quarta-feira, 30 de setembro de 2009
[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 8: "Beijos"
terça-feira, 1 de setembro de 2009
[REVIEW] - Southland Tales - O fim do mundo
É assim que o mundo acaba: não com uma explosão, mas com um choramingo”
Esse é o poema de T.S. Eliot. Richard Kelly, no entanto achou por bem inverter a ordem das coisas e dizer em seu filme “não com um choramingo, mas com uma explosão”. Convenhamos: qualquer coisa que troque um choramingo por uma explosão é algo digno de atenção.
Esse é apenas um dos motivos que faz esse filme ser irrestivelmente atraente, do tipo que se vc não ficar nem menos curioso para assistir então vc não tem envergadura moral!
Pq eu digo isso? Ora, alem da coisa da explosão é um filme de Richard Kelly.
Se vc não assistiu Donnie Darko eu poderia parar este texto aqui para ir até aí te empalar com uma colher de piche enferrujada, mas estou de bom humor e vou considerar a possibilidade mais otimista: sua família morreu num trágico acidente de carro no qual apenas vc sobreviveu com 95% queimaduras em do corpo e tem que passar 23 horas por dia em coma para suportar a dor. Melhor assim.
Basta dizer que Donnie Darko é um filme Cult tão bom, mas tão bom que EU gosto. Não, o Rodrigo não editou esse parágrafo, eu realmente disse que gosto de um filme Cult... se bem que se ele tivesse editado ele também poderia ter editado essa justificativa... hm, que seja.
O que importa é que Richard Kelly escreveu e dirigiu a coisa toda.
O QUE? Como assim não é motivo o bastante pra ti levantar essa tua mão gorda do mouse pra baixar assistir o filme? Ok, então realmente vou ter que usar argumento pesado, né? Eu não queria ter que chegar a isso, mas lá vai: o elenco.
O elenco é tão foda, mas tão foda que apenas Predador (com a cena de queda de braço no ar entre o Arnold e o Apollo Creed) consegue superar na escala Herbert Richters de fodice:
- The Rock (como o mega-astro Boxer Santaros)
- Sarah Michelle “Buffy” Gellar (como a atriz pornô/filosofa/apresentadora de TV/ícone Cult Krista Now)
- Christopher Lambert (como o caçador de recompensas do carrinho de sorvete)
- Mandy Moore (como esposa de Boxer Santaros e filha do favorito a presidente dos EUA em 2008)
- Justin Timberlake (como o narrador da história)
- Sean William “Stiffler” Scott
- Kevin “Silent Bob” Smith (como o excêntrico Simon Theory)
Sério, vai dizer que não é o elenco mais épico, mortal e inenarrável que vc já viu em um filme até hoje? Pode admitir... ta, só não começa a chorar de emoção que aí eu vou ter que parar de novo pra ir aí te embulachar... se bem que é provável que vc acabe gostando, então deixa pra lá...
Hm, medo muito em vc sinto eu. Sua fé na força inconstante vejo eu.
Ok, então vc precisa de MAIS motivos? Ora, não por isso amiguinho, não por isso. Fique sabendo que o filme foi apresentado em Cannes e foi sonoramente... VAIADO!!! Isso mesmo, tomou um épico, raro e monumental vaião na lata.
Se vc não respeita um filme que foi vaiado em Cannes, então sinto muito mas eu não tenho mais nada a lhe dizer.
UPDATE: eu estava conversando com o Aelsio e ele deu a definição perfeita: Cannes é o Oscar indie. Então se eles não gostaram, é pq boa coisa há de ser...
Continuando, com este elenco que apenas a expressão “infinitos níveis de formidável” pode chegar perto de descrever, não seria difícil dirigir o maior filme de todos os tempos, certo?
Bem, e se eu te dissesse que o cenário imaginado por Richard Kelly consegue ser do mesmo nível que este monumental elenco?
Imagine o seguinte: em algum ponto dos anos 2000, os terroristas fizeram um novo atentado aos EUA só que dessa vez com fucking nukes, uma onda de atentados nucleares deflagrou a Terceira Guerra mundial contra o Irã, Iraque, Síria e Coréia do Norte. Em represália, esses países cortaram o suprimento de petróleo aos EUA que ficou mais lascado que espiga de milho em arraial de São João. A coisa parecia ter ido pro brejo, quando um cientista louco e obscuro inventa uma nova fonte de energia: o karma fluído. Funciona assim: a geringonça do tamanho de um farol fica dentro do mar e usa a energia moto-perpetua-infinita para criar um campo de energia estática de trocentos quilômetros onde tudo dentro dele funciona.
Dentro dessa bolha de energia limpa, infinita e renovável, o governo americano cria a USAIdent, uma empresa que controla(censura) com mão de ferro a televisão, internet e jornais o que é a deixa para o levante do movimento neo-marxista. E tem muito, muito mais coisa.
Richard Kelly, usou todo tipo de referência possível. E não a referência preguiçosa, estilo cópia, que diretores como Tarantino vivem fazendo. Ele criou um mundo completamente novo a partir de tudo o que viu na vida, de filmes Z a programas do Warner Channel. Sarah Michelle como uma prostituta ultra-bronzeada que tem um programa de debate filosófico, econômico e social na TV a cabo? The Rock como um ator canastrão, ansioso, paranóico, noivo da filha de um republicano? Uma distopia alimentada via jornalismo-show ao estilo Tropas Estelares? Uma penca de atores do Saturday Night Live no papel de guerrilheiros neo-marxistas? Richard Kelly juntou tudo para criar um filme cheio de cenas primorosas, arriscado e diferente.
