você vai ou pra onde você vem), Pedro não só chorava como efetivamente vomitou. Uma golfada verde e vigorosa, tão perfeita, esverdeada e saudável, que se tivesse sido no vaso daria até pena de puxar a descarga. Enquanto a massa putrefata de bílis e batatinha Springles desce a escada, explicaremos o que foi que Pedro viu no andar de baixo: sua irmãzinha estava caída no meio da sala, ou mais precisamente o que deveria ser sua irmãzinha, pois havia uma criatura sobre ela... Bem, criatura não era exatamente o termo correto, parecia mais uma massa púrpura viscosa com contornos quase humanóides, semi-amorfa, provavelmente algo que foi vomitado pelo oitavo circulo do inferno. Essa massa asquerosa estava sobre ela e, de onde estava Pedro, podia ver apenas parte do seu braço para fora da “bolha” roxa e parte de seu rosto.

Ela gritava de dor! Lágrimas escorriam pelos seus olhos, o sofrimento era grande. Ela tentava se soltar, mas não conseguia. Pedro pensava “preciso fazer alguma coisa”, mas sem se mover, quando então ele viu o braço dela, que estava para fora da bolha, apenas cair no chão e rolar pelo tapete aveludado. O mesmo aconteceu com sua cabeça, e com não menos horror, Pedro viu ¼ da cabeça de sua irmã rolar pelo tapete. Todo o resto havia sido... digerido pela massa púrpura asquerosa. Foi isso que o fez vomitar e, no que ele vomitou, a coisa percebeu sua presença, e começou a se mover na direção da escada. Ainda em choque, Pedro nem percebeu quando seu amigo Nando o agarrou pelo braço e o arrastou para dentro do quarto, enquanto gritava todos os palavrões que conseguia lembrar, e inventar novas combinações como “merda nauseabunda basculante!!!”. Sob outra situação, teriam dado risada disso.

- QUE MERDA É AQUELA?!? – Nando gritava, enquanto trancava a porta e empurrava a escrivaninha para barrar ainda mais a passagem, ao mesmo tempo que tentava de alguma forma diminuir aquele cheiro atroz e colossal que tomava o seu nariz de assalto com fúria assassina, mas descobriu que simplesmente colocar a camiseta na frente, do não era nada eficiente.

Pedro, naturalmente, não sabia que merda era aquela. Sabia que aquilo fedia mais que gambá que levou spray de pimenta no ânus, e que havia digerido sua irmãzinha ainda viva, daí os gritos que ouviram. Mas isso era tudo que sabia. Ah, e sabia também que aquela coisa estava vindo pegá-los agora. São ótimas coisas para saber, não?

Ficaram alguns segundos em silêncio, sem saber o que dizer. Não sobre a parte do monstro lá embaixo, o difícil mesmo era pensar no que dizer para o seu amigo depois dele ter visto a irmã ser digerida viva. Que tipo de coisa se diz numa hora dessas? As meninas são criadas pra sentir emoção, os meninos não, são criados pra reprimir tudo.

Foi feito um experimento na Suécia, interessantíssimo. Pegaram dois bebês exatamente iguais, da mesma idade, e colocaram roupinhas azuis na menina e rosas no menino. E depois mandaram algumas pessoas adultas entrar e brincar com os bebês. Todas pessoas, sem exceção, abraçavam o bebê de roupinha cor de rosa, alisavam o rosto, falavam com a voz mansinha. Já com o bebê de roupa azul, a relação tinha muito menos contato físico, e era muito mais do tipo “aí, garotão!”, especialmente por parte dos homens que pegavam nos bebês.

Homens são criados para serem sempre fortes, ágeis, viris, tomar conta de tudo e de todos, incluindo suas mães, suas irmãs, suas esposas e suas filhas. Arcar com as despesas da casa e nunca vacilar, chorar então, esqueça. Homem não têm sentimentos, e se tiverem não são, em hipótese nenhuma, para demonstrá-los em público, ou seja, a nenhum ser humano. Por isso, em uma situação como essa, tudo que um homem pode fazer por seu amigo é ficar quieto e oferecer o seu silêncio.

Infelizmente o monstro parecia não ter muita noção de hombridade e ética masculina, e logo o cheiro de batida de esgoto em usina de processamento de lixo começou a aumentar, de modo que, passado um instante, os garotos podiam ouvir do outro lado da porta um gemido agonizante, mais agonizante do que velhinho com prisão de ventre tentando cagar de bruços. Realmente perturbador. Era evidente a essa altura que a coisa já estava no corredor, mais precisamente do lado de fora da porta.

Enquanto Pedro e Nando esqueciam de seus problemas menos mundanos para se perguntar se a porta seguraria aquela coisa, a resposta foi bastante desagradável para ambos: NÃO! Uma gosma púrpura, viscosa e asquerosa como o próprio inferno, começou a escorrer por debaixo da porta, e como não poderia deixar de ser, os garotos não esperaram aquela coisa terminar de atravessar por debaixo da porta para fazer alguma coisa:

- CORRE CARALHO!!!

A idéia realmente parecia muito boa e sensata na teoria, mas o fato é que não havia realmente para onde correr, eles haviam se trancado em um quarto no segundo andar, lembra? E aquela coisa já havia atravessado quase completamente, o fedor abissal e absoluto fazia com que eles não enxergassem praticamente nada devido às lágrimas em seus olhos. A criatura já havia quase assimilado sua forma semi-humanoide, semi-amorfa, quando Pedro gritou:

- PULA!!! – e se jogou pela janela, com vidro e tudo.

Nando observou atônito seu amigo se jogar pela janela, mas aquela aberração já estava a menos de um metro da sua perna, o que ajudou a tomar sua resolução: pulou também pela janela.

