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sábado, 21 de maio de 2011

[CRÍTICAS] Possuídos :: O Padrasto :: O Segredo do Lago

Possuídos (Bug, EUA e Alemanha)

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Diretor: William Friedkin
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Ashley Judd (Agnes White), Michael Shannon (Peter Evans), Harry Connick Jr. (Jerry Goss), Lynn Collins (R.C.) , Brian F. O'Byrne (Dr. Sweet)
Ano de lançamento: 2006
Duração: 102 min.

Sinopse: Após escapar de Goss, seu ex-marido abusivo, recentemente solto da prisão, Agnes, uma solitária garçonete com um passado trágico, muda-se para um motel barato de beira de estrada. Um dia R.C., sua colega de trabalho lésbica, apresenta-lhe Peter, um sujeito peculiar e um tanto paranóico, com quem Agnes começa a ter um romance. Porém, as coisas não são como parecem, e Agnes está prestes a experimentar um pesadelo claustrofóbico quando insetos começam a surgir...

Crítica:

Possuídos é daquele tipo de suspense que sustenta-se mais pelas sensações que desperta, do que pelas grandes revelações que reserva ao espectador.

É interessante acompanhar a progressão da história, a começar pela forma gradativa com que é construída. Desde o plano aéreo inicial, em que a câmera se aproxima lentamente do motel em que Agnes vive, rodeado por um deserto que mais tarde mostra-se um reflexo do quadro emocional da personagem; até a longa seqüência de abertura, na qual é perturbada diversas vezes por telefonemas em que a pessoa do outro lado da linha não diz nada. William Friedkin, em poucos minutos, estabelece a atmosfera e apresenta o cenário onde grande parte da história se desenrolará.

Confesso que este é o primeiro filme que assisto com Ashley Judd, mas já fiquei impressionado com o seu talento. Sua interpretação é convincente e cheia de nuances. O desleixo de Agnes nas primeiras cenas gera certa antipatia, mas graças à competência da atriz, e ao ótimo roteiro, logo entendemos os motivos que a levaram a adotar aquela postura, e não demora para que nos simpatizemos com ela, e enxerguemos a beleza que se esconde por trás daquela amargura e baixa auto-estima que vemos no início (claro que ajuda o fato da atriz ser bonita, mesmo com as gordurinhas a mais que a personagem exigia, além de ter um sorriso lindo). Toda insegurança e carência afetiva de Agnes, que não hesita em satisfazê-la com pessoas que lhe dão um pouco mais de atenção, como sua amiga R.C. (Lynn Collins), são bem retratadas por Ashley Judd, assim como a instabilidade de seu humor, que ao primeiro sinal de que está sendo magoada não hesita em deixar sua raiva explodir na cara de quem a fez sofrer.

Mas Possuídos não seria um filme tão magnético sem a outra metade de sua força motriz: Michael Shannon. Seu personagem entra timidamente na história, mas aos poucos toma conta dela e a domina com a mesma eficácia com que estabelecesse um vínculo afetivo-paranóico-obsessivo com Agnes. Shannon é hipnótico em cena, com seus maneirismos, seu olhar perturbador e suas neuroses, tornando Peter imprevisível. É especialmente graças a ele que o filme é tão eficiente na construção de seu suspense.

Paranóia é o que comanda todo o longa e o define. O importante não é entender a origem do que acomete o casal, mas tornar seu público tão obcecado pela verdade quanto Agnes e Peter, a ponto de arrastá-lo pela mesma viagem alucinante a que são submetidos, regada a conspirações governamentais e insetos que só eles enxergam, e cuja presença só eles sentem.

William Fredkin pega o espectador pela mão e o leva até o final sem tropeços, tornando-o a cada passo mais envolvido pela situação kafkaniana de seus protagonistas, e o mantém prisioneiro do quarto de motel de onde Peter e Agnes poucas vezes saem. O desejo do diretor de tornar seu público íntimo de seus personagens evidencia-se especialmente na cena de sexo do casal, em que lampejos da nudez dos atores criam um erotismo minimalista muito eficiente nas sensações que desperta. E aqui cabe elogiar a excelente montagem, que dá ao longa um ritmo compassado e quase hipnótico, que aumenta o interesse do espectador pelo desenrolar dos fatos.