Há muitas leituras, há muito o que se descobrir no filme. Fala de guerra, imprensa, celebridades, política. Nada explícito. The Rock apresenta nuances de atuação incríveis para alguém com seu passado.
Os personagens do filme são absurdamente bem construídos, cada um tem sua própria história paralela que se cruzam, descruzam e dar nó em nenhum momento. Na história principal, temos Boxer Santaros (The Rock), noivo da filha do favorito na eleição presidencial que subitamente desaparece por três dias. Quando finalmente aparece, está sem memória e disso se aproveita uma célula revolucionária neo-marxista para lhe dar um passado falso e com isso filmar cenas comprometedoras do marido da filha do futuro presidente com uma famosa atriz pornô (Sarah Michelle).
Mas Santaros tem suas próprias idéias, ele está obcecado em gravar o seu filme: uma ficção cientifica/ação de roteiro extremamente ruim (imagine algo como “O Nucleo” encontra “Robocop”) que na verdade não é um roteiro de filme e sim a profecia do que virá nos próximos tempos. Enquanto isso, um grupo revolucionário “neomarxista” tenta acabar com a ditadura através de métodos violentos, e um policial (Seann William Scott) se envolve em uma grande conspiração. Cabe a Abilene (Justin Timberlake), um veterano da guerra do Iraque, narrar de uma perspectiva distante este iminente fim do mundo.
Daí pra frente o filme vai ficando mais confuso conforme se aproxima do final. Idas e voltas no tempo, universos paralelos, futuros alternativos, enfim, essa porra toda que nós conhecemos e amamos
Então recapitulando: o diretor é foda, o elenco é foda e as atuações são fodas, o filme é repleto de detalhes, nuances e pequenas maravilhas narrativas (a minha favorita, de longe, é o esculacho aos queridos esquerdinhas neo-marxistas, mas vc vai encontrar a sua), tudo isso, mas juntando isso... o filme é bom?
"O polícial Roland Taverner era cafetão. E cafetões não cometem suicídio"
Essa é a melhor cena do filme, quando Justin Timberlake chapado até a alma dubla The Killers com coristas de perucas branca. Simplesmente épica. E logo em seguida Kelly caga tudo com uma cena que sai do nada, vai pra lugar nenhum e desemboca em vergolha alheia. Esse é o melhor resumo do filme.
Err... bem...
A impressão final, a coisa de “é bom ou não é” fica mesmo de que a pretensão de fazer uma obra grandiosa subiu a cabeça do diretor, que se perdeu ao tentar reunir todas as idéias que teve. A enorme quantidade de informações confunde e esconde a crítica proposta, e ela passa a ser apenas um pano de fundo para as loucuras bipolares de um megalomaníaco. Alias dá pra sentir o Richard Kelly se homenageando em cada frame. Eu não sei se fazer um filme que é um fracasso de bilheteria mas vira icone cult faz seu penis aumentar 29cm, mas com certeza o diretor dá a entender que faz sim...
Veja, naquela hora que vc pensa que as pontas soltas das histórias paralelas dos personagens vão se juntar ante o apocalipse... bem, é exatamente isso que acontece mas de uma forma preguiçosa, fácil e sem exagerar, constrangedora. Dá pra sentir claramente um "olha, eu sou um genio, então vcs ai que se virem pra arranjar um sentido pra isso e achar cada rabisco de cena genial"
Sério, o final do filme é bobo, infantil e ridículo. Pior que novela da Record. Sério mesmo, eu to falando de um filme que tem no final uma cena de quase meia hora de um carrinho de sorvete voador. Mais uma vez, não tem qualquer exagero aqui.
A conclusão é que o filme tem algumas boas sátiras e piadas, e um ou outro momento genial, frases de impacto (mas que ficam perdidas e parecendo que foram criadas só pra esse fim mesmo), referencias biblicas (assim como em Donnie Darko) mas quando vc vê que sua fé de que uma hora a história ia “fechar” ser traída (como eu disse, o final do filme até amarra as pontas mas amarra igual a minha cara de pois de ser atropelado e atacado por um enxame de abelhas zu-vu-kului), fica apenas uma sensação de perda de tempo e desperdício de ótimas idéias, um elenco maravilhoso em atuações ímpares.
Tudo descarga abaixo, é uma pena mesmo...
Veja Southland tales como quem assiste a uma instalação de arte contemporânea. Ao ter que sugerir algo assim vc pode ver o absurdo que é esse filme, mas o olhar menos preocupado com a lógica te poupará de estuprar uma Barbie em alguma das (muitas) cenas que soam como intermináveis piadas internas. E piada interna, como bem se sabe, só tem graça pra quem conta.
De qualquer forma, Kelly merece algum tipo de prêmio por oscilar tão radicalmente entre o deslumbramento e a lata de lixo.
É assim que o mundo acaba.
É assim que o mundo acaba.
É assim que o mundo acaba.
Não com uma explosão, mas com a masturbação mental de um diretor estrelinha megalomaniaco.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
[CONTO] Sara em: A Primeira
Winter Girls de Yumedust
A fogueira ainda queimava no centro da roda. Sara, com o braço direito sobre o ombro de Lisa, dava mais um trago no cigarro, já manchado com uma mistura dos batons de todas, depois da terceira volta que dera.
- Vamos, Sara, é sua vez de nos contar!
- Não tem graça, eu já disse.
- Não importa se não tem! Todas concordamos em contar como foi nossa primeira vez com um garoto.
- A minha não foi muito diferente das suas.
- Pára de enrolar e desembucha, Sara! E me dá aqui esse cigarro!
