Mostrando postagens com marcador árvores da memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador árvores da memória. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de novembro de 2009

As Árvores da Memória - Capítulo 9: "Casa na Árvore"

Photobucket

Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links abaixo para atualizar-se:


Não havia nenhuma boca disponível pra saciar Paula. Diante da Árvore dos Beijos, ela teria que se contentar com lembranças. Necessitava de outro. Precisava sentir o toque íntimo de alguém em seus lábios. Por isto logo estendeu a mão. Quando estava a milímetros de tocar outra folha, os degraus piscaram...

- Que história é esta agora?! Deu pau nessas coisas?

Procurou não dar importância pro fato, e voltou sua atenção para a folha. Daí começaram os sons de teclas de piano, vindos também dos degraus.

- Tá bem, tá bem! Já entendi! - eles piscavam numa seqüência que saía de seus pés e ia até a próxima árvore - Vou fazer o que vocês querem, ok? Pelo jeito vocês entendem mais de onde estou, e pra onde preciso ir, do que eu... (céus, como você conseguiu chegar a uma conclusão tão óbvia, Paula? tô impressionada...)

Caminhou meio emburrada até a próxima árvore. "Hunf! Tanto faz. Não seria de verdade mesmo. Só uma lembrança de algo que já se foi." Diante dela lançou um olhar meio desleixado, distraído... "Mas foi tão real! Foi como se eu estivesse lá! Não tem diferença nenhuma! Hmm?! O que tá escrito ali?"

AMORES

- É, parece que no final das contas foi uma boa idéia seguir vocês - disse Paula ao degrau onde pisava, exibia um sorriso satisfeito no rosto - Vamos ver o que você tem, minha querida - empunhou o degrau solto que ainda carregava consigo e...

CRÁSSSS!!!!

Mais chuva de cacos, mais degraus brotando do ar, mais novos passos dados rumo a velhas recordações.

A primeira folha que viu dizia: CASA NA ÁRVORE

Não precisou tocá-la pra sentir um arrepio quente que percorreu seu corpo da cabeça aos pés. Por impulso levou seu punho até a curva entre os seios. O gesto durou uns poucos segundos, e Paula nem deu importância pra ele. Mas algo dizia que era aquela, e seus dedos curiosos foram até ela. Tocou-a e leu novamente a frase.

Sentiu-se levada por um vento doce e suave. Havia algo diferente naquela nova incursão de sua consciência. Como se o caminho até aquela lembrança fosse feito de uma pavimentação especial. Pareceu demorar-se mais naquela viagem, ao contrário das outras, que se deram de maneira súbita.

Quando finalmente chegou estava concentrada, debruçada numa folha de papel, onde desenhava um jardim muito colorido com giz de cera. Podia ver outros espalhados na mesa. Por ali passava uma brisa. Som de folhas se tocando. Sentia uma grama macia sob a sola dos pés descalços. Era um dia ensolarada, mas não quente. Era um bom dia para...

- Olha! - um borrão multicolorido invadiu seu campo de visão.
- Aaaai!! - seu coração disparou. Olhou pro lado, e viu um menino, segurando uma folha de papel com um desenho pro qual não deu tanta atenção quanto para o rosto de quem a segurava - Vai dar susto na sua avó, Felipe! - ele devia ter uns oito anos.
- Hahahaha! Você é medrosa demais!
- Medrosa nada, seu bobão! Eu tava desenhando! Não tava esperando que você aparecesse!
- Tá desenhando o quê? - e espichou o pescoço na direção da folha sobre a mesa.

Paula pulou sobre o desenho, como se ele fosse uma bomba prestes a explodir, e ela uma heróina tentando impedir que a onda de choque da explosão se espalhasse.

- Não olha! Não gosto que ninguém olhe meus desenhos antes de terminar!
- Ah, que besteira!
- Besteira nada, tá?
- Tá bom. Olha os meus então! Aqui ó! - e estendeu as folhas para Paula.

