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domingo, 23 de maio de 2010

[CRÍTICA] Kick-Ass - Quebrando Tudo (2010)

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Obs.: Não poupei o texto de SPOILERS, portanto, recomendo que assista o filme antes de ler. Ou, melhor ainda, recomendo que leia HQ na qual ele foi baseado (facilmente encontrável pra baixar por aí, inclusive traduzida) antes de assistir o filme, e aí sim volte para ler o texto.

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Já que o Queza deu o pontapé inicial, eu meio que me senti na obrigação de falar do filme, já que elogiei tanto a HQ por aqui ano passado. Então falemos de Kick-Ass.

Assisti o filme hoje, e posso dizer que fiquei satisfeito com alguns pontos, e bastante decepcionado com outros.

Vou meter o pau um pouco antes de falar das qualidades.

Pra começar o Dave não é tão fodido como na HQ. Sim, ele continua sendo um banana, que cometeu a cagada de iniciar um movimento que se tornou maior do que ele. A essência do personagem continua a mesma, até ressaltaram um pouco mais o lado nerd do cara, investindo num visual um pouco mais estereotipado. O problema é o que acontece com ele a partir de determinado ponto da história.

Por exemplo, a primeira surra que ele leva, e as conseqüências dela, são mais brutais nos quadrinhos do que no filme. Tudo bem que tiveram que dar uma amenizada na violência. Mas senti falta da impressão que o Millar conseguiu passar ao leitor da HQ do quanto foi duro pro Dave ter que passar por tudo aquilo, isto fazendo uso de pouco texto e umas cenas-chave. Faltou uma noção melhor de quanto tempo o rapaz ficou se recuperando no hospital e em casa.

Outra, na HQ, depois de se ferrar várias vezes seguidas, quando parece que as coisas vão dar certo pro Dave, elas dão um jeito de ficar piores. Também faltou um pouco mais disto no filme. Acho que a questão toda se resume a uma frase: Ele fica com a garota no final, porra!

Tudo bem que pra vender a idéia pra algum estúdio de Hollywood eles tiveram que dar uma "enxugada" nas tramas paralelas da HQ, e usar de uma violência que não é tão explícita como a vista nos quadrinhos. Mas na obra original ele é finalmente coroado o herói mais fodido da história quando ele pensa que vai se dar bem com a garota, revelando que é o Kick-Ass e que não é gay, e acaba levando um fora tão devastador, que se ele tivesse levado uma enrabada de um negão bem dotado por 3 horas seguidas não teria doído tanto. Mas, eles tinham que dar final mais "feliz" pra alguém, porque vocês sabem como os executivos de Hollywood pensam quando discutem os possíveis lucros que vão arrecadar com seus filmes: "Não importa se a HUMANIDADE está extinta nesta altura da história, se o rapaz idiota ganhar um selinho da garota gostosa, todos vão gostar, e encher nossos bolsos com as bilheterias."

Mas, passemos adiante. Essa aí de cima dava até pra fingir que não aconteceu, até porque o Kick-Ass nem é o melhor personagem da HQ original, então não tinha porque ser diferente no filme. O erro mais imperdoável que cometeram nesta adaptação diz respeito ao Red Mist.

Cara, na HQ ele é um dos personagens mais interessantes de todos, porque apesar de ficar bem claro, praticamente desde o momento em que ele aparece uniformizado, que o sujeito é mesmo o filho do mafioso, o Millar teve a ótima sacada de não deixar claro qual era a dele naquele esquema. O leitor passa algumas edições imaginando se o garoto tinha virado super-herói justamente pra combater seu pai, que praticamente o desprezava, ou se tudo fazia parte de um plano pra ele ajudar o pai a se livrar dos heróis. E esse é um dos grandes méritos da história original.

Seria ótimo se tivessem segurado esta informação até o momento em que os dois se enfrentam no final. Mas não, eles entregam essa informação de bandeja NA METADE DO FILME! Aí não dá, né?

Daí pra frente eu comecei a assistir o filme meio descrente do que veria a seguir. O que foi até bom na verdade, porque é depois disto que entra algumas das melhores idéias da adaptação, epraticamente todas elas giram em torno de uma personagem: Hit-Girl.

Tá, eu sei que vou cair no lugar comum dizendo isto, e sei que quando o filme sair por aqui serei só mais um fazendo coro e dizendo que ela é a melhor personagem tanto da HQ quanto da adaptação. Mas não tem jeito, a Chloe Moretz É a Hit Girl, e isto é tudo que precisamos saber pra curtir todo o resto.