- Tá bem... Aff..! - puxou um cacho do cabelo que balançava na frente do olho, e começou - Foi desajeitada. Eu não sabia muito bem como começar, e ele não sabia se tirava a minha roupa ou a dele, nem eu se devia descer a cueca dele, ou deixar que ele fizesse. Acabou que cada um cuidou da sua. Daí ele me abraçou, mas, quando sentiu que tava encostando o pau dele em mim, tomou um susto e se afastou. Eu não soube muito bem o que fazer na hora, mas logo depois eu puxei o quadril dele pra perto do meu. Então ele começou a me beijar na boca, e foi logo apertando meus peitos. Às vezes apertava tanto que doía, daí eu gemia, e ele parava de apertar, e ficava só alisando, mas logo que esquecia do gemido ele voltava apertar até eu gemer de novo.
- Ele fez oral em você?
- Cala a boca, Stephany! Deixa ela contar! Continua, Sara!
- A mão dele tremia muito! Tinha hora que ele parecia que ia perder o fôlego, de tanto que... Bom! Depois de ficar chupando meus mamilos por uns minutos, ele desceu lá pra baixo...
- Ah, então rolou oral!
- Stephany, dá pra parar de interromper?
- Não, ele só ficou olhando mesmo. Chegou a passar o dedo, mas, parece que ficou com medo de machucar, quando sentiu ela toda molhada.
- Nossa, o moleque te deixou "no ponto" assim tão fácil?
- Era a primeira vez dela, Julia! Se toca! Claro que ela ficou toda molhadinha na primeira apalpada.
- Pra idade dele, até que foi razoável. Bom, pelo menos até a parte da trepada...
- Ai, é nessas horas que a maioria deles estraga tudo...
- Ele não sabia muito bem como se posicionar, nem como ME ajeitar pra ele... Enfim, pra ele me comer.
- Aposto que ele já foi enfiando tudo de uma vez.
- Não, ele até que foi cuidadoso nesse ponto. Mas não soube muito bem como lidar com as minhas pernas. Jogou uma delas pro lado e a outra pra cima. Na hora eu senti uma fisgada no ligamento, depois a dor foi aumentando, e qualquer prazer que eu tenha sentido na hora ficou em segundo plano.
- Típico! Coisa de cabaço isto!
- Ah gente, não dá pra culpar o menino, coitado! Na primeira vez a gente sempre tá nervoso demais, querendo fazer tudo certinho, e acaba metendo o pé pelas mãos.
- Ou o pau pelas pernas desconjuntadas!
- Tá bom, Stephany, já que você tá toda cheia de gracinha, agora pode ser a sua vez! E toca esse cigarro pra frente que você tá mais babando nele do que tragando!
- Calmaí, Julia! Acho que a Sara esqueceu de um detalhe: vocês fizeram sem camisinha?
- Ele andava sempre com uma na carteira, mas, no dia, tava sem.
- Peraí! Então ele já tinha...
- Não, ele nunca tinha transado com outra garota antes de mim. Sei disto.
- Ha! Sei muito bem como ele usou esta! - disse Stephany, fechando a mão em forma de cone e fazendo movimentos de sobe-e-desce.
- Falou a garota que já "se tocava" desde os 8 anos.
- Não sei como ele usou a dele, mas no dia ele não tinha, e nem eu, então... Foi uma burrice nossa. Tivemos muita sorte. O que não aconteceu uns meses depois quando eu namorava o Cássio... Aquilo sim foi... Não importa. Se não fosse o mal jeito nas pernas, teria sido até que bom.
- E o pau dele, era grande?
- Tem certeza que não é mais bi, Keila? Essa sua fixação por paus parece saudade disfarçada.
- Ah, vai se fuder, Lisa! Não posso ser curiosa que já vem com essa de novo?
- Vai dizer que não adorava chupar o do Felipe!
- Ele fedia, tinha um gosto horrível, e o dele era muito feio, cheio de veias saltadas e... Merda! Por que que eu tô falando disto pra vocês?!!
Todas caíram na gargalhada. Quando o silêncio voltou a dominá-las, Sara prosseguiu:
- Não, o tamanho era normal. Médio. Nem fiquei olhando muito, ele parecia não gostar quando eu ficava encarando.
- E você, como ficava quando ele ficava olhando a sua "garota"? - disse Keila, apontando com a cabeça o quadril de Sara.
- Envergonhada, mas, ao mesmo tempo, me dava tesão aquilo.
- Também gosto que olhem a minha.
- Eu não! Acho a minha feia! Prefiro que nem abram os olhos enquanto me chupam.
- Deixa de ser complexada, Julia! Sua xana é lindinha, toda delicada. Nem parece que foi usada!
- Hahahaha! Deixou ela toda vermelhinha agora, Keila! Assim vai fazer a menina ficar mais apaixonada do que já é.
- Eu não ligo. Quero mais é que fique mesmo. Hihi.
- E então, algo mais que queira saber da Sara, Lisa?
- Não, era só isto mesmo.
- Mas eu quero!
- Ai, lá vem ela de novo...
- Claro! Afinal, vocês são tão sonsas que nem se lembraram de perguntar da porra do hímen da Sara!
- Você é que é a sonsa dessa vez, Stephany, porque todo mundo aqui sabe que a Sara..!
- Eu o rompi quando tentava me masturbar com o cabo da minha escova de cabelo. Fiquei meses sem tentar aquilo de novo até eu descobrir que não tinha feito nada errado.
- Diga isto pras coitadas que vivem em sociedades onde romper o hímen antes de transar com seu marido é crime punível com morte, ou coisa pior.