Antes de pegá-las virou pra baixo a folha com o seu desenho sobre a mesa. Não tinha reparado antes, mas agora podia notar que eram mãos de criança as que pegavam as folhas de Felipe. Pelo tamanho era da mesma idade que o menino.

Olhou com curiosidade para o primeiro desenho:

Photobucket

- Que casa estranha...
- É uma casa na árvore.
- Casa na árvore? - olhou um tanto descrente para Felipe.
- Aham! Tive a idéia ontem, e desenhei. Esse é só o primeiro. Tem mais nas outras folhas! Olha!

Photobucket

- Essa é a parte de trás dela.
- Que janela grande! - disse Paula, franzindo a testa com um ar de séria. Passou pra folha seguinte.

Photobucket

- Essa aí é ela de lado.
- E que escada é essa que vai pro teto?
- Ah, é pra gente subir e tomar sol. Passa pra próxima pra você ver o teto!

Photobucket

- Nossa..! É um teto solar?
- Aham! - e o sorriso de Felipe ia de orelha a orelha - Legal, né?
- É sim! - e passou pra folha seguinte.

Photobucket


- O que é isto?!
- É ela vista de baixo!
- Puxa, Felipe! Você desenhou ela de todos os lados!
- Claro que sim! Eu pensei em tudo!
- E esse pontinho cinza aqui é o quê?
- Ué, pensei que você já tinha descoberto. É um daqueles canos de metal que os bombeiros usam pra descer lá de cima, onde eles ficam quando não tem nada pegando fogo, até os caminhões. A gente sobe pela escada e desce por ele!
- Ah tá! Legal! Deve ser divertido fazer isto!
- É sim! Por isto que vai ter! Olha a próxima! Olha a próxima!
- Espera! - e passou a folha pra trás.

Photobucket

- Essa é a sala de visitas e de jogos.
- Mas só tem uma mesinha no meio... Cadê os jogos?
- Isso aí é um tabuleiro de damas! E os outros jogos depois eu desenho.
- Então tá! - próxima folha.

Photobucket

- Essa aí é a janelona da parte de trás, só que do lado de dentro.
- E que negócio é esse no chão?
- É uma passagem secreta. Daqui a pouco você descobre pra onde vai.
- Certo.

Photobucket


- O que é isto?
- Os cofres onde eu vou guardar meu dinheiro!
- Ah, até parece que você vai precisar desse tanto de cofre!
- Vou sim! Eu vou ganhar muito dinheiro quando for grande!
- Ah é? E vai ganhar como?
- Com a minha fábrica de brinquedos! Eu vou fazer um montão de brinquedos, e a minha casa vai ser cheia deles! E com o dinheiro que eu ganhar eu vou comprar mais um monte de revistinhas e doces.
- Sei, sei... Deixa eu ver a próxima.

Photobucket

- E isto aqui, o que é?
- É pra guardar o montão de doces que vou comprar.
- Você vai é ficar cheio de bichinhos nos dentes.
- Não vou não! Eu escovo eles toda vez que eu como.
- Então você vai ficar gordo que nem o Fábio, de tanto comer doce!
- É só eu correr bastante que eu não fico!
- Então tá, né... - e foi adiante.

Photobucket

- E aqui?
- É o quarto de visitas.
- Nossa, que casa na árvore grande essa!
- E você ainda nem viu meu quarto! - era notável a empolgação na voz de Felipe.

Photobucket

- Esse aí é um pedaço dele.
- Essa mesinha com as cadeiras é pra quê?
- Pra eu sentar com meus amigos pra gente fazer desenhos e ler revistinhas.
- E isso aqui do lado é um guarda-roupa?
- Aham!
- E o que é isto dentro da porta?!
- É um banheiro!
- Ah, Felipe! Onde já se viu banheiro dentro do guarda-roupa?
- Ué, o meu vai ser! Já morei numa casa assim! Era bem legal!
- Que coisa mais esquisita!
- É nada, você que é boba!
- Não sou não! Bobo é você!
- Tá, pára de falar e continua olhando.
- Eu paro quando EU quiser, tá?
- Tá bem.
- Hunf..!
- Já parou?
- Já...