Preservando a natureza incômoda dos eventos, e a incerteza quanto à origem deles, o roteiro é hábil ao oferecer algumas possíveis explicações através da lógica distorcida de seus protagonistas, sem confirmá-las totalmente. Ao encerrar a narrativa sem abrir mão de contar a história apenas do ponto de vista do casal, William Friedkin respeita a lógica interna do longa, concluindo-o no exato momento em que Agnes e Peter chegam a uma resolução para seus conflitos. Para o casal, qualquer explicação que não partisse deles seria insatisfatória e não confiável, tamanho o estado de paranóia em que se encontram no ato final (o visual "alienígena" que o quarto do motel adquire é um indicativo de quão distanciados da realidade exterior eles estão). Uma conclusão corajosa para um suspense imprevisível.

Nota: 4 de 5


O Padrasto (The Stepfather, Reino Unido e EUA)

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Diretor: Joseph Ruben
Roteiro: Carolyn Lefcourt, Brian Garfield e Donald E. Westlake
Elenco: Terry O'Quinn (Jerry Blake), Jill Schoelen (Stephanie), Shelley Heck (Susan), Charles Lanyer (Dr. Bondurant), Stephen Shellen (Jim Ogilvie)
Ano de lançamento: 1987
Duração: 89 min.

Sinopse: Um homem obcecado por valores familiares chamado Jerry Blake casa-se com mães viúvas e divorciadas. Sempre que sua nova família desvia-se dos padrões que ele julga os mais corretos, Jerry mata mãe e filhos, altera sua aparência, assume uma nova identidade, e muda-se para uma nova cidade, onde recomeça seu ritual. Agora é a vez de Susan, e sua filha adolescente Stephanie, mas a garota logo mostra que não será um alvo fácil.

Crítica:

Com uma boa premissa, e um personagem cuja verdadeira natureza é exposta logo na seqüência de abertura, O Padrasto começa promissor, mas infelizmente mostrasse irregular na execução.

Terry O'Quinn é bem sucedido na composição de Jerry Blake, que de início choca, para logo adiante despertar curiosidade ao surgir como um marido carinhoso e um padrasto atencioso. Seus monólogos no porão da casa são bem trabalhados, oferecendo pistas sobre a origem de sua psicopatia, sem entrar em detalhes.

A história ainda conta com outra personagem interessante, a adolescente Stephanie, vivida por Jill Schoelen, que foge dos padrões da época, brigando com socos e pontapés com uma colega de escola que a ofende (no lugar dos clássicos puxões de cabelo); tomando a iniciativa e flertando sem inibições com um garoto; e conduzindo sua própria investigação para descobrir o segredo de Jerry.

Mas, exceto por Charles Lanyer, que torna seu Dr. Bondurant um personagem simpático, o restante do elenco é regular. Susan (Shelley Heck) é insossa e insuportavelmente submissa, e Jim (Stephen Shellen) tem a subtrama mais inútil e tediosa do longa.

O roteiro ousa ao incluir insinuações de que o Dr. Bondurant tem interesses mais platônicos do que profissionais por Stephanie, além de duas cenas rápidas em que a garota aparece nua durante o banho (apesar de Jill Schoelen ter 24 anos na época, vale lembrar que sua personagem tem 16 anos no filme). Na mesma seqüência Joseph Ruben faz uma "meia-homenagem" ao clássico Psicose, levando o espectador a acreditar que verá uma nova reprodução da cena icônica do filme de Hitchcock, apenas para ir contra as expectativas criadas, um detalhe que particularmente me agradou por fugir do óbvio. Infelizmente o filme surpreende apenas nesta cena, pois em nenhum outro momento a história consegue manter o espectador incerto sobre o que virá a seguir.

Previsível e formulaico do início ao fim, O Padrasto vale mais pela curiosidade de assistir Terry O'Quinn, o John Locke da série Lost, interpretando um personagem bem diferente daquele que viveu em seu trabalho mais conhecido.

Nota: 3 de 5


O Silêncio do Lago (Vanishing, Holanda e França)

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Diretor: George Sluizer
Roteiro: Tim Krabbé e George Sluizer
Elenco: Bernard-Pierre Donnadieu (Raymond Lemorne), Gene Bervoets (Rex Hofman), Johanna ter Steege (Saskia Wagter), Gwen Heckhaus (Lieneke)
Ano de lançamento: 1988
Duração: 107 min.