- Ah, vai bancar a nerd intelectual em outra roda, Lisa! Essa aqui é a da sacanagem! Hahaha!
- Mas isto é bem típico, gente! Perder a "virgindade" se masturbando é mais comum do que se pensa.
- Pelo menos poupou o rapaz de brochar na hora que ela desse um grito, ou o xingasse, e parasse tudo depois da dor filha da puta que todas sentimos quando isto acontece.
- Já senti dores piores.
- E eu maiores e mais gostosas! Hehehe.
- Falou a "sado"!
- Tá! Agora sim, é a sua vez Stephany!
- Até que enfim, hein! Bom, a minha foi..!
E aquele papo só terminou quando todas já estavam caindo de sono, indo cada uma com sua parceira pra dentro das cabanas.
A certa altura Sara estampou um sorriso enigmático nos lábios enquanto fazia amor com Lisa, que quis saber o motivo. Ela respondeu que não era nada, mas no fundo sabia que era a lembrança divertida daquele adolescente magricela que descobriu seu corpo e apresentou-lhe o sexo.
domingo, 26 de julho de 2009
[CRÍTICA] Transformers: A Vingança dos Derrotados (ou seria A Orgia de Michael Bay?)
Ontem eu assisti Transformers 2 e, ao contrário da definição usada na crítica do pessoal do Omelete pra descrever a sensação que o filme deixa em quem o assisti, eu não me senti estuprado por um dos muitos robôs que desfilam pelo filme, mas sim diante de uma masturbação michaelbayana, seguida de um estupro grupal num monte de ferro velho!
Sério, aquele filme é realmente uma sublimação freudiana muito mal-disfarçada das fantasias pervertidas de um diretor que já nos brindou em seus filmes anteriores com muito machismo, muitos closes pornográficos de praticamente tudo que compõe a maquinaria militar estadunidense, e, claro, sua mais conhecida marca registrada, as explosões cataclísmicas, e as cenas de ação a cada trabalho seu mais incompreensíveis.
A fixação de Michael Bay por máquinas chega ao ápice quando somos obrigados a engolir um pobre coitado encarando de baixo os testículos de aço de um decepticon enquanto este escala e destrói uma pirâmide. Portanto, meus amigos, não deixe o Sr. Bay trancado sozinho no angar onde você guarda seu caça F-22, pois você pode ter uma surpresa um tanto desgradável quando voltar.
Por favor, não me deixe sozinho com esse cara! Ele tá me olhando de um jeito estranho!!
São quase duas horas e meia de muita pornografia robótica, Megan Fox trepando com uma moto, Shia LeBouf desempenhando o melhor papel do filme (o que não é nenhum grande feito, se formos considerar os outros colegas de elenco do rapaz) como um histérico que fica o filme inteiro fugindo pelo mundo afora com a gostosa de lábios genitalmente sedutores, e muita, MUITA MESMO, porradaria entre robôs gigantes, da qual, se você compreender uns, digamos, 10% do que está acontecendo ali, já será, este sim, um feito a ser comemorado.
Fora o Michael Bay, o grande problema de Transformers 2, também presente no primeiro filme, é o design exageradamente rebuscado dos robôs. Simplesmente NÃO DÁ pra entender, na maioria das cenas em que eles entram em ação, onde está um braço, um rosto, um par de testículos de aço, enfim. O que acaba com a parte do filme que poderia, quem sabe, se salvar das limitações de Michael Bay como diretor. Justamente as cenas pelas quais a maioria dos espectadores está pagando pra ver são as que menos entendemos WHATAHELL está rolando ali.
Só apareci pra morrer e ressurgir no finalzinho... (mais Aslan que isto só se me botarem uma juba)
Portanto, guardem bem este rosto acima, pois será a única vez que o verá com tamanha nitidez. No filme temos que nos contentar com borrões metálicos multicoloridos movendo-se freneticamente numa espécie de sexo animal entre o Taz e o Papaléguas no meio de, claro, um punhado de explosões, e militares impotentes empunhando metralhadoras ejaculantes contra um bando de computação gráfica de primeira, mas da qual infelizmente não podemos compreender quase nada do que nos mostra (o que, se pensarmos bem, faz com que ela seja da pior espécie, no final das contas).
Enfim, deu dor de cabeça este filme, e só não digo que foi "déireal" jogado fora, porque pelo menos rendeu este post aqui. É libertador "carcá o nabo" em obras como esta, algo que meu amigo Cilon faria melhor do que eu (sim, isto é um incentivo pra voltar às velhas críticas, caso esteja lendo este post). Foi minha última tentativa com Michael Bay. Masturbação, assim como os trabalhos do diretor, perdeu a graça pra mim. Tá, eu confesso, ainda gosto de Armageddon e A Rocha, apesar de tudo.
Aproveito o post pra pedir desculpas ao Lucas e à Eliane. Não deu pra esperá-los sair do cinema pra gente trocar umas impressões sobre o filme. Tava chapado de cansaço e de muita dor de cabeça depois daquela lataria vibratória toda. Agradeço a Deus por não ter epilepsia...
quarta-feira, 22 de julho de 2009
[REFLEXÕES] Eu e Mim: Um Monodiálogo
Me, Myself de Red Eye Loon
Eu: Não sei bem por onde começar...
Mim: Que tal do ponto onde surgiu esta idéia?
Eu: É, pode ser... Acho que foi por causa de Flubber e o Homem Bicentenário.
Mim: Tem certeza?
Eu: Não. Mas podemos começar deste ponto mesmo.
Mim: Ok. Fale-me de Flubber.