Ao cair, sentiu uma dor como nunca havia sentido antes. Ao conseguir se livrar das roseiras que o arranhavam e laceravam seu rosto e seus pulsos (havia caído bem em cima do jardinzinho da mãe de Pedro, que ficava embaixo da janela do quarto do amigo), viu que a sua perna estava dobrada na direção contrária a que as pernas deveriam dobrar-se. A dor, ah, a dor! O que dizer sobre a dor que ainda não foi dito? Bem, na ausência de tal, direi algo interessante para variar um pouco:

Vale a pena esquecer o que os pais e as aulas de boas maneiras ensinaram: em momentos de dor, xingar pode ajudar, e muito. A descoberta partiu de um estudo coordenado pelo psicólogo Richard Stephens, da Universidade Keele, na Inglaterra. Intrigado com o uso automático de palavrões como reação imediata ao sofrimento físico, Stephens decidiu investigar o papel das expressões ofensivas na resposta do corpo à dor. Fez um experimento com 67 estudantes: mergulhou a mão deles em um recipiente com água extremamente gelada, e deixou que proferissem todos os xingamentos que quisessem. Em um segundo momento, repetiu a experiência, mas não foi permitido que falassem palavrões. Quando xingaram, resistiram por 30 segundos a mais à baixa temperatura.

O estudo constatou que dizer palavrões aumenta os batimentos cardíacos e diminui a percepção da dor. Tais efeitos podem ocorrer porque praguejar induziria no corpo a anulação do vínculo entre medo e percepção da dor. Uma ressalva: recorrer a palavrões não amenizaria os padecimentos de homens acostumados a usar essa linguagem. Para se beneficiar da "boca suja", é necessário utilizá-la com moderação.

Passado esse momento cultural, onde estávamos mesmo? Ah sim, garoava levemente, Nando havia caído no quintal em cima das roseiras, alguns bons centímetros de espinhos cravados em sua pele, com a perna na melhor das hipóteses quebrada, mas... Onde estava Pedro?! Procurou rapidamente ao redor e viu uma visão aterradora do amigo: estava com a cerquinha branca do jardim atravessada no pescoço. Era uma visão dantesca, seu melhor amigo com o pescoço empalado na cerca, a boca escancarada escorrendo um filete de sangue, e os olhos abertos, mortos, observando o céu nublado.

Ainda sob o efeito do choque dessa cena, finalmente cedendo a um choro primitivo, e até certo ponto infantil, Nando apenas sentiu uma coisa quente sobre sua perna (não a danificada, a outra), como se tivessem atirado um balde de água morna sobre ela. Pôde sentir o jeans da calça se fundindo à pele e além disso. Sentiu cada pequena camada de pele, logo depois de carne, e por fim até o osso derretendo, e nenhuma dessas sensações foi particularmente boa. O seu urro de dor pôde ser ouvido em toda a vizinhança e mais além.

O que aconteceu foi que o monstro os seguiu saltando da janela, e aquela massa viscosa anormal acabou caindo sobre a sua perna. Nando tentou se arrastar para o mais longe que pudesse da criatura, e percebeu que isso foi surpreendentemente fácil, pois sua perna não ficou presa embaixo do monstro. Mais precisamente não ficou presa em lugar nenhum, pois ele simplesmente não tinha mais perna, e o cotoco que sobrava ardia ferozmente. Mas mesmo assim se arrastou para fora do roseiral com os braços, aumentando ainda mais os cortes e lacerações, embora no momento essa fosse com certeza a menor de suas preocupações, e mesmo de suas dores.

A criatura seguiu Nando com o que pareciam ser braços (ou protuberâncias no lodo púrpura, mais precisamente) estendidos em sua direção. Conforme ele avançava, um rastro pútrido corrompia o solo de modo que nada mais ali nasceria nos próximos muitos anos vindouros. Nando se arrastava pelo pátio, e a criatura se arrastava atrás, até que Nando chegou à cerca alta de madeira que delimita a propriedade e, encurralado, esperou pelo pior. Foi quando uma coisa incrível aconteceu: a chuva começou a diluir a criatura, até que não restasse nada senão uma maldita poça asquerosa púrpura borbulhante.

Nando finalmente desabou por completo e apenas chorou e chorou, sem se mover dali até que a polícia aparecesse.


3 HORAS ANTES

O professor Carlos estava passando o final de semana em casa com seus filhos, já que sua esposa estaria o final de semana todo fora, viajando a trabalho. Durante o começo da tarde de sábado recebeu uma ligação para buscar alguns papéis realmente importantes no centro da cidade para estudar até segunda-feira. Bem, não parecia tão problemático assim, parecia?

Avisou a sua amantíssima filhota que iria sair por uma hora ou duas, mas que não era para ela se preocupar, pois seu irmão e o amigo dele estariam em casa, e qualquer coisa ela saberia o celular do papai. Beijou a menina no rosto e saiu.

O que ele não imaginava, no entanto, é que seu filho Pedro e o amigo achariam divertido assustar sua irmãzinha de 6 anos. Para isso, utilizando de um helicóptero de brinquedo de controle remoto, o faziam bater nos vidros da janela e da porta do primeiro andar para assustar a menina. Quando esta subiu a escadaria para procurar ajuda do irmão, ele e o amigo se fizeram de “mortos” no quarto, para assustá-la ainda mais. Isso fez com ela ligasse para o pai, e relatasse o que ela achava que estava acontecendo.

Foi tudo uma brincadeira, e os garotos deram algumas boas risadas disso tudo.