Sinopse: Rex e Saskia, um jovem casal apaixonado, sai de férias. Numa parada em um posto de gasolina Saskia desaparece. Rex passa os próximos três anos tentando encontrá-la, até o dia em que começa a receber cartões postais de alguém que promete revelar o que aconteceu com Saskia.

Crítica:

O que mais chama a atenção em O Silêncio do Lago é sua estrutura narrativa. A história vai e volta no tempo sem rodeios, algumas vezes surpreendendo o espectador ao revelar que determinada cena se passa antes da que acabamos de assistir. Aí reside grande parte da inventividade do longa.

Rex e Saskia surgem como um casal comum, que em questão de minutos se diverte num jogo de adivinhações enquanto viajam, para logo em seguida mergulhar num clima desconfortável quando a gasolina do carro acaba dentro de um túnel escuro, e o rapaz deixa a moça sozinha enquanto parte atrás de combustível. É uma cena importante pela maneira como tal fato afetará Rex mais adiante na história, e por introduzir um elemento simbólico que voltará em diversos momentos do filme: o sonho enigmático de Saskia. Mais sobre ele logo abaixo.

Após fazerem as pazes num posto de gasolina, é a vez de Saskia deixar Rex sozinho para comprar alguns suprimentos para o resto da viagem. Quando o rapaz acha que ela está demorando demais, é inevitável que pensemos que trata-se de uma vingança da garota pelo que seu namorado fez com ela mais cedo. Porém, quando Rex começa a reunir informações sobre os últimos passos de Saskia, os fatos apontam para algo mais aterrador. E esta é apenas a introdução da história.

A grande sacada do roteiro é levar o espectador a acreditar que a trama será totalmente focada nos esforços de Rex para encontrar Saskia, apenas para mudar seu foco para a história de Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu), o sujeito que a seqüestrou. A partir daí o filme reconstrói toda a cadeia de acontecimentos que o levaram a cometer o crime, e passa a revelar as motivações do personagem, que se torna o grande protagonista do longa.

Raymond guarda semelhanças com o personagem principal do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski, encarando o crime como um meio de pôr em prova sua filosofia de vida, mas, ao contrário de Raskólnikov, não permite que a culpa o atormente a ponto de voltar seu plano contra si mesmo, além de ter uma vida social saudável, e uma família que o respeita por ser um pai e um marido exemplar. Bernard-Pierre Donnadieu trabalha com precisão ambos os lados de Raymond, cujo plano é exaustivamente ensaiado, e revelado em detalhes, enquanto procura manter as aparências ao lado da esposa e filhas. É graças ao ator que o filme funciona como um intrigante estudo de personagem, ao mesmo tempo que oferece um suspense envolvente.

Voltando ao sonho de Saskia, a dupla de ovos dourados flutuando num espaço negro ganha várias rimas visuais em diversos pontos da narrativa, como nas cenas noturnas protagonizadas por Rex, onde o brilho amarelado dos faróis de carros remetem diretamente ao túnel escuro onde Saskia se lembra do sonho no início do filme. Uma forma sutil encontrada pelo diretor para ilustrar a culpa que ainda atormenta Rex, além de servir como pistas sobre o destino da garota e a conclusão da história.

Por detalhes como o descrito acima, e a forma como o roteiro trabalha a interação de Rex com Raymond, sem apelar para lugares comuns, aumentando exponencialmente o interesse e a curiosidade do espectador pelo desenrolar dos fatos, O Segredo do Lago é uma aula sobre como fazer um suspense de qualidade sem histrionismo e reviravoltas absurdas.