Eu: Eu gosto do Robin Williams. Acho ele um dos atores mais simpáticos de Hollywood. Não sei como ele é no dia-a-dia, mas, no meu caso, o que vale é a imagem que ele passa em seus filmes. Ele me parece um sujeito bacana. Do tipo que se a gente parasse na rua todo empolgado e dissesse "Uau! Você é o Robin Williams, cara! Posso apertar sua mão?", ele daria uma paradinha só pra estendê-la pra você, e ainda trocaria uns dois dedos de prosa enquanto você ainda tenta assimilar aquele encontro na sua cabeça falando de todos os filmes dele que você assistiu, e citando até um ou outro onde ele nem sequer deu as caras.
Mim: Então, você pensava no Robin Williams.
Eu: Não, eu pensava no quanto eu gosto do filme Flubber. Aquele das borrachinhas verdes que fazem um número musical, e cientista com o carro que voa naquela rua bonita a noite com a namorada.
Mim: É por isto que você gosta desse filme?
Eu: Não. Os efeitos especiais são legais, e é um filme divertido, como a maioria dos filmes do Robin Williams são. Mas gosto dele especialmente pela declaração de amor que ele faz à namorada dele.
Mim: O que tem de tão especial na declaração de amor?
Eu: Bom, durante todo o filme ele fica a maior parte do tempo distraído tentando inventar mil e uma aplicações pra descoberta que ele fez. E sempre acaba se esquecendo dos encontros que marcou com a namorada. Daí chega num ponto que ela enche, e acho que termina com ele (não me lembro muito bem dessa parte pois já faz tempo que não assisto). Só sei que no final, depois de ele quase perdê-la, ele vira pra ela e diz que o motivo de ele ser tão distraído, a ponto de se esquecer de tantos compromissos que havia marcado com ela, é que ele a amava tanto que isto o fazia sempre se esquecer das coisas, de tanto que ele pensava nela enquanto inventava. Ela era uma espécie de musa inspiradora pra ele. Quem o ajudava a ter tantas idéias. Algo assim.
Mim: Não acha uma explicação meio forçada?
Eu: Pode parecer pra maioria das pessoas, mas eu sei bem como é isto.
Mim: Como?
Eu: Porque eu era assim quando namorávamos. Pensava tanto nas mil e uma coisas que eu gostaria de fazer com ela, que na hora que nos encontrávamos, eu acaba me esquecendo de coisas que a gente havia combinado de fazer, ou acabava me distraindo vendo outra coisa, enquanto ela ficava olhando pra mim esperando um pouco mais de atenção.
Mim: Então, você se acha como o personagem do Robin Williams em Flubber.
Eu: Sim, um pouco. Sabe, eu sou relapso demais. Tenho muitas idéias em questão de minutos. Uma vai puxando a outra, e às vezes eu perco o controle sobre isto. Vou seguindo o fluxo. É tudo um "TUNTZ! TUNTZ! TUNTZ! Mil idéias por minuto! Mil idéias por minuto!", e quando eu não sigo com elas, me sinto meio frustrado.
Mim: E ao mesmo tempo você se sentia frustrado por fazer com que ela se sentisse ignorada.
Eu: Mas eu não a ignorava! Eu só tentava seguir uma idéia minha até onde ela me levava, mas eu nunca deixava de pensar na Tati. Ela sempre fazia parte das minhas preocupações. Me preocupava muito não ter muito o que dizer pra ela em algumas ocasiões, simplesmente porque eu estava seguindo uma idéia minha.
Mim: E por que não falava da idéia pra ela?
Eu: Às vezes eu falava. E às vezes ela gostava, e a gente curtia muito falar sobre isto. Mas às vezes ela não tava muito disposta a falar sobre isto.
Mim: As pessoas são assim mesmo.
Eu: Sim, são.
Mim: E o Homem Bicentenário? Por que pensou nele?
Eu: Sabe, só ontem eu me dei conta de que é um dos melhores filmes já feitos pra nerds como eu.
Mim: Por que diz isto?
Eu: Porque é uma ficção científica de primeira que mesmo assim dá pra assistir com a namorada e, melhor ainda, se emocionar com a história. E o Homem Bicentenário tem uma história poderosa!
Mim: Por qual motivo?
Eu: Pôxa! O cara era um robô, uma inteligência artificial que vai com o tempo aprendendo a se comportar cada vez mais como um humano, até o ponto de se apaixonar por uma garota. Uma máquina que aprende a amar, cara! Tem noção do significado disto? E no final ele, que podia muito bem viver pra sempre, se continuasse com seu corpo robótico movido a um reator positrônico, algo como uma fonte de energia infindável dentro da história, simplesmente desiste disto, pede pro seu criador fazer todas as adaptações possíveis para que ele se transformasse num humano completo. Ele desiste da imortalidade pra ficar com a mulher que ele ama até o fim! E eles morrem juntos! Cara, aquele final é de fazer qualquer um chorar! Os dois lá, velhinhos, deitados na cama, dando o último suspiro juntos! Não tem final mais grandioso que este pra um filme! É uma das melhores histórias já criadas!
Mim: É, deu pra notar que você gosta muito dele.
Eu: Sim, demais! Mas só me dei conta disto agora. É como morrer.
Mim: Morrer?
Eu: Sim. Dizem que antes da morte a gente vê um filme sobre a nossa vida. Eu não acredito muito nesse lance de "filme". Acho que quando estamos prestes a morrer a gente revive tudo, como se estivesse acontecendo naquele momento. Deve ser uma tremenda carga emocional a que sentimos nessa hora. Tipo, uma versão de nossa própria vida sendo revivida na velocidade da luz. Algo assim.