Para o professor, entretanto, não pareceu ser nenhum tipo de brincadeira: a sua filha parecia realmente assustada, e aquilo sobre o irmão dela foi o suficiente para dar meia volta na rodovia, e voltar para casa a 120km/h. Ainda mais nos dias de hoje...

Havia chovido forte o dia todo desde a noite passada, e embora não chovesse naquele momento, a pista estava bastante molhada. Molhada o suficiente para o professor perder o controle do carro ao tentar imprudentemente ultrapassar pela pista da contramão um caminhão de velocidade controlada que nunca passava dos 40km/h . Se ele estivesse menos desesperado, e não falando ao celular com a polícia ao mesmo tempo, talvez tivesse lido os avisos no caminhão-tanque, e entendesse porque ele não passava de 40km/h. Mas, como dito, o professor tentou ultrapassar assim mesmo, e ao emparelhar com o veículo (usando a pista da contramão, não era uma rodovia duplicada), estava ocupado xingando o motorista quando viu, só em cima da hora, que outro caminhão estava vindo no sentido contrário, na sua direção.

Ele tentou acelerar, ultrapassar o caminhão-tanque, e voltar para sua pista a tempo, antes que o caminhão em sentido contrário o acertasse com tudo, mas, com a pista molhada, não houve tempo o suficiente, e o seu carro acabou partido ao meio entre os dois caminhões

Ao acordar entre as ferragens, o professor percebeu algumas coisas: a primeira, e mais óbvia, é que o seu carro havia sido partido em dois. Não bizarro o bastante, ele podia ver suas duas pernas na outra metade do carro, a alguns metros de onde ele estava, o que sempre é uma visão bastante desagradável, se querem a minha opinião.
A outra coisa que ele percebeu é que os dois caminhões haviam tombado com a tentativa de evitar uma batida na sua fracassada manobra espetacular. Mais precisamente, o tanque do caminhão-tanque estava bem diante das ferragens onde a metade que sobrou do seu corpo estava presa. Mais precisamente AINDA, o tanque estava rachando com o impacto do tombamento, e o professor não passou muito tempo se esvaindo em sangue (conselho do dia crianças: não cortem sua artéria da coxa) antes do tanque finalmente arrebentar, e despejar o conteúdo líquido, e infinitamente tão nojento como fedorento, sobre ele.

Além disso, o professor não sabe muita coisa realmente. Sabe que tinha que voltar para casa, sabe que tinha que proteger seus filhos e abraça-los, e sabe que, de alguma forma, conseguiu.

O que era pouco, bem pouco na verdade, se compararmos as coisas que ele não sabia.

Não sabia o que aquele conteúdo tóxico havia feito com o que restava do seu corpo.

Não sabia que havia se tornado uma aberração tóxica que dissolvia/digeria/envenenava tudo por onde passava, e a todos que tocava.

Não sabia que havia se tornado um monstro.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #039 Jigglypuff

Pokémon Sickness é uma nova série de textos que eu postarei aqui no blog, em parceria com o Aélsio, que fará ilustrações.

Bem, o que é Pokémon Sickness? São contos isolados, cada um sobre um dos monstrinhos, sem nenhuma relação entre si, senão o fato de que se passam no mesmo universo.

Outro ponto em comum às histórias é que elas tentarão buscar o que há de mais doentio, asqueroso e perverso na pobre alma deste que vos escreve. O que implica que as histórias envolverão temas como drogras, estupro, mutilação, suicídio, tortura, incesto, abuso infantil, e daí ladeira abaixo. Sim, isto com pokémons.

Então, eu realmente recomendo que simplesmente pule os textos desta série caso se sinta ofendido, tenha menos de 18 anos, ou simplesmente não vá muito com a minha cara. Bem, era o que tinha a explanar. Aos que decidiram continuar, bom texto, e obrigado pela preferência.

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Ricardo foi tomado por um sentimento branco, puro e cristalino. Como se mergulhasse em uma piscina de luz quente. Isto deveria ser a sensação equivalente, ele ponderou, a perder a virgindade, embora quanto a isto ele poderia tão somente imaginar. Fosse como fosse, o que realmente importava é que ele havia finalmente feito. Estava concluído, não podia ser desfeito agora.

Não que ele sequer pensasse em desfazer, é claro. A inigualável sensação de possuir borboletas dançando no seu estomago lhe dizia que ele estava fazendo certo, era uma embriagante sensação de triunfo – até onde ele se lembrava, a primeira em muitos anos que não tinha qualquer relação com World of Warcraft.

Passou a língua sobre os lábios secos mais uma vez, e seus dedos correram pelo teclado, checou seu e-mail no Gmail, e um abismo de decepção o invadiu quando não viu a faixinha branca de nova mensagem no alto da lista de e-mails (todos compostos por mensagens em fóruns, notificações do YouTube, listas de discussão e coisas do gênero – nenhum email pessoal, até onde podia ser visto na tela). Respirou fundo, e então ele viu o contador de novas mensagens modificar para (1), e novamente a euforia triunfante tomou conta de si. Era isso, havia sido confirmado, tudo aconteceria conforme ele planejara. Estava confirmado. Havia feito. Haviafinalmente comprado.

Tamanha foi a euforia que quase emitiu um som – definitivamente estava nos seus melhores dias.

Finalmente aliviado, se largou para trás na cadeira. Quem olhasse sua expressão poderia julgar que ele acabara de desarmar uma bomba, completar uma neurocirurgia de 14 horas, ou construir um castelo de cartas de 4 andares. Mas nada disso, não foi isso que ele fez. O que ele havia feito era comprar algo na internet.