Photobucket


- E isso aqui?
- É a estante onde eu vou guardar minhas revistinhas. Quando eu for grande vou ter um punhado delas!
- Você só sabe falar dessas revistinhas suas.
- É porque elas são muito legais! E tem uns desenhos fera!
- Hmmm...

Photobucket

- E que lugar é esse?
- Meu laboratório.
- Laboratório, Felipe?! Pra quê?!
- Pra estudar insetos, ué!
- E pra que você vai estudar insetos?! Eles são nojentos! Menos a joaninha.
- São nada! Eles são legais. Teve uma vez que eu joguei um monte de açúcar dentro de um potinho e fiquei esperando até um mosquito entrar. Daí eu fechei correndo com a tampa e fiquei olhando ele lá dentro. Foi divertido!
- Não foi não! Tadinho do mosquito!
- Tadinho nada! Se eu fosse um mosquito eu ia adorar ficar preso num lugar com um montão de açúcar. E ele ficava toda hora lambendo as pedrinhas de açúcar.
- Mas ele fica sem ar lá dentro! Ele morre!
- É por isto que eu fiz uns furinhos na tampa.
- Ah tá! Então não tem problema.
- Viu só? Eu penso em tudo!

Paula não deu nem bola pro orgulho de Felipe e passou pra próxima folha:

Photobucket

- Que lugar mais maluco!
- É a parede do meu quarto onde eu vou desenhar tudo que eu quiser. Vai ficar bem fera!
- Eu achei muito esquisita. E o que é isto debaixo da cama?!
- Olha a próxima folha que você vai descobrir.

Photobucket

- Hã?! Isso aqui é um porão?
- Isso mesmo! - e novamente surgiu aquele sorrisão satisfeito.
- Mas Felipe! Onde já se viu casa na árvore com porão?
- Que que tem? A minha vai ter, ué! Ela vai ser a melhor casa na árvore de todas! Um dia a gente vai se casar, e eu vou construir essa casa, e a gente vai morar nela pra sempre!
- Hahaha! Seu bobo! Quem disse que a gente vai se casar?
- Eu, ué!
- E se eu não quiser?
- Você vai querer sim, porque eu sou o menino mais legal do bairro.
- É, isso você é mesmo.
- Viu? E você é a menina mais legal que eu conheço.
- Sou é?
- Aham.
- Hmmm... E esse porão com essa mesa e um monte de cadeiras, vai servir pra quê?
- Pras reuniões do meu clubinho de amigos.
- Mas precisa ser debaixo da sua cama?
- É, porque tem que ser num lugar secreto.
- Por quê?
- Porque a gente não quer que ninguém descubra onde a gente faz reunião.
- Sei... Mas... Espera aí! Se a gente vai se casar, e a casa vai ser nossa, a gente não vai dormir no mesmo quarto, que nem a minha mãe e o meu pai?
- Vai sim.
- Então pra que você vai ter um quarto só pra você?
- Pra guardar meus brinquedos e minhas revistinhas, ué! Se você quiser pode ter um só seu também.
- Hmmm... Vou pensar.
- Agora dá aqui que eu vou fazer o desenho do nosso quarto! - e tomou de sopetão as folhas das mãos de Paula - Só tá faltando ele. Vou desenhar nós dois juntos na janela. - fez uma pausa enquanto botava as folhas em ordem. Depois deu uma olhada rápida para Paula, e logo em seguida pra mesa onde estava - E deixa eu ver esse desenho seu!

Felipe arrancou a folha da mesa e saiu correndo.

- Devolve, Felipe!

Paula levantou num pulo e correu atrás dele pelo jardim afora, sem nem se tocar que ainda estava descalça.