Mim: E o que isto tem a ver com você ter se dado conta de que gostava tanto do Homem Bicentenário?
Eu: Tem que a gente só toma ciência da importância de alguns elementos de nossa vida dentro de um contexto mais amplo. Acho que quando estamos perto de morrer a gente enxerga muita coisa do passado de uma forma bem diferente daquela que enxergamos enquanto vivíamos aquele fato pela primeira vez.
Mim: Tudo parte de um contexto maior.
Eu: Sim. E algumas coisas fazem mais sentido quando as revisitamos, quando olhamos pra elas mais uma vez depois de termos passado por certas experiências.
Mim: Pode citar um exemplo?
Eu: Sim. Eu e a Tati. Ela terminou comigo ano passado, no Natal. Foi a pior coisa que já aconteceu comigo até aqui. A pior, sem a menor dúvida. Foi como morrer, e ao mesmo tempo como perder alguém que amamos muito. Bom, na verdade, em parte, foi isto mesmo que aconteceu. Foi como se ela tivesse morrido. E ter que conviver com a idéia de que não existe mais a possibilidade de voltar a vê-la de perto, tocá-la, beijá-la, fazer um monte de coisas que gostávamos de fazer juntos, e que eu sei que nunca será da mesma forma com o outra pessoa. Enfim, ter que aceitar o fato de que eu perdi tudo isto, foi como se me arrancasse um pedaço muito importante da minha alma. De certa forma foi isto que aconteceu mesmo. A gente se doa muito quando estamos amando alguém. Acredito que deixamos com cada pessoa a quem transmitimos nosso amor uma parte de nós, não importa de que forma seja. E no final, quando terminamos esta vida, a gente olha pra trás e se dá conta de que saiu por aí distribuindo muitos pedaços de nós mesmos pra muita gente. E algumas deram o valor devido à parte que recebeu, e algumas não. É assim que funciona.
Mim: E o que você enxerga de forma diferente agora que pode revisitar o que já passou?
Eu: Que a gente deixou muitas coisas, e muitas pessoas, que não deviam nos afetar ter justamente esse efeito sobre nós. Que a gente permitiu que muitas das nossas limitações fossem motivos pra voltar nossa revolta contra elas um contra o outro. Se bem que isto eu já enxergava mesmo na época em que ainda namorávamos. Nos últimos meses.
Mim: E o que mais?
Eu: Ela voltou pro antigo namorado dela. Ela ainda o ama. Eles estão tentando fazer com que dê certo agora. Mas, por mais que ela tente me convencer disto, ela não me parece feliz. Ela ainda sente muita falta do que nós dois éramos capazes de fazer juntos. Coisas que ela não consegue fazer com o namorado atual. Coisas que ela nem sequer tem esperança de que um dia possa fazer com ele.
Mim: Como o que, por exemplo?
Eu: Fazer com que sua imaginação flua com a mesma facilidade com a qual fluía quando estávamos juntos. A ponto de escrever contos inteiros só de olhar pra uma imagem que eu passava pra ela. A ponto de manter um ritmo diário. A ponto de fazer mil planos pra sonhos que gostaria de realizar. A ponto de inventarmos histórias um pro outro na hora, e contá-las com tanto encanto e paixão, que nos fazia sentir verdadeiros deuses narrando os destinos de um mundo inteiro, deuses bons que só queriam ver um mundo cheio de magia e amor.
Mim: E o que você acha disto tudo?
Eu: Acho que algumas pessoas precisam voltar a sentir o gosto de algumas lembranças a ponto de revivê-las de maneira concreta, palpável, pra ter certeza do que/quem realmente quer. Acho que é isto que acontece agora.
Mim: Ela está com ele só pra ter certeza de que quer ficar com ele mesmo?
Eu: Não é tão simples assim. Dizendo isto você está falando apenas de uma parte da verdade.
Mim: E qual seria a outra?
Eu: Ela ainda o ama, ainda se preocupa com ele. Sei disto porque mesmo enquanto estávamos juntos ela falava muito dele, ela sonhava muito com ele. Ela ama demais as pessoas a ponto de continuar amando uma mesmo estando com outra. A ponto de conseguir amar tão intensamente alguém sem se esquecer que ainda ama um outro alguém. Ela é assim. E eu a admiro por isto, apesar de tudo. Ela é mais uma daquelas pessoas tão lindas e tão especiais, com tanto amor pra distribuir guardado dentro de si, que às vezes não sabe bem como direcioná-lo, como fazer isto sem magoar as pessoas, sem cometer erros que acabem prejudicando todos.
Mim: Você acha que ela cometeu um erro?
Eu: No início eu pensava que sim. Mas agora eu vejo tudo como algo que precisava acontecer. Ela precisava passar pelo que está passando agora. Ela precisa viver isto. Precisava enxergar sua relação com ele dentro de um contexto mais amplo. E o tempo que passamos juntos ano passado ajudou a criar esse quadro maior. Ajudou a criar um termo de comparação.
Mim: E o que você espera disto tudo?
Eu: Só que ela tome a decisão certa quando sentir que deve tomar alguma com relação ao que está vivendo agora. E que ela descubra o que/quem realmente quer pra sua vida.
Mim: E se este "quem" não for você?
Eu: Talvez eu siga em frente, e me esqueça dela de uma vez por todas.
Mim: E qual é a outra possibilidade?
Eu: Ser consumido pelo vazio interior que sinto agora.
Mim: Fale-me sobre isto.
Eu: Esta coisa sempre esteve presente na minha vida, mesmo quando eu estava com ela.
Mim: E que coisa seria esta?