Ora, não é a compra em si que o deixou nesse estado de vitória e superação, já que nenhuma anormalidade consistia para ele comprar produtos pela rede, a bem da verdade muito mais era o processo inverso, sobretudo quando envolvia (bate na madeira) falar com pessoas. Não, não foi o que ele comprara, e sim a finalidade com a qual ele comprara. Esse era o segredo aqui, essa era a pergunta do milhão de dólares: não “o que”, nem “como”, mas... por quê?

O que, você me pergunta, leva alguém a este estado semi-nirvanístico apenas com uma simples compra na internet? E eu te responderei: o mais antigo e nobre de todos os sentimentos, aquilo que nos define como espécie única dentre todas. O sentimento sobre o qual foram construídos reinos, impérios e nações, o sentimento em nome do qual vidas foram arruinadas, purezas maculadas e chagas propagadas. Enfim, o mais humano de todos os sentimentos, filha mais velha do ódio com a impotência: a vingança.

Ricardo tocou o seu próprio ombro, tenso. Imaginou por um momento como seria a sensação de ser tocado por outra pessoa, mas tentou afastar esses pensamentos: uma coisa de cada vez, e não podia sonhar longe demais, ao menos não agora. Não agora que finalmente estava tão perto de finalmente realizar alguma coisa. E só então se deu conta de que estava tão perto, embora essa súbita ciência também o fez perceber o quão profundamente apavorado estava. Realmente ia acontecer, não ia? Não era mais um plano idiota de criança, ou nada do tipo, era uma realidade... Cara, isso realmente o assustou!

Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, afastando os pesados óculos de aro grosso com a outra mão. Tentou se concentrar, lembrar do que estava fazendo, do por quê estava fazendo, do que ele precisava fazer para finalmente poder seguir com a sua vida.

A primeira vez que ele viu Amanda foi no dia em que ela foi transferida para a sua escola. Isso era por volta dos seus catorze anos e, Deus!, como ela era perfeita. “Ela sorria como um anjo, e deve chupar como um demônio”, foram esses seus exatos primeiros pensamentos ao vê-la pairando graciosamente no corredor da escola daquele verão. Mesmo naquela idade ela já possuía seios empinados e firmes, e pernas que fariam um cavalo de corrida ficar deprimido. Ah, o rosto de anjo e as madeixas loiras, tão absolutamente perfeita...

O segundo pensamento depois disso envolve uma parede branca, e um bocado de sangue e reboco no seu nariz. Aparentemente algumas pessoas pensavam que ela era boa demais para ser observada por alguém como ele, o que era uma opinião da qual ele próprio compartilhava. Quer dizer, se Deus quisesse que ele pudesse ficar no mesmo hectare de alguém como ela teria lhe dado alguma qualidade, não é mesmo?

A resposta mais provável era “sim”, e naturalmente poucos neste mundo duvidariam disso. E Marcos era uma dessas pessoas. Marcos, no entanto, tinha uma forma toda própria e especial de demonstrar ao mundo, e sobretudo ao patético Ricardo, o que ele pensava. Essas “demonstrações de opinião” usualmente terminavam com Ricardo na enfermaria, e essa não seria uma exceção.

Obviamente que ele disse, quando questionado pela professora responsável, que escorregou. Sozinho. Parado no meio do corredor. Ok, Ricardo era um péssimo mentiroso, mas o que mais ele poderia dizer? Que o cara mais “cool” do colégio bateu com a cabeça dele contra a parede, apenas porque ele estava olhando a garota nova, e absolutamente perfeita, que provavelmente Marcos já estaria enjoado de comer até o fim da próxima semana? É, certo...

Ser feio, tosco e patético já era suficiente, não precisava ser suicida também, obrigado.

E além disso, mesmo que ele contasse a verdade, que diferença faria? Se em um sonho louco de verão Marcos fosse, sei lá, expulso, e ele sobrevivesse o bastante para continuar freqüentando o colégio, e a turminha de Marcos simplesmente “deixasse passar”, se todas essas coisas improváveis acontecessem... mesmo assim nada mudaria. Levaria menos de uma hora para que algum candidato a macho alfa do colégio tomasse o seu lugar. Afinal de contas, era isso que as garotas gostavam e, infelizmente para ele, pisar em caras como ele (literalmente também, mas não limitado a) é parte do ritual de acasalamento da nossa espécie. Alguns nascem para ser o herói do filme de artes marciais, alguns nascem para ser o figurante que entra em cena só para tomar porrada e fazer o herói parecer mais heróico ainda.

Essa, naturalmente, não foi a única vez que os “caras legais” da escola o lembraram de qual era o lugar dele, sob o olhar de aprovação das garotas que ele queria para si. Nem todas as vezes envolviam dano físico, embora seus algozes não fizessem muito esforço para impedi-lo, e sim toda sorte de humilhação que se possa imaginar. Nesses anos todos, Ricardo acabou aprendendo algumas lições valiosas: que havia uma forma certa de se vestir (que envolvia nunca, jamais, chamar a atenção, e apenas usar roupas basicamente iguais), que sua memória era a única coisa com a qual ele podia contar ao voltar da escola (cadernos, livros e materiais escolares NÃO eram para os fracos, conforme ele constatou), e que havia pessoas para as quais ele não podia olhar, lugares que ele não podia ir, e caminhos que ele não devia seguir. Falhar em compreender essas lições, entre outras, lhe resultou aprendizados extremamente desagradáveis, como por exemplo: poucas pessoas podem realmente dizer qual o gosto do excremento humano ao paladar. Ricardo podia.

Como eu disse, não foram lições nem tampouco fáceis de se aprender, e isso é mais do que é necessário dizer sobre sua adolescência.

A partir desse ponto, você já deve ter concluído sobre quem se tratava a sua vingança. O que você deve estar se perguntando é como ele faria isso. Havia Ricardo comprado uma arma na internet, e pretendia entrar em uma festa e sair atirando em todos aqueles cães cretinos? A resposta é não.