Nota: 4,5 de 5

sexta-feira, 20 de maio de 2011

[CRÍTICAS] Trilogia Samurai

Samurai - O Guerreiro Dominante (Miyamoto Musashi, Japão)

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Diretor: Hiroshi Inagaki
Roteiro: Hideji Hôjô, Hiroshi Inagaki e Takuhei Wakao
Elenco: Toshirô Mifune (Miyamoto Musashi / Takezo), Rentarô Mikuni (Matahachi Honiden), Kuroemon Onoe (Monge Takuan), Kaoru Yashigusa (Otsu), Mariko Okada (Akemi), Mitsuko Mito (Oko, mãe de Akemi),Eiko Miyoshi (Osugi, mãe de Matahachi), Akihiko Hirata (Seijuro Yoshioka), Kusuo Abe (Temma Tsujikaze), Eitarô Ozawa (Terumasa Ikeda), Akira Tani (Kawarano-Gonroku)
Ano de lançamento: 1954
Duração: 93 min.
Sinopse: Ao lado do amigo Matahachi, o jovem órfão Takezo deixa seu vilarejo para se juntar ao exército e enfrentar uma batalha. Vendo-se perdedores, os dois procuram abrigo numa casa isolada onde vive a viúva Oko e sua filha Akemi. Oko acaba seduzindo Matahachi, que cai na tentação da mulher e se esquece de seu noivado com Otsu. Logo Oko, Matahachi e Akemi partem para viver em outro local, enquanto Takezo resolve voltar ao seu vilarejo. Lá ele narra os acontecimentos à família de Matahachi, que além de não aceitar os fatos ainda condena o jovem Takezo por traição. Ele será salvo da morte por um monge que irá ensinar ao rapaz o código dos samurais. O destino acaba colocando Otsu e Takezo no mesmo caminho. Apaixonada, ela promete a ele que irá esperar seu retorno como um cavaleiro errante.

Crítica:

Primeiro filme da trilogia dirigida por Hiroshi Inagaki, que adapta o livro "Musashi", de Eiji Yoshikawa, consegue ser bem fiel à obra original, apresentando várias cenas diretamente retiradas de suas páginas.

Para aqueles que leram o livro, o que de cara chama a atenção é a idade dos atores escolhidos para interpretar Takezo e Matahachi. No livro ambos começam a história com 17 anos, enquanto no filme a dupla é vivida por Toshirô Mifune e Rentarô Mikuni, respectivamente, ambos na casa dos 30. Felizmente eles conseguem conferir jovialidade aos personagens, especialmente Mifune.

O filme foi feito para agradar tanto o público masculino como o feminino, o que fica bem claro pelo quanto a história investe no interesse romântico de Otsu (Kaoru Yashigusa) por Takezo, algo que vez ou outra pesa um pouco no ritmo da história e em seu tom, que torna-se excessivamente melodramático em vários momentos, algo típico de filmes românticos da década de 1950.

Por esta primeira parte focar-se mais na fase arredia e arisca de Takezo, antes de tornar-se efetivamente Miyamoto Musashi, as batalhas de que ele participa parecem todas improvisadas e um tanto desajeitadas, o que acaba combinando com a natureza selvagem do personagem, muito bem representada por Toshirô Mifune.

O roteiro e a direção pecam em dois momentos como adaptação: na cena de abertura, e na passagem responsável por mostrar a mudança moral e psicológica de Takezo.

A cena de abertura do livro, na qual Takezo desperta após a batalha de Sekigahara em meio aos cadáveres do exército derrotado, é uma das seqüências iniciais mais poderosas já concebidas para um livro, e irresistível demais para não ser usada numa adaptação cinematográfica. Ela é forte o bastante para atrair a atenção do espectador logo em seus primeiros minutos. Infelizmente o roteiro co-escrito pelo diretor Hiroshi Inagaki opta por começar a história antes da batalha, mostrando o período em que Takezo e Matahachi viviam juntos na vila Miyamoto, algo que poderia perfeitamente surgir em flashbacks mais adiante na história.

Já o segundo erro da adaptação se encontra no ato final da história, logo após Takezo ser aprisionado no Castelo Himeji. No livro ele passa 3 anos trancado naquela sala cheia de livros estudando-os com afinco, o que acaba modificando sua maneira de enxergar o mundo e seu comportamento, além de aperfeiçoá-lo moralmente, e eliminar grande parte de sua selvageria e impulsividade, tornando-o mais humilde e civilizado. No filme tudo isto é resumido num breve letreiro que mal explica a transformação pela qual passou, e corta logo para uma cena que se passa anos depois, onde ele já assumiu uma nova postura e ganhou o nome pelo qual ficou mais conhecido. Isto poderia ser facilmente resolvido com um clip de alguns minutos, pois trata-se de um ponto importante demais para o desenvolvimento do personagem para ser coberto com um mero texto explicativo.