Eu: Já a chamei de meu "monstro interior". Aquela parte sombria que a maioria de nós temos. Talvez algum resto de maldade que ainda sobrou de minhas vidas anteriores, quando eu ainda não era uma pessoa uma pouco menos cheia de má. Aquele lado meu contra o qual ainda luto pelo domínio de meus atos.
Mim: Por que tem medo de ser consumido por ele?
Eu: Porque não consegui domá-lo nem mesmo em alguns dos melhores momentos que tive com ela.
Mim: Por exemplo?
Eu: Tomávamos banho juntos uma vez, depois de fazermos amor. Eu olhei pra ela, e ela... teve medo de mim. Disse que teve uma sensação ruim. Que eu olhei pra ela com um olhar vazio. Algo que transmitia desprezo. Era como se fosse outra pessoa. Como se, por alguns segundos, eu houvesse me transformado diante dela. E não passou de um olhar. Eu não fiz nada com ela, não disse nada. Só estava olhando pra ela, e meu jeito de olhar mudou. E isto bastou pra ela sentir calafrios. Se afastar alguns passos de mim dentro daqueles box apertado. Ficar me olhando como se estivesse diante de um estranho que se materializou do nada naquele espaço limitado, e começasse a acoá-la. Eu não fiz nada, só estava olhando pra ela...
Mim: E como você se sentiu?
Eu: Como eu me sinto quando perco o controle sobre mim por alguns instantes. É algo parecido com se ver sentado na poltrona do carona dentro de seu próprio carro, vendo um estranho conduzi-lo sem a menor chance de impedir que ele faça o que quiser.
Mim: Então você não perde a consciência nestes momentos?
Eu: Não. Eu enxergo e ouço tudo.
Mim: Nunca perdeu?
Eu: Nunca.
Mim: Você acha que foi só por isto que ela teve tanto medo de você naquele dia?
Eu: Acho que ela teve medo de ser consumida por aquele vazio que enxergou dentro dos meus olhos. Nada mais natural. Estávamos com planos de nos casar. De passar o resto da vida juntos. Quando uma pessoa convive muito tempo com outra acaba tendo contato tanto com o melhor como com o pior da outra. E quando a gente olha muito tempo pra uma coisa, se a gente não se cuidar, acaba sendo hipnotizado por ela. Quando olhamos muito tempo pro vazio, a gente se sente tão vazio quanto ele. E se tem uma coisa que nenhum ser humano gosta de sentir-se é vazio.
Mim: Por que esta sua fixação por vazio?
Eu: Acho que tenho mais fixação pelo extremo do vazio. Os buracos negros. Meus olhos, naquele dia, pra ela, devem ter se tornado muito parecidos com dois buracos negros.
Mim: Por que buracos negros?
Eu: Porque eles consomem tudo que os cerca graças à sua gravidade infinita, inclusive a luz. E deve ser aterrizante pra uma pessoa sentir a luz que carrega em si, aquela luz de criatividade, de encanto, de amor pelo ser amado, sendo sugada por dois olhos tão diferentes dos olhos que geralmente encontra naquela pessoa diante dela.
Mim: E como você lidou com a reação dela naquele dia?
Eu: Eu pedi desculpas. Na verdade implorei por elas. Disse que não era minha intenção. Que eu não pude evitar aquilo. Que a coisa simplesmente aconteceu sem o meu controle. Que era algo que existia em mim que vez ou outra aparecia sem aviso. Eu a abracei, e choramos muito juntos debaixo daquele chuveiro que chovia água quente em nossos corpos, que de repente se pareceram mais nus do que de fato estavam.
Mim: E o que mais tem a dizer sobre este vazio?
Eu: Ele se manifesta de outras formas.
Mim: Poderia dar outro exemplo?
Eu: Sim... Eu não me sinto mais tão vivo como me sentia perto dela. Se for comparar a minha vida de agora com a que eu tinha quando tava com ela, dá pra dizer que mesmo nos dias em que conversávamos pela internet tendo que nos contentar apenas com a imagem e o som da voz um do outro, eu me sentia mais vivo do que os dias mais vívidos que tenho hoje. E, por não me sentir mais tão vivo, muitas vezes me desespero. Posso passar vários dias seguidos sem me importar tanto com isto. Simplesmente levando a minha vida do jeito que dá. Indo trabalhar, assistindo algum filme ou série, ou lendo algum livro ou uma história em quadrinhos quando chego em casa. Às vezes escrevendo, outras, mais raras, desenhando. Mas, depois de uns dias assim, chega mais um daqueles dias em que tudo isto não basta. Aquele tipo de dia que nada me satisfaz. O tipo que se torna tão desesperador a ponto de sentir que eu devo apelar pra algo mais forte do que tudo aquilo, a coisa mais forte que eu posso fazer comigo mesmo sem ter ninguém por perto. Sem ter ela... A coisa que me faz sentir ainda vivo, mesmo que por pouco tempo.
(...)
Mim: E que coisa seria esta?
Eu: Masturbação...
(...)
Eu me tranco no banheiro, tiro todas as roupas, e... Bom, eu não vou descrever algo que todo mundo sabe muito bem como funciona.
Mim: E isto te incomoda.
Eu: Sim...
Mim: Por quê?
Eu: Porque eu me sinto sujo ao fazer isto.
Mim: Explique isto.
Eu: Sinto que eu não mereço aquilo. Sinto que aquela é a maior fraqueza que eu poderia manifestar. Que eu não devia apelar pra algo tão depreciativo.
Mim: Por que acha depreciativo?
Eu: É uma medida desesperada. Uma coisa que alguém faz só quando não tem ninguém que proporcione aquilo.