A cena da visão noturna estilo Doom; o tiroteio no escuro filmado através dos flashs dos disparos; ela encarando um bando de capangas armados num corredor estreito... Enfim, todas as melhores seqüências de ação do filme são dela, e com méritos! Porque se o Matthew Vaughn não tivesse aproveitado todo o potencial da personagem, que foi o maior trunfo do Millar na HQ, daí era pra largar mão de vez do filme e ir assistir outra coisa melhor.

Ah sim, e o Nicolas Cage ficou bacana como Big Daddy. Deram até uma origem mais trágica pro personagem, coisa que não existia na HQ. Eu até diria que isto foi desnecessário, e que não gosto dessa mania que Hollywood tem de tentar justificar as ações de um cara que só quer mesmo é matar todos os bandidos que puder e limpar sua cidade, MAS, como ela é contada num flashback em quadrinhos 3D feitos por John Romita Jr., um dos meus desenhistas preferidos, e o ilustrador da HQ de Kick-Ass, então deu pra perdoar. Bela sacada.

Quanto ao final um tanto apelativo, já comentado pelo Queza há dois posts atrás, sim, também achei a cena da mochila voadora injustificada. O Kick-Ass podia muito bem entrar pela porta da frente, seguindo a trilha de corpos deixados pela Hit-Girl. Aquela cena só serviu pra mostrar que ele é mais banana ainda (nem precisou sujar as mãos, depois que a garota deu conta do serviço pesado). A luta dele contra o Red Mist parece briga de menininha. Mas pelo menos ele consegue, em parte, se redimir no final, matando o mafioso com uma bazuca (quem não gostaria de fazer isto com alguém que odeia algum dia?).

Mas, o saldo final foi positivo. Como adaptação ele funciona bem, mas poderia ter ficado ainda melhor se tivessem preservado outras boas idéias da HQ. Como filme de super-heróis independente de sua fonte original ele funciona melhor. Usa de uma linguagem que tem grandes chances de atrair adolescentes, pós-adolescentes, e adultos que ainda não estão com vontade de amadurecer (o que normalmente é sinal de boas bilheterias (vide a série Crepúsculo)). É um filme divertido, muito bem dirigido, e que só fez aumentar os lamentos de muitos que não viram um X-Men 3 dirigido por Matthew Vaughn (pra quem não lembra, na época ele estava praticamente confirmado como diretor). Vamos ver se ele consegue manter o nível com a segunda chance que ganhou da Fox de dirigir um filme dos mutantes.

E continua o sonho de ver uma HQ do Millar melhor adaptada...

domingo, 19 de julho de 2009

[REVIEWS] Kick-Ass e Ultimate Wolverine vs Hulk

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Kick-Ass


Tá, vamos falar de Kick Ass, uma das HQs mais quentes do momento!

Sim, este sou eu falando de outro trabalho do Mark Millar! Sim, eu sei que estou soando um tanto repetitivo agora com mais um post onde falo de mais uma criação do autor! Mas, sinceramente, eu não me importo de que pareça que estou sem idéias, porque acredito que é sempre louvável falar a respeito de bons trabalhos de outras pessoas, e recomendá-los pra quem aprecia o tipo de arte que produzem.

Acho que antes de falar qualquer coisa sobre Kick-Ass, preciso deixar bem claro que não se trata de uma obra-prima dos quadrinhos, o que não a impede de tornar-se um dos trabalhos mais divertidos e empolgantes dos últimos anos, duas características que, felizmente, já se tornaram uma marca registrada da maioria das HQs escritas por Mark Millar.

A premissa é até muito simples. Dave, um garoto vivendo num mundo muito parecido com o nosso, fã de quadrinhos de super-heróis, não se conforma com o fato de até hoje não ter aparecido uma pessoa em todo o planeta que se engajasse na tarefa de se tornar um super-herói, justamente por existir tantas que admiram histórias protagonizadas por homens e mulheres que um dia decidiram vestir uniformes espalhafatosos e lutar pra fazer do mundo um lugar um pouco melhor, o que acaba rendendo a primeira das muitas frases que se tornam antológicas na HQ: "Por que tem tanta gente querendo ser a Paris Hilton, e ninguém querendo ser o Homem-Aranha?"