Apesar das falhas, o filme é feliz ao encenar passagens memoráveis da obra de Yoshikawa, como a captura de Takezo pelo Monge Takuan, e os ensinamentos que este lhe transmite enquanto fica preso na árvore da Vila Miyamoto, ambas muitos fiéis à história original. Além disto o Matahachi de Rentarô Mikuni é tão (ou mais) covarde que o visto no livro. Só senti falta de uma participação maior de Osugi (Eiko Miyoshi) na história, o que traria um pouco mais de humor ao filme, com sua rabugice e determinação cômica características.

Em suma, é uma boa adaptação, mas que poderia ficar melhor através de pequenas mudanças na montagem, e o acréscimo de algumas cenas essenciais para que a filme ganhasse mais solidez.

Nota: 4 de 5


Samurai II - Duelo no Templo Ichijoji (Zoku Miyamoto Musashi: Ichijôji no kettô, Japão)

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Diretor: Hiroshi Inagaki
Roteiro: Hideji Hôjô, Hiroshi Inagaki e Takuhei Wakao
Elenco: Toshirô Mifune (Miyamoto Musashi / Takezo), Koji Tsuruta (Sasaki Kojiro), Kaoru Yashigusa (Otsu), Mariko Okada (Akemi), Michiyo Kogure (Yoshino Dayu), Mitsuko Mito (Oko, mãe de Akemi), Akihiko Hirata (Seijuro Yoshioka), Kuroemon Onoe (Monge Takuan), Sachio Sakai (Matahachi Honiden), Yû Fujiki(Denshichiro Yoshioka), Eiko Miyoshi (Osugi, mãe de Matahachi), Daisuke Katô (Gion Toji)
Ano de lançamento: 1955
Duração: 104 min.
Sinopse: Anos depois de começar sua jornada para tornar-se um grande espadachim, Musashi volta a Kyoto para desafiar o líder da maior escola de esgrima da região. Para provar seu valor e suas habilidades, ele cai de propósito numa emboscada armada pelos seguidores da Escola Yashioka. Enquanto isto, seus feitos são observados atentamente por Sasaki Kojiro, um lutador brilhante e habilidoso, que acredita-se capaz de derrotar Musashi.

Crítica:

Neste filme os problemas encontrados na primeira parte da trilogia se potencializam. Novamente o grande destaque que a história dá para o amor de Otsu por Musashi, e para as investidas de Akemi (Mariko Okada) para conquistá-lo, acabam por prejudicar seu ritmo, e tornar a trama monótona e quase insuportável de acompanhar.

Além disto, o longa tem início com uma batalha entre Musashi e Baiken (Eijirô Tôno) totalmente descontextualizada, que além de mal conduzida, serve para introduzir Jotaro (Kenjin Iida), um personagem importante no livro, que no filme é mal aproveitado. O garoto jamais alcança alguma relevância dentro da trama principal, sendo relegado ao papel de figurante de luxo, o que é realmente uma pena, pois no livro ele é responsável por algumas das passagens mais divertidas, além de ser um dos personagens mais carismáticos da saga de Musashi. Jotaro contribuiria muito para eliminar parte da sisudez e melodrama que impediram a trilogia de entreter um pouco mais o espectador.

Hiroshi Inagaki novamente usa letreiros explicativos como muleta narrativa para cobrir pontos da história que não foram abordados diretamente no filme, chegando ao ponto de usá-los para justificar algumas atitudes tomadas por Musashi, jogando-os na tela como máximas escritas pelo personagem em algum diário, um recurso que poderia funcionar se bem empregado, mas que da forma como foi usado soa apenas como um meio preguiçoso de desenvolvê-lo.

Por fim, o tal duelo citado no subtítulo jamais alcança a maestria e o tom épico daquele descrito na obra de Yoshikawa, além de privar-se de retratar os momentos mais impactantes da batalha (no original ele chega a decaptar um garoto logo no início do embate). Seu desempenho excepcional contra toda a Escola Yoshioka é o que tornou Musashi famoso em todo o Japão, por isto a batalha final merecia um cuidado maior em sua execução, pois é a partir dela que o personagem começa a transformar-se numa figura lendária.

Mediano em sua execução, o que acaba salvando o filme é novamente a interpretação vigorosa e correta de Toshirô Mifune, que consegue passar incólume apesar dos muitos tropeços do roteiro.