Vou mentir se disser que Ricardo realmente nunca considerou essa possibilidade, mas essa não é uma boa idéia. Não porque ele seja capaz de sentir qualquer proto-sentimento de compaixão ou perdão, nada disso. O que fez Ricardo abandonar essa idéia foi simplesmente que outras pessoas já haviam feito isso, e o resultado simplesmente não era bom. As “vítimas” saiam como pobres anjinhos imaculados do Senhor, enquanto o cretino miserável que havia feito isso era apenas um desequilibrado mental sem motivo, provavelmente nazista e pedófilo nas horas vagas. O que, absolutamente, não era verdade, mas no fim era como as pessoas viam as coisas. Isso o fez abandonar a idéia das armas, se Ricardo fizesse isso eles venceriam.

E ele teria sua vitória, nem que fosse a última coisa que pudesse fazer na vida, pelo menos uma vez na vida ele venceria. Nem que fosse uma só, mas ele a teria, e faria valer a pena, faria valer cada segundo. Esse era o pensamento que o mantinha agora, e o fazia se sentir tão vivo e, pela primeira vez, tão … no controle. Essa vez, e só dessa vez, as coisas aconteceriam do seu jeito. Ele teria sua vingança.

O e-mail na caixa de entrada do Gmail confirmava isso.

Teria sua vingança pois o que ele havia comprado não era nenhum tipo de arma, nem nada do tipo, era na verdade algo muito, muito, muito mais... especial...

Duas semanas depois, Ricardo estava agachado atrás de um arbusto do outro lado da rua, onde era a festa de formatura da turma do segundo grau. Todos foram convidados, inclusive Ricardo – o que era uma espécie de última sacaneada para com ele. Não que ele fosse tão importante assim a ponto de merecer uma última pegadinha trabalhada, ele nunca foi nada disso na vida de ninguém.

Depois daquilo cada um provavelmente seguiria um rumo diferente. Alguns iriam para a faculdade, alguns iriam abraçar um emprego, alguns viveriam do dinheiro dos pais, e alguns viveriam da sua boa aparência enquanto pudessem. Enfim, um final de segundo ano particularmente comum, e não era preciso dizer qual dentre esses seria o destino que Amanda abraçaria, ou vice-versa.

Ah, Amanda... tinha planos muito especiais para ela essa noite. Com certeza ela jamais esqueceria enquanto vivesse, e esse pensamento em particular causou um sorriso em Ricardo. Se de nervosismo ou felicidade, ou qualquer outra coisa, jamais saberemos. Nesse instante ele a viu de relance enquanto ela descia de algum carro que custava mais do que todo dinheiro que já passara nas suas mãos até então, embora não tenha visto mais detalhes, pois instintivamente se escondeu no arbusto do outro lado da rua como se ela pudesse vê-lo se ele a enxergasse. “Não que ela fosse se importar”, acrescentou mentalmente. “Não que alguém fosse se importar”, tornou a acrescentar.

Feito isto, só restava esperar. Mil dúvidas percorreram a sua cabeça: e se a entrega atrasasse? E se não funcionasse? Quer dizer, era algo bastante fora da realidade do dia-a-dia, e toda certeza que ele tinha eram alguns vídeos no YouTube e olhe lá.. Tamborilou com os dedos no pulso coberto por uma manga escura, olhou para a sacola de viagem ao seu lado. Repassou um checklist das coisas que havia pego, e não lembrou de ter esquecido nenhuma. Em seguida pensou que seria muito estranho ele lembrar de ter esquecido alguma coisa...

Alguns tensos minutos depois, um som de carro parando em frente a casa onde acontecia a festa chamou sua atenção. Seu coração deu um salto: era um furgão da Fedex. Era isso, estava finalmente acontecendo!

O entregador desceu do carro, deu a volta, e abriu a porta traseira do furgão, conferiu em uma prancheta com auxílio da luz do poste, pegou uma caixa do tamanho aproximado de uma televisão, e se dirigiu em direção à casa. Tocou a campainha e, instantes depois, a porta abriu. Mesmo do outro lado da rua Ricardo pôde ouvir música alta incomodando os seus ouvidos, ali dentro devia estar praticamente insuportável... ou ao menos para quem não era acostumado. Mas se ele fosse o tipo de pessoa que se habituara a este tipo de lugar, aquela entrega não estaria sendo feita agora, e tudo seria tão diferente... Mas não era e, de qualquer forma, era tarde demais para voltar atrás agora. A entrega estava feita, e o homem da Fedex entrava em seu furgão para ir embora. A porta da casa onde acontecia a festa fechou.

Do outro lado daquela porta, dentro da festa, a entrega da caixa havia causado uma certa comoção. As pessoas se acotovelavam para ver o que estava dentro da caixa, já que era não era normal fazerem entregas em uma festa. E esse era o tipo de “não-normal” bom e aceitável, o que as pessoas gostavam e contavam depois, como se fosse uma aventura para se vangloriar depois, mas dentro do socialmente esperado.

Dentre as pessoas na festa, Marcos e Amanda abriram seu caminho até a caixa, cada um a seu próprio modo, e chegaram vindo de lados opostos da festa. Se olharam por um instante de forma tensa, dando a entender que havia uma história entre eles, e então voltaram a atenção para a caixa, que uma garota estava abrindo nesse instante. O som da música baixou, e várias vozes em tons diferentes se fizeram ouvir:

- O que é?

- Ai, que fofo!

- É de verdade?

- É de pelúcia?

- Tá vivo?

- Eu nunca tinha visto um desses pessoalmente... Qual o nome dele?