O inconformismo do rapaz acaba se tornando uma obsessão, quando ele chega à conclusão de que não há nenhuma profissão, nenhuma carreira a ser seguida neste mundo que irá proporcionar a mesma realização que teria se fosse um super-herói. Daí pro dia que resolve comprar pela internet uma roupa de mergulho que ele dá um jeito de transformar em seu traje é um pulo.

A forma realista com que Millar trabalha o conceito é exemplar, sempre reforçando a idéia de que tudo o que vemos através do traço de John Romita Jr., mais competente que nunca em sua segunda parceira com o escritor escocês, poderia perfeitamente acontecer no nosso mundo. Isto rende outra das melhores cenas da série até aqui, vista no final da segunda edição, quando Dave, sob sua identidade super-heróica, é visto atuando pela primeira vez em público, e tem sua luta com bandidos registrada pela câmera do celular de um dos espectadores, que não perde tempo em jogá-la no YouTube, começando, com isto, a ascenção meteórica da carreira de Dave como o precursor do surgimento de super-heróis no seu mundo, e dando a ele seu codinome, que por sua vez é o título da série.

A cada novo trabalho Mark Millar se firma um pouco mais como um dos escritores de quadrinhos mais criativos da atualidade. Seus trabalhos proporcionam ao leitor uma satisfação a cada dia mais difícil de se obter lendo séries regulares de super-heróis.

Achei particularmente genial a forma como o autor trata o surgimento de pessoas que vestem uniformes coloridos pra combater o crime inicialmente como uma "moda" que pega, pra mais tarde se tornar um estilo de vida totalmente novo, que acaba ganhando entre seus admirados um status comparável ao dos astros do rock. Difícil não pensar que, se algo assim acontecesse no nosso mundo, seria justamente dessa maneira que nós, pessoas "normais", lidaríamos com isto.

Mas os melhores momentos da HQ ficam mesmo pra quando Millar volta a se focar na vida de Dave, o protagonista que acaba se vendo no meio de uma revolução cultural pra qual deu início sem o menor controle. Suas reações ao alastramento de super-heróis, a forma como lida com sua identidade secreta diante do pai viúvo, e especialmente a maneira que encontra de falar sobre isto com a garota por quem é apaixonado, e pra quem finge ser gay, só pra ficar perto dela... É Millar se divertindo e ao mesmo tempo ousando cada vez mais.

Dave soa como um Peter Parker sem superpoderes, menos moralista, e mais egoísta. Sua vida, em dado momento, vira um caos de problemas dignos das melhores histórias do Homem-Aranha, e é delicioso ler seus comentários e reflexões a respeito de quão fodida sua existência se torna a cada dia.

Kick-Ass já está em sua 6ª edição nos Estados Unidos, e felizmente ainda não há uma previsão para o seu fim. A cada nova história ela consegue se sustentar não somente como uma extrapolação muito criativa a respeito da influência das histórias de super-heróis sobre a vida de seus admiradores, mas também sobre a maneira como os jovens de hoje assimilam, e muitas vezes abraçam, a violência como uma forma de expressar suas aspirações a uma vida menos conformista diante de um mundo tão cheio de regras, carreiras, e problemas que precisam passar por tanta burocracia e convenções sociais pra se resolverem.

É a rebeldia juvenil elevada a um nível somente permitido dentro dos limites de uma arte dinâmica como os quadrinhos. É a fome de viver no limite em um mundo que a cada dia que passa soa mais monótono e apático a tudo. Um mundo que talvez precise justamente de um visionário como Dave, vestindo uma roupa de mergulho, empunhando seus cacetetes, e mostrando pra todos que não quer seguir a porra das expectativas que a sociedade deposita nele. Também precisamos de um Kick-Ass!




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Ultimate Wolverine vs. Hulk


Damon Lindelof, uma das mentes criativas por trás da série Lost, devia seriamente considerar uma carreira paralela como escritor de quadrinhos. Neste seu primeiro trabalho fora da TV ele se mostra tão a vontade com o formato que não dá pra evitar a vontade de ver do que mais ele é capaz explorando outros personagens.

Graças ao seu papel-chave na condução da intrincada trama de Lost, Damon entregou o roteiro dos dois primeiros números dessa mini-série em seis edições há mais de três anos atrás. Somente em julho de 2008 ele arrumou um tempo em sua agenda pra retomar a história do ponto onde a havia largado. Felizmente toda a espera e espectativa em torno dela valeu a pena.