Nota: 3 de 5


Samurai III - Duelo na Ilha Ganryu (Miyamoto Musashi kanketsuhen: kettô Ganryûjima, Japão)

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Diretor: Hiroshi Inagaki
Roteiro: Hideji Hôjô, Hiroshi Inagaki e Takuhei Wakao
Elenco: Toshirô Mifune (Miyamoto Musashi / Takezo), Koji Tsuruta (Sasaki Kojiro), Kaoru Yashigusa (Otsu), Michiko Saga (Omitsu), Mariko Okada (Akemi), Takashi Shimura (Nagaoka Sado), Minoru Chiaki (Sasuke, o barqueiro), Takamura Sasaki (pai de Omitsu), Daisuke Katô (Gion Toji), Haruo Tanaka (Kumagoro, o ladrão de cavalos), Kichijirô Ueda (Monge Ogon), Kokuten Kôdô (Velho Monge Nikkan), Ikio Sawamura (estalajadeiro)
Ano de lançamento: 1956
Duração: 105 min.

Sinopse: Musashi decide abandonar sua vida como guerreiro errante, e passa a viver nos arredores de uma vila cultivando vegetais. Não demora até que Otsu e Akemi o encontrem, e passem a disputar seu amor. Paralelamente Musashi é desafiado por Sasaki Kojiro, com quem promete duelar dentro de um ano. Nesse meio tempo, enquanto se prepara para o duelo, o samurai é forçado a enfrentar um grupo de bandidos que ataca a vila que o acolheu, e conforme o dia de seu maior desafio se aproxima, vê-se obrigado a tomar uma resolução que concilie ou não seu amor por Otsu e sua paixão pelo caminho do guerreiro.

Crítica:

Indo contra as expectativas geradas pelo capítulo anterior, a última parte da trilogia sobre a jornada de Miyamoto Musashi consegue sair-se melhor que seu antecessor, embora tenha sua parcela de falhas, o que o impede de superar a primeira parte.

Este é o filme que tomou mais liberdades criativas com relação à história original. Jotaro ganha um pouco mais de destaque na trama, apesar de acabar assumindo o papel que era de outro discípulo de Musashi na obra de Yoshikawa. Ainda assim, o personagem jamais adquire o brilho e o carisma que possui no livro.

A disputa de Otsu e Akemi pelo amor de Musashi toma um rumo completamente oposto ao visto na obra original, sendo seu ápice a tentativa de Akemi assassinar Otsu, pouco antes da vila onde vivem ser ataca por bandidos, os quais contavam com o seu apoio para realizar o ataque. Além de excessivamente melodramática, a disputa entre as personagens torna-se tragicômica, a ponto de prejudicar o impacto que o diretor visava alcançar com a decisão de mudar o destino final de uma delas.

Por outro lado, Inagaki acerta a mão ao adaptar cenas memoráveis do livro, como o divertido confronto entre Musashi e Kumagoro (Haruo Tanaka) na hospedaria; e sua luta final com Sasaki Kojiro (Koji Tsuruta), que é tão bela como a descrita por Yoshikawa, graças ao cuidado com que toda a seqüência foi filmada à beira-mar conforme o sol se erguia no horizonte. Nesta única passagem o filme consegue captar a essência da obra original, algo que grande parte da trilogia foi incapaz de fazer.

Toshirô Mifune fez o que pôde para retratar a força de caráter, a humildade e a habilidade de uma das mais conhecidas figuras históricas do Japão, e saiu-se admiravelmente bem. Uma pena que os roteiros de toda a trilogia sofram de um desequilíbrio narrativo que o "Musashi" de Eiji Yoshikawa não possui. Fosse ela uma adaptação mais fiel à capacidade do escritor em dosar humor, romance, drama, ação e filosofia, certamente seria uma trilogia tão memorável e relevante para a produção cinematográfica japonesa, como O Senhor dos Anéis foi para a Nova Zelândia e os EUA. Infelizmente ela não chega aos pés do virtuosismo de Peter Jackson e da obra-prima de Eiji Yoshikawa.

