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domingo, 20 de setembro de 2009

[CONTO] Comunhão

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Na natureza vivemos. Na floresta.

No riacho entre folhas secas dispo-me totalmente. Sento-me contra a correnteza calma e sem pressa. Sinto-me intimamente acariciado por suas águas sensuais e sexualmente excitadas em minhas genitálias. Não há comunhão mais prazerosa que esta com a natureza .

Inclino-me para trás, observando meu sexo, meu abdômen, deixando que inundem-se por aquele gesto amoroso. Volto meus olhos para as copas altas das árvores que nos cercam. Elas também parecem excitadas, trêmulas e vibrantes de excitação e amor.

Vejo-a chegando em silêncio, contemplativa, baixa, vestido claro, solto, leve em seu corpo apetitoso. Caminha até mim e observa-me naquela cena que a outros olhos soaria inusitada. A ela soa como um convite.

Não há troca de palavras, apenas gestos, passos de uma dança compassada. Um erguer lento e provocante de tecido macio correndo sobre a carne de seu abdômen, costelas, seios, todos tão alvos e envoltos naquela luz mágica de nosso amor.

Despe-se toda e monta-me, tocando delicada meu sexo, levando-o de encontro ao dela, e assim eu, ela, e tudo ao redor nos amamos, sem pudores, sem preconceitos. Sem ciúmes, racionalizações e transcendências. Apenas homem, mulher, e o amor que os envolve e penetra seus corpos e almas numa comunhão perfeita. "Agrada-me tal cena", diria Deus diante de nós.

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Este conto foi inspirado no filme Anticristo, de Lars Von Trier, cuja crítica você pode conferir aqui.

[CRÍTICA] Anticristo (2009)

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Sexo. Loucura. Luto. Tristeza. Razão. Emoção. Terror. Violência. Solidão. Medo.

Estas são algumas palavras que me ocorrem num primeiro momento ao pensar em Anticristo, o novo filme de Lars Von Trier, estrelado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg.

Confesso que li umas três críticas a respeito dele antes de assisti-lo, o que contribuiu para diminuir o impacto que ele teria sobre mim caso permanecesse como um telespectador desavisado. Mas, ainda assim, era um filme que estava ansioso pra conferir, por tratar-se de uma produção artística cuja principal intenção é provocar e, até certo ponto, chocar quem assiste, algo que aprecio muito em qualquer filme.

Anticristo, pra quem ainda não sabe (o que é meio difícil, dada a cobertura que o filme recebeu da imprensa), conta a história de um casal que enfrenta a dor da perda de seu filho, cuja morte ocorreu sob circunstâncias um tanto "inusitadas".

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A seqüência que abre o filme, quase unanimemente considera uma pequena obra-prima de Lars Von Trier, pela forma poética em que foi filmada, dá conta de apresentar a tragédia do casal, e o tom da história, e do que virá pela frente. Traz algumas das imagens mais belas que já assisti num filme, mesmo exibindo cenas tão sexualmente explícitas, o diretor conseguiu torná-las mais eróticas do que pornográficas. E assistir aquilo tudo embalado por Lascia ch’io Pianga, de Händel, é de causar arrepios!

Dali pra frente acompanhamos todo o intenso tratamento ao qual o marido, um psicólogo, submete a mulher, forçando-a a encarar de frente seus próprios medos sem a ajuda de remédios calmantes e anti-depressivos. Logo ele descobre que uma das maiores fontes de medo da esposa é uma cabana no meio de uma floresta apelidada de Éden, e parte com ela pro lugar, onde a fase mais dramática do tratamento terá início.

Anticristo é um filme cheio de simbolismos, dos mais sutis, como na cena em que ela deita-se na grama numa posição bastante sugestiva, embora não totalmente escancarada, aos mais explícitos, como na grafia usada para escrever o título, ou ainda a automutilação punitiva como forma da personagem eliminar sua "culpa".

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Também é um filme de cenas fortes e afirmações polêmicas ("A Natureza é a Igreja de Satã", "O Caos Reina", entre outras). Cenas de sexo e violência explícitos causam grande desconforto em quem o assiste, o que foi um dos motivos de muita gente não conseguir chegar ao final nas exibições de cinema.

É também uma história que estabelece contrastes ousados entre conceitos superficialmente contraditórios. Por exemplo, nascimento e morte são intimamente relacionados, através de imagens como o filhote natimorto de cervo dependurado na vagina da mãe, a raposa morta afirmando que "o caos reina", o filhote de corvo morto a pedradas, o filhote de pássaro sendo devorado vivo por formigas, e depois por um falcão.

A própria cena de abertura funciona com um conflito de conceitos como sexo, prazer e morte. Perda da inocência.

O prazer, aliás, é um dos temas mais recorrentes de Anticristo. É especialmente tratado como a forma que ela encontra de sentir-se viva, ou de esquecer a culpa, o remorso e a dor da perda.

Muitos consideraram a visão negativa e demonizada que o filme apresenta das mulheres como uma tese de idéias defendidas por Von Trier, mas eu a vejo mais como uma forma de ilustrar quão perturbada a esposa se deixou ficar por seus objetos de estudo (ela estudava a história dos atos de barbárie cometidos contra as mulheres na história da humanidade), permitindo que influenciassem na forma como opta por lidar com suas carências afetivas.

Sua visão perturbadora e atemorizante da natureza é a maneira que encontra de transferir sua culpa pessoal para algo que enxerga erroneamente como externo, e maior o suficiente pra sentir-se vítima de tal força (o "Satã/Natureza", que num primeiro momento ela tanto teme).

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Além de trazer diversas seqüências plasticamente belas (ela caminhando pela floresta em hiper slow-motion, ele sob a chuva de sementes de carvalho) e perturbadoras (a automutilação genital, as mortes cruas dos animais), Anticristo ainda possui uma narrativa inteligente que, na medida certa, e sem aviso, oferece novas peças do passado dos personagens, aumentando um pouco mais nossa compreensão das motivações mais profundas responsáveis por compor a situação em que se encontram no presente.

É um filme difícil de digerir, mais voltado para a emoção do que para a razão, que em nenhum momento oferece respostas mastigadas ao espectador.

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Eu o definiria como um filme sobre a confusão e o caos que impera na mente de uma pessoa incapaz de lidar com suas carências emocionais e afetivas, e seus sentimentos conflitivos. Mas ainda assim isto não diz o suficiente a seu respeito.

Para aqueles dispostos a compreendê-lo por completo, é um filme a ser revisitado diversas vezes. Von Trier novamente conseguiu causar incômodo e levar seu público a reflexões sobre a natureza humana, esta sim a principal fonte do terror que impera em seu Anticristo.