Mim: E isto te faz sentir-se culpado.
Eu: Sinto culpa por não ter sido forte o bastante.
Mim: Já pensou que isto pode ser mais natural do que um sinal de fraqueza? Os seres humanos têm necessidades que não podem ignorar por tanto tempo.
Eu: Sim, eu já pensei. Mas não gosto de sentir que estou retrocedendo. Eu não me sinto bem simulando um amor que eu não possuo.
Mim: Então você não sente amor próprio.
Eu: Acho que não...
Mim: Você precisa sentir-se amado pra conseguir se amar.
Eu: Sim, acho que é isto.
Mim: E porque acha que precisa de alguém pra se amar.
Eu: Porque eu não suporto a solidão! Não suporto a idéia de ter que conviver comigo mesmo por tempo indeterminado!
Mim: Mesmo que muitas vezes isto só aconteça porque você se isola das outras pessoas?
Eu: Eu preciso fazer isto. Não sou capaz de expressar o que eu tenho de bom pra qualquer pessoa.
Mim: Então você acha que somente algumas pessoas merecem ter contato com o que você tem de bom pra oferecer.
Eu: Somente as pessoas que eu sinto que gostam de mim do jeito que eu realmente sou.
Mim: E como você pode ter tanta certeza disto se você se isola de muitas delas?
Eu: Porque a maioria das pessoas deixam muito claro se querem ou não se envolver com a gente. Eu sinto isto nas pessoas. Minha percepção é tão forte quanto a minha imaginação.
Mim: Sua imaginação. Você ainda não falou sobre ela.
Eu: Ela é outra das armadilhas que eu carrego dentro da minha mente.
Mim: Por que diz isto?
Eu: Porque eu sou capaz de imaginar muitas coisas. Ligar muitas idéias umas com as outras de uma forma que, com o passar dos anos, se tornou praticamente instintiva. Encontrar ligações entre idéias inicialmente desconexas. Encontrar meios de casá-las, por mais contraditórias que sejam. Às vezes funciona muito bem, e às vezes não. Mas eu estou sempre fazendo isto, o tempo todo, nos momentos mais inimagináveis.
Mim: O que ainda não explica porque a considera uma armadilha.
Eu: Porque ela muitas vezes atenta contra mim. Cria na minha cabeça coisas que não existem, fatos que não ocorreram, possibilidades que estão longe de serem plausíveis. E eu tenho dificuldade de filtrar tanta informação. Tenho dificuldade de me focar. Sou capaz de imaginar coisas realmente perturbadoras, horripilantes, infernais. Coisas que renderiam noites péssimas de sono pra muitas pessoas, ou mesmo insônias. Coisas que deixariam alguém traumatizado por uma vida inteira, se olhassem bem de perto o que eu guardo aqui dentro. Minha imaginação é o próprio inferno. O meu inferno. E ao mesmo tempo é o mais próximo que eu consigo chegar do paraíso.
Mim: Vamos usar essa metáfora pra um exercício imaginativo. Como você enxerga sua vida agora, depois de passados quase sete meses desde que ela terminou com você? Como um céu, ou como um inferno?
Eu: Apesar de todo o meu empenho, especialmente no último mês, pra transformar boa parte do que eu sofri e vivi até aqui algum tipo de arte, enfim, maneiras de sublimar o pior que eu vivi, e o melhor também, ainda considero minha vida atual um inferno.
Mas eu gosto de um pensamento, não sei de qual autoria, que diz algo como "é preciso que alguém passe pelo seu próprio calvário, e pelas regiões mais profundas, sufocantes, e dolorosas do inferno, pra fazer por merecer sua entrada no paraíso". Acho que é assim que enxergo minha vida agora. Eu preciso viver isto, esse inferno todo, assim como ela precisa passar por todos aqueles problemas que vem enfrentando com ele, pra garantirmos nosso paraíso lá adiante.
Mim: E quando você acha que isto vai terminar?
Eu: Sinceramente não sei, mas quero acelerar o máximo que puder a minha estadia nesse antro de sofrimento e dor. Eu quero encarar meu próprio inferno de frente, meu próprio "monstro interior" e todas as coisas que vierem junto com ele. Sejam elas um vazio devorador de luzes, ou lembranças, boas e ruins, tão cortantes como giletes afiados chovendo na superfície e nas profundezas da minha alma. Enfim, não me importo com o que eu vou encontrar lá dentro daquele quarto escuro, eu quero entrar logo nele, e sair de lá tendo visto e revivido tudo que eu preciso ver e reviver pra encontrar a força que eu preciso reunir pra conviver comigo mesmo, e aprender finalmente a me amar independente de qualquer pessoa. Eu quero renascer.
Mim: E como pretende fazer isto?
Eu: Simples. Eu vou pedir pra minha psicóloga me ajudar no processo. Me ensinar o caminho certo até aquela porta. Até o quarto escuro, a Caixa de Pandora que eu guardo no recanto mais abissal e atemorizante que guardo dentro de mim. E eu quero começar logo. Se não for hoje, que seja na próxima semana, em nossa próxima sessão.
Mim: É isto que você vai dizer pra ela quando se encontrarem amanhã?
Eu: Você ainda não entendeu? Isto aqui não está acontecendo num "ontem", está acontecendo agora. Eu estou conversando contigo ao mesmo tempo em que estou lendo nossa conversa pra ela. E sabe o que vai acontecer agora?
Mim: Acho melhor você responder logo.
Eu: Vou me virar pra ela e dizer: "Márcia, eu quero renascer, e não posso mais adiar isto!"
DEFINITIVAMENTE NÃO É O FIM...