- Tá perguntando pra mim? Eu lá tenho cara de quem assiste Globo Repórter?

Entre as várias perguntas que permeavam o ar daquela sala, um grito agudo se elevou, e então houve silêncio.

- O-os... os olhos... olhos dele... meu deus...

Várias garotas fizeram uma expressão misturada de asco e medo, virando o rosto. Um garoto comentou em tom baixo, quase um tanto constrangido em não ser ignorante sobre o que era aquela coisa:

- Ouvi dizer que os caçadores arrancam os olhos deles para que eles não fiquem estressados e cantem em qualquer lugar.

O que estava dentro da caixa era uma espécie de criatura... estranha. Parecia uma almofada, um puff redondo com orelhas de gato e patas curtinhas. Era de uma cor rosada, quase roxa, um tanto perturbadora na verdade, mas não tanto quanto o fato de que, no lugar de seus olhos (que ocupariam a maior parte da cabeça), haviam apenas profundos espaços escuros. Era uma figura que ao mesmo tempo evocava uma certa inquietação e tensão, ao mesmo tempo que era fofo e digno de pena.

- Tem mais alguma coisa dentro da caixa – alguém comentou, pegando uma caneta marca-texto do fundo da caixa – E tem um bilhete também... “dar para ele”.

Sem ter muita certeza do que estava fazendo, a jovem apenas colocou a caneta na pata da ... coisa, de uma forma que ela parecia que ia segurá-la. Ao sentir a caneta em sua pata, a criatura de tonalidade roxo-doentia começou a se mexer um pouco mais, e parecer um pouco menos um puff estático. A criatura se debateu um pouco com certa ferocidade, até que finalmente a colocaram de pé sobre uma mesinha. Todos na festa agora prestavam atenção nessa cena bastante incomum, afinal, não era todo dia que um animal exótico de um canto obscuro do mundo era entregue no meio da sua festa e começava a ... cantar?!?

Sim, cantar. A pequena criaturinha exótica começou a cantar naquele dia que acordou cinza, de olhos inchados, em que a noite havia fugido com a lua. A canção se derramou pela sala, ela se despedaçou em mil gotas de dor mais profunda que o som de mil trovões rasgando a noite. Foi essa a maneira que encontrou de entoar uma canção de amor, e fazer sangrar a noite sua dor.

Após alguns instantes, não havia quem presente estava naquela sala que não estivesse com os olhos marejados. Fosse pelo sono, que inexplicavelmente abatia com violência as pálpebras, fosse pela profunda dor e melancolia, que a canção da criaturinha infligia em seus corações. De alguma forma, eles sabiam que a criatura cantava sobre a dor, sobre a melancolia do cativeiro, da mutilação, e da desesperança, mesmo que nenhuma palavra houvesse naquela canção. Essa é uma daquelas coisas que só a música consegue fazer.

Em poucos minutos todos estavam dormindo no chão da sala, não poucos com o rosto inchado em lágrimas.

Alheia a tudo isso, pois não enxergava de qualquer maneira, a criatura mutilada apenas continuou cantando e cantando, mesmo que ninguém ali houvesse para ouvi-la.

Foi mais ou menos nessa altura que a porta de entrada se escancarou, e Ricardo entrou marchando triunfante na sala, com pesados fones acústicos cobrindo seus ouvidos. Embora a proteção o impedisse de ouvir a música, aquela cena o comoveu quase tanto quanto: havia dezenas de adolescentes inconscientes no chão, dormindo profundamente um coma induzido. E ele conhecia muitos deles ali. Ah, como os conhecia...

Havia sonhado com aquilo por semanas, não meses, não, não, anos a fio! Bem, não aquela forma de vingança específica, mas aquela sensação, aquele momento. Era quase bom demais para ser verdade. Mas ERA verdade, e isso fez seus olhos marejarem de alegria.

Ricardo colocou sua bolsa de viagem ao seu lado, e agora abria o zíper lentamente, enquanto olhava em volta sem saber por onde começar. Se sentia como um nerd que descobriu um emulador novo, e agora não fazia idéia do que começar a baixar diante de uma vasta biblioteca de títulos. Na dúvida, decidiu começar pelo básico. Enquanto mexia na sacola podia-se perceber que haviam diversos objetos ali e, após algum tempo, Ricardo puxou um bastão de beisebol e uma filmadora digital.

Colocou a câmera sobre o suporte de marfim da lareira, de modo que ela enfocasse toda sala.

Enquanto se deslocava entre os corpos inconscientes no chão (a princípio tomando o cuidado de não pisar em ninguém, mas então, se auto-corrigindo para lembrar do que estava fazendo ali) pensava honestamente que seria mais difícil. Que na hora teria alguma crise de humanidade, ou falta de coragem, ou piedade, enfim, essas coisas que a gente adora falar que faria, mas na hora apenas seria um bom rapazinho civilizado. Entretanto não foi difícil lembrar de piedade, mais precisamente de todas as vezes que ele não teve isso. Uma terceira pessoa, um expectador externo, ao ver essa cena, seria bastante rápido em condená-lo pelo que estava fazendo, mas onde estavam esses condenadores anônimos quando ele precisou de ajuda? Agora na vez dele é que era errado? Não, definitivamente não. O que estava fazendo era absolutamente direito, era o SEU direito. Esses pensamentos lhe deram forças, e uma determinação que ele não imaginava ter, e quando ele viu já havia terminado os preparativos: dois rapazes do grupo de Marcos estavam deitados sobre o braço do sofá, com as costas arqueadas para cima formando um sinistro U invertido.