Nota: 3,5 de 5

domingo, 1 de maio de 2011

[RESENHAS] Musashi - Volumes I e II

Autor: Eiji Yoshikawa
Nº de páginas: 1808 páginas (922 do volume 1 e 887 do volume 2)
Editora: Estação Liberdade
Sinopse: Neste romance épico baseado diretamente na história japonesa narra um período da vida do mais famoso samurai do Japão, Miyamoto Musashi, que viveu presumivelmente entre 1584 e 1645. O início é antológico, com Musashi recuperando os sentidos em meio a pilhas de cadáveres do lado dos vencidos na famosa batalha de Sekigahara. Perambula a seguir em meio a um Japão em crise, onde samurais condenados ao desemprego e à miséria por senhores feudais derrotados semeiam a vilania ditando a lei do mais forte. Musashi será mais um dentre estes inúmeros pequenos tiranos, derrotando impiedosamente quem encontra pela frente, até que um monge armado apenas de sua malícia e alguns preceitos filosóficos zen-budistas consegue capturá-lo e pô-lo rudemente à prova. Musashi consegue fugir graças a uma jovem admiradora, para ser novamente capturado, e agora fica três anos confinado numa masmorra onde uma longa penitência, toda feita de leituras e reflexões, o fará ver um novo sentido para a vida, assim como novos usos para sua força e habilidade descomunais. Os caminhos rumo à plenitude do ser jamais são fáceis, e em seus anos de peregrinação em busca da perfeição, tanto espiritual quanto guerreira, enfrentará os mais diversos adversários, tendo inclusive que sair-se várias vezes de situações desesperadoras. É numa dessas situações que, totalmente acuado, usará pela primeira vez, em meio ao calor da luta e quase inconscientemente de início, a surpreendente técnica das duas espadas, o estilo Niten ichi, que o tornaria famoso pelo resto dos tempos.

Volume I

Foram as 922 páginas mais prazerosas que já li até hoje. Poucos s
ão os autores que conseguem segurar um leitor numa obra tão extensa como esta sem perderem o foco e começarem a enrolar, e isto é algo do qual não podemos acusar Eiji Yoshikawa.

Pra começar, seu estilo é muito simples, suas descrições de cenários são muito econômicas e objetivas, e ainda encontram espaço para metáforas inspiradas e poéticas, sem fazer uso de um vocabulário rebuscado e tomar um espaço desnecessário da história em si.

Outro elemento que se destaca na obra são os diálogos.
Todos têm uma fluidez que torna a leitura agradável, pois os personagens, mesmo aqueles que falam de uma maneira mais "formal", conversam como pessoas normais, e não como "personagens de um livro". Neste ponto a tradutora Leiko Gotoda merece méritos pela excelente adaptação do texto para o nosso idioma.

Mas é claro que a história não teria essa capacidade de conduzir o leitor com tanta eficácia se não existissem personagens cativantes e marcantes, e Musashi está cheio deles, a começar pelo protagonista, de personalidade forte, impulsiva, que esconde por trás de sua agressividade e imprevisibilidade uma sabedoria conquistada ao longo de uma dura e longa jornada que temos o prazer de acompanhar desde o início.

Otsu, eternamente apaixonada por Musashi, também conquista nossa simpatia por não ser apenas uma mocinha chorosa, que fica lamentando o tempo todo (embora ela tenha sua parcela de lamentações e choros ao longo da história), e suas aventuras ao lado de Joutaro, o garoto que torna-se discípulo de Musashi, funcionam como subtramas divertidas.

Além deles, temos o monge Takuan, que é um dos personagens mais engraçados e carismáticos da saga, cujas poucas aparições sempre rendem ótimos momentos de sabedoria regados com muito humor. E não podemos esquecer dos tragicômicos Matahachi e Osugi.

Com uma seleção variada e muito bem trabalhada de personagens, uma trama que flui com segurança e jamais se torna maçante, ótimas seqüências de luta, várias lições de filosofia oriental e história do Japão, Musashi é uma obra-prima que merece a adoração que conquistou desde sua publicação. Nada menos do que o merecido para o nascimento de uma lenda.


Volume II

Este volume, ligeiramente menor que o anterior, curiosamente parece possuir um peso maior no que diz respeito à quantidade de ensinamentos presentes na história, e à profundidade que eles alcançam.

Desde o início se mostrando uma obra ambiciosa, cujo desenrolar fluido torna sua leitura agradável, o volume 2 de Musashi confirma o que o primeiro já comprovava: Eiji Yoshikawa é um dos grandes escritores japoneses, e um dos melhores que este mundo já viu.