Ultimate Wolverine vs Hulk é a versão reformulada e contemporânea do primeiro quebra-pau entre dois dos super-heróis mais barra-pesada da Marvel. Como o próprio título indica, ela se passa no Ultiverso, uma versão alternativa do universo da Casa das Idéias onde heróis como os X-Men, Homem-Aranha e Vingadores ganharam uma repaginada em suas origens.

Lindelof já começa a história com uma splash-page pra deixar qualquer leitor ávido pra saber como o baixinho peludo vai se safar da enrascada em que se meteu. Esta eu faço questão de mostrar aqui, só pra deixar quem ainda não leu mais curioso ainda:



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RAAAAAAH!! Vamos ver se o seu fator de cura dá conta disto!


Mas, Lindelof não se permite apenas esta ousadia. Há também uma ótima sacada envolvendo a identidade da Mulher-Hulk, que ganha sua versão Ultimate na mini-série, do tipo que leitores de longa data vão adorar, e cuja implicação culmina na ótima frase: "Eu ainda não estou certo se aquilo era uma luta ou uma foda."

E tem mais! Ao contrário do que pode parecer, a mini não mostra uma longa troca de socos e chutes estrondosos, e garras de adamantium fazendo correr muito sangue verde, embora também mostre um bocado disto. Lindelof sabe o que a maioria dos leitores esperam de uma história envolvendo uma dupla de personagens que já têm um longo histórico de desentendimentos em seu passado no universo tradicional da Marvel, e por isto mesmo tenta fugir da maioria das convenções. E é aí que entra outro dos melhores elementos de sua história: os diálogos entre Logan e o Gigante Esmeralda. É uma troca de sopapos verbais que chega ao ponto de ser mais empolgante e divertida de se ver do que as páginas onde eles saem na mão.

E, como se tudo isto já não bastasse, Lindelof ainda brinca com uma das marcas registradas de seu trabalho em Lost: os flashbacks. É um vai e vem do passado para o presente, e deste para o futuro, que o tempo nas mãos do escritor parece um ioiô. Cenas são revisitadas e mostradas de novas perspectivas diversas vezes, ganhando um significado maior dentro da trama principal. Tudo muito bem conduzido de maneira que o leitor não chega a ficar totalmente perdido, e mesmo quando isto acontece mais adiante se mostra intencional, porque faz parte do show de Lindelof na condução da narrativa.

E, claro, não podia deixar de tecer alguns comentários sobre o lance mais polêmico da história: o tratamento dado ao fator de cura de Wolverine. Pela cena aí de cima vocês já podem ter uma idéia de algumas das extrapolações que ele se permitiu. Eu mesmo, quando a vi, fiquei pensando que já estavam indo longe demais com esse papo de que o baixinho pode se safar de qualquer tipo de ferimento. Mas, Damon também sabe disto, e muito provavelmente sabe dos absurdos que andam fazendo com o Sr. Logan de uns tempos pra cá, como pode ser comprovado na cena abaixo, retirada de Wolverine v3#48:



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Músculos e órgãos brotando de um esqueleto de adamantium?! WTF?!!


Pois bem. Muita gente chiou com a forma como ele interpreta o poder mutante de Wolverine na mini-série. Num primeiro momento realmente soa forçado demais. Porém, na minha opinião, Lindelof soube lidar com isto muito bem quando optou por não se levar tão a sério. Ele sabia que estava escrevendo uma história em quadrinhos de super-heróis onde extrapolações ocorrem praticamente a cada página virada, e sabia quão absurda soaria a "cena da cabeça", e felizmente soube tirar desta, e de outras tantas, algumas das melhores sacadas da mini-série, fazendo os próprios personagens tirarem sarro da situação absurda em que se encontravam, como num dos meus diálogos preferidos:

- Pode coçar pra mim o meu nariz?
- Por quê? Pra você comer meu dedo?
- Pelo menos você o pegaria de volta assim que eu o engolisse! *sorrisinho sarcástico*



Já o desenhista Leinil Francis Yu, apesar de suas limitações na hora de desenhar expressões faciais, se saiu muito bem ao longo de toda a mini-série, mantendo um trabalho competente e eficiente, imprimindo o ritmo certo tanto nas cenas de ação, quanto nos diálogos rápidos e certeiros que percorrem todas as seis edições.

Enfim, um embate muito bem escrito que superou todas as minhas espectativas. Vale a leitura, com certeza!