Imediatamente Ricardo ergueu o taco de beisebol acima da cabeça e começou a bater. Apenas bater. Com fúria, com ódio. Cada pensamento, cada lembrança lhe dava mais força e determinação. O atrito da madeira com suas mãos queimava, mas isso só lhe dava mais prazer ao imaginar que muito pior estariam os que estavam na outra extremidade do taco. Lembrou também que aqueles cretinos tinham notas pavorosas, mas que estavam em vias de conseguir uma bolsa de estudos esportiva em uma faculdade local. “Bem, não mais” ele pensou, com um sorriso inspirado e divino. Continuou golpeando, batendo com a força que tinha até seus braços absolutamente cansarem. Decorridos cinco minutos (chutou num cálculo mental, talvez fosse bem menos), observou satisfeito (e cansado) que o osso da coluna dos dois fazia uma forma estranha e bizarra sob a pele. É, aquilo iria ser suficiente, era hora de seguir em frente ... O prato principal...

O prato principal, o prato principal... Onde estava Marcos?

Olhou ao redor e não viu ninguém parecido com ele na sala. Viu, contudo, o pequeno Jigglypuff cego que havia comprado na internet, ainda entretido, cantando sozinho. Evitou olhar por mais de um instante, aquela figura sem olhos o perturbava profundamente, e ele não precisava de outros pensamentos agora. Precisava era achar Marcos... Quando ele achou algo muito mais valioso.

Amanda estava caída e dormia no tapete de lá como um anjo. Bem, talvez anjos não fossem tão bonitos. O que importa realmente é que ela estava particularmente linda essa noite, em seu vestido azul de cetim, semi-transparente em algumas partes, numa combinação tão encantadora de fofura e gostosura que até mesmo um soldado de Terracota se apaixonaria se olhasse por tempo demais, mesmo com a notável desvantagem de estar morto. Claro, tinha aquela coisa da calça pra dentro das botas que as gostosas sempre usam (deve ser um código que eles ensinam no clube das pessoas bonitas, vai saber), mas, fora isso, estava perfeita.

Entretanto, Ricardo não foi tomado por nenhum sentimento de paixão ou sublimação artística. Foi tomado apenas por... ódio e raiva.

Veja, Marcos era um idiota, um monstro, um animal. Mas era apenas isso, era um animal que fazia o que fazia porque era o que precisava fazer para ter garotas como ela. Era apenas um animal que seguia seus instintos, não é como se ele tivesse muita escolha sobre isso. É um fato da vida que, para ter garotas desse nível, você tem que ser um monstro sem coração, e usar quem preciso for da forma que possível for. Mas Marcos era apenas um lacaio, um capanga. Amanda era diferente.

Ela... E mulheres como ela sabem exatamente que tipo de pessoas são os canalhas pra quem elas dão. Elas têm total ciência disso e, mais importante ainda: têm total controle sobre isso. Bastava uma palavra dela e Marcos, ou qualquer outro candidato a macho alfa, não precisaria ferrar com a vida de ninguém apenas para se mostrar digno. APENAS UMA PALAVRA. Ela podia ter feito isso a qualquer momento, ELA PODIA TER PARADO ISSO A HORA QUE QUISESSE. Ela podia. Bastava apenas uma ordem. Ela podia, mas não quis.

Seu orgulho como fêmea exigia do macho que desejasse ejacular em suas entranhas (ou em sua garganta, dependendo do quão macho fosse) provasse constantemente que era o dono do território. O tempo todo, sem demonstrar fraquezas, sem demonstrar piedade ou consideração por outro ser humano (que são um tipo de fraqueza, afinal). Era apenas esse o comportamento que ela e garotas como ela exigem do seu macho favorito.

Não fosse por ela, e pelos caprichos dela, Ricardo ainda teria uma vida...

Levou menos de um segundo para ir até a sacola e voltar carregando um pequeno pote de vidro. Se abaixou até ela, inclinava-se pra ela. Tocou de leve sua bochecha e fechou os olhos, como faziam nos filmes. Sentiu os lábios macios e quentes dela, mas de alguma forma não foi exatamente tudo que ele sempre sonhou, tudo que ele sempre achou que seria. Na verdade não foi lá muito mágico, foi meio sem graça até.

Então era isso? Era por causa disso que a sua vida foi destruída? É por causa dessa porcariazinha que cogitou por anos cada forma de suicídio, por mais dolorosa que fosse, como prêmio absoluto? Para que alguém sentisse essa porcariazinha? Ah, mas era a gota d’água. Era só o que faltava MESMO! Agora chega, não tinha ido longe demais, não tinha sequer é começado! FILHA DA PUTA! VADIA! MISERÁVEIS! CRETINOS! FILHOS DA PUTA DESGRAÇADOS DO INFERNO! Agora eles iam ver!

Inclinou a cabeça da garota para trás, como ensinado no procedimento de RCP, o que fez com que ela ficasse com a boca bem aberta. Abriu então o pote de vidro, e despejou o líquido meio esverdeado sobre o rosto dela. Um vapor branco e fedorento ergueu-se, e quando ele olhou novamente, a carne do rosto estava completamente deformada, de forma que o fogo ficaria com inveja por jamais ser capaz de conseguir um resultado tão bom. Empolgado com o resultado da deformação que criara, derramou o resto do frasco sobre o corpo dela (sobretudo os seios e a genitália), e entornou novamente o restinho do frasco sobre o rosto dela de modo que um filme B de terror não faria maquiagem pior.

Atirou o frasco de ácido, agora vazio, para trás, e preparou o golpe de misericórdia: parou com os dois pés ao lado da cabeça dela, puxou o cinto da fivela, o arrancou com um movimento brusco, e logo fez o mesmo com a calça. Nu da cintura para baixo, se agachou sobre a cabeça de Amanda e então cagou. Cagou com força. Cagou firme. Cagou forte. Cagou muito.