Neste a história assume um ritmo mais lento, em contraste com o turbulento final do volume anterior, o que funciona como uma retomada de fôlego, um momento de transição para a história e seu protagonista. Há uma mudança marcante na maneira como Musashi passa a encarar sua própria jornada até ali, e o verdadeiro sentido por trás dela. Ele assume uma postura mais humilde e contemplativa, e passa a encarar a vida de um ponto de vista mais elevado, enxergando agora o "caminho do guerreiro" como algo que vai além dos duelos.

Mas Eiji não se esquece do magnífico trabalho de composição e desenvolvimento de personagens exibido no primeiro livro, e aqui prossegue mais à vontade, conduzindo cada um deles com naturalidade ao longo da trama, tirando proveito da empatia que seus leitores estabeleceram com vários dos coadjuvantes no volume anterior.

É tocante e admirável ver a maturidade e resignação alcançada por Otsu, ao mesmo tempo que demonstra uma esperança inabalável, e uma devoção que alimenta cuidadosamente, demonstrando o enorme equilíbrio alcançado ao longo dos anos de espera. Além disto, é a protagonista de uma das seqüências mais emocionantes do livro, que serve de catalizadora da redenção de outra personagem. Otsu é, de longe, a personagem mais apaixonante da obra.

Osugi continua a velha senhora que amamos odiar no primeiro volume, cuja incansável busca por vingança continua gerando ótimas tiradas de humor. Enquanto Matahachi desperta nossa compaixão, levando-nos a lamentar os erros que comete quase que por compulsão, apesar das várias chances que recebe de dar um rumo melhor para sua vida.

Embora não dê para esmiuçar aqui o desenrolar das histórias de cada coadjuvante, vale mencionar a introdução de Iori, o novo discípulo que Musashi ganha neste volume, cuja personalidade Yoshikawa consegue diferenciar muito bem da de Joutaro. Takuan tem poucas mas ótimas aparições na história, ainda exibindo o enorme carisma que conquistou muitos leitores no volume 1. E, claro, temos mais um pouco de Sasaki Kojiro, cuja rivalidade com Musashi vinha sendo alimentada desde a metade do volume anterior, alcançando aqui sua culminância.

Além do longamente esperado confronto entre Musashi e Kojiro, este divide com o primeiro aquela que julgo uma das melhores cenas de humor deste volume. Ela que se passa numa casa de chá, onde Kojiro, conversando com alguns pedreiros, começa a criticar severamente o desempenho de seu futuro adversário na batalha de Ichijoji, apenas para descobrir, minutos depois, que Musashi ouvia toda a conversa enquanto fingia estar dormindo num cômodo vizinho. A forma como toda a cena se desenrola, e o instante em que Kojiro descobre Musashi, ainda deitado, encarando-o fixamente, é uma das grandes provas de quão completo é Eiji Yoshikawa como autor, que se sai bem tanto em cenas cômicas, quanto naquelas de peso mais dramático.

Yoshikawa continua merecendo todos os elogios possíveis com relação à forma como leva o leitor a pincelar em sua mente traços precisos e evocativos dos cenários e paisagens descritos, sem lhe exigir o menor esforço, com a mesma leveza e espontaneidade com que Musashi pinta paisagens no estilo haboku em diversos momentos da narrativa, tudo isto de uma forma envolvente e imersiva.


ATENÇÃO, o parágrafo abaixo contem SPOILERS que podem estragar surpresas do final da história!


Por fim, é digna de nota a decisão do autor de concluir a história de Musashi em seu momento mais glorioso, sem encerrar todas as subtramas até ali desenvolvidas. Este é o maior indicativo de que trata-se, acima de tudo, de uma grande homenagem de Yoshikawa a um dos mais fascinantes personagens do Japão, e um convite que ele deixa ao leitor para continuar desvendando Musashi em outros livros a partir daquele ponto, tornando a experiência de conhecer sua história tão plena quanto a visão que Musashi alcança do "caminho do guerreiro". Sua vida vai muito além do que dois livros são capazes de retratar, especialmente quando falamos de um homem que conseguiu ser maior que a própria.


Obs.: as resenhas acima foram originalmente publicadas na rede social Skoob.