Satisfeito (quando o estoque de tacos que havia comido nos preparativos acabara), ergueu-se e quase teve medo de olhar o resultado. Conseguiu acertar uma boa parte dentro da boca, não tudo, mas o suficiente para transbordar e cobrir de merda todo o rosto, e os recém-abertos ferimentos. Uma obra de arte de dar orgulho, se querem saber...

Aliviado, tanto espiritual quanto fisiologicamente, ergueu-se, ainda limpou a bunda com o vestido da garota, vestiu as calças, e decidiu prosseguir. Olhou mais uma vez ao redor, e dessa vez não viu o Jigglypuff sobre a mesa. Onde a coisinha havia ido? Pensou em tirar os fones para descobrir se a criatura ainda cantava, mas logo se deu conta que essa seria uma idéia profundamente estúpida. Decidiu apenas se apressar. Não sabia exatamente quanto tempo o efeito da canção duraria se o bicho tivesse parado de cantar.

Após uma rápida geral pela casa, finalmente encontrou Marcos, mas dessa vez a coisa teria que ser jogo rápido, sem direito a beijinho ou jantar a luz de velas. É, sim, seu humor estava ótimo, melhor do que em qualquer outro momento que ele conseguia se lembrar, finalmente estava... em paz. Uma rápida viagem de ida e volta a sua sacola e ele já estava pronto.

Levantou o rapaz que tinha quase duas vezes o seu tamanho, e três vezes a sua massa apenas em músculos. Com um certo esforço tirou as calças dele, e o colocou de bruços no chão com a bunda empinada, de forma que a câmera sobre a lareira tivesse um bom ângulo. Com tranqüilidade, e um prazer quase sexual, pegou o vibrador de 30cm, e mergulhou na lata de piche, para só então enfiá-lo com força no reto do seu antigo colega. Oh boy, o que era aquela sensação? Quem disse que a melhor sensação do mundo é amar e ser correspondido é porque nunca teve a oportunidade de enfiar um vibrador embebido em piche no ânus da pessoa que você odiou por anos e anos... Sentir as pregas do cu se rompendo uma a uma, o sangue escorrendo, a dor que ele sentiria quando acordasse... Aquela definitivamente foi a melhor sensação da sua vida, sem sombra de dúvida. Podia dizer que se morresse agora estaria satisfeito. Enfiou o objeto até ele desaparecer completamente, o que não foi tarefa fácil, ainda que extremamente gratificante, e desejou boa sorte aos que tentassem tirar ele dali. Ok, mentira, não desejou boa sorte.

Mas seu trabalho ali estava concluído. Havia, claro, mais o que gostaria de fazer, mas algo lhe dizia que esse era um tipo de tempo do qual ele não dispunha no momento. O Jigglypuff estava sumido, e aquelas pessoas podiam acordar a qualquer momento agora. Acendeu o isqueiro do bolso, e colocou fogo na cortina da sala, pegou sua sacola, a câmera, e saiu apressadamente.

Enquanto caminhava pelo quintal em direção à calçada, conectou a câmera ao seu celular, para uploadear o vídeo para o Metacafe (o YouTube baniria rápido demais), mas isso era apenas uma preocupação mundana perto de como ele se sentia no momento...

Dizer que havia tirado um peso do seu peito era um clichê batido e pequeno perto do que realmente sentia. A comparação mais correta seria dizer que sentia como se respirasse pela primeira vez na vida. Ricardo não fazia mais esforço em conter as lágrimas, ou gritar mesmo a plenos pulmões. Sentiu-se tão humano, tão vivo, como se a vida começasse do zero agora. Sentia-se assolada por sensações genuínas, contraditórias, dispersas, mas muito fortes...

Sua vida finalmente poderia começar agora, finalmente ele teria uma chance de apenas ser normal, deixar o passado para trás e ser ... TOMBO.

Ricardo sentiu o gosto pétreo do asfalto em sua boca misturado com o férreo do sangue dançando entre seus dentes. Havia tropeçado em alguma coisa e caído de boca no asfalto, sentiu com a ponta da língua que havia soltado alguns dentes na queda. Ao abrir os olhos, e procurar no que havia tropeçado, teria se cagado de medo se já não tivesse resolvido essa questão fisiológica há poucos minutos antes. A poucos centímetros da sua cabeça estava uma visão tão perturbadora quanto demoníaca. A iluminação pública da rua conferia um tom muito mais arroxeado e doentio à criatura, e o vazio no lugar dos olhos... como se sugassem a sua própria alma, jamais havia visto algo tão aterrador e apavorante tão de perto. Tomado por um pavor e perturbações sobrenaturais, rolou para longe daquela visão dantesca e profana o mais rápido que pôde, como se a corrupção de todo o mundo que recaiu sobre aquela criatura originalmente fofa e adorável agora devorasse suas tripas com fúria e rancor. Aquilo era desumano demais... até para ele.

Se afastou da criatura como pôde, rastejando em direção à rua.

E, apavorado que estava, não viu o caminhão se aproximando.

Ricardo não morreu após tropeçar na criatura mutilada e ser atropelado por um caminhão.

Mas também jamais se recuperou. Ricardo passou o resto de seus dias mantido por aparelhos no hospital, nem vivo nem morto. Sua família não permitiu que ele tivesse esse privilégio, morrer parecia ser bom demais para ele. Ele passou os próximos 70 anos enlouquecendo entre pensamentos, preso dentro de um corpo que não respondia, a mais cruel de todas as prisões, e infindáveis pesadelos sobre um perturbador monstro púrpura sem olhos...