- Devolve aqui, seu chato! Não é pra ver ainda! Você é um chato, tá me ouvindo? Não é o menino mais legal do bairro coisa nenhuma! O Fábio é mais legal que você!
- É nada! - gritou ele lá do poste de luz - O Fábio é um catarrento!
- Vou contar pra sua mãe que você tá falando nome feio!
- E ele também tem um buzanfão desse tamanhão! E deve sair um cocozão enorme de...!
- Ai, que nojo! Boca suja! Vou lavar sua boca com sabão!
- Vai ter que me pegar pri-mei-roooo!! Hahaha! - e balançava a folha com o desenho de Paula no ar.
- Me devolve, Felipe! - gritava Paula de olhos fechados e batendo um pé no chão.
- Vem pegar!
- Aaaaaaah!!! - e disparou até ele, que saiu correndo, mas não tanto quanto Paula.

BUMP! fez Paula quando pulou em cima de Felipe. Folhas voaram pra todos os lados. Felipe não parava de rir, mesmo com Paula caída em cima dele.

- Tá rindo do que, seu bobo?!!
- Hahaha! De você! Tá vermelhinha!
- Eu... - e olhou praquele menino dono de um sorriso com dentes pequenos, espertos olhos castanhos, o cabelo cheio e liso, quase loiro, espalhado sobre a grama - Tô vermelha de raiva de você!
- Tá vermelha de ver-go-nha! Hahaha! - e a barriga dele subia e descia com a risada.
- Bobo! - deu um tapa, bem de leve, na bochecha dele - Não tô achando graça nenhuma!
- Hahaha! Ficou mais vermelha agora! Aqui ó! - e tocou com os indicadores as bochechas de Paula - Bem aqui!
- Bobão! - empurrou as mãos de Felipe pra longe do seu rosto, saiu engatinhando de cima dele - Peguei! - e levantou-se com ar de vitoriosa, erguendo a folha de papel com seu desenho.
- Eu nem ia olhar, sua boba! Tava só brincando! - dizia o garoto enquanto se erguia do chão.
- Hunf!
- A gente continua amigo, né? - perguntou Felipe, enquanto espanava com as mãos os pedacinhos de grama e terra de sua roupa.
- Não sei!
- Ah, pára! Você sabe que eu sou o menino mais legal do bairro!
- Não é não!
- E você é a menina mais bonita do bairro!

E Paula olhou surpresa pra Felipe, as sobrancelhas bastante erguidas, sem dizer uma palavra. E Felipe olhou pra Paula com o sorriso que ficaria gravado em sua memória mais do que qualquer outra lembrança que tinha dele. Foi a primeira vez que Paula o achou lindo. Na verdade ela sempre achou Felipe bonito, mas não lindo, não do jeito que ela via agora, um jeito especial.

- E a gente vai se casar!

CONTINUA...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 8: "Beijos"

Photobucket
Kiss de Rashomon707


Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links abaixo para atualizar-se:


A pergunta logo dissolveu-se no ar como vapor d'água saindo de bico de chaleira. O motivo: degraus piscando em sua visão periférica. Voltou-se para eles, que continuavam acendendo e apagando como luzes natalinas. "O que significa isto agora?" Em seguida ouviu o barulho de galhos se retorcendo, e folhas farfalhando. Pareciam empurrados pelo vento numa só direção, para adiante, e para cima, exceto pelo fato de que não sentia nem a mais leve brisa passar por ali. "Ela quer que eu prossiga?"

Paula, naturalmente curiosa diante daquele inesperado tom imperativo, resolveu seguir a ordem da árvore e dos degraus. Andou pouco, na verdade até a árvore seguinte, em cuja placa do cubo de vidro que a envolvia estava escrito BEIJOS. Quebrou-o maquinalmente, avançou dois passos, e sem analisar muito as folhas à frente, arrancou uma. Desta vez, antes de ler a frase da frente, olhou o verso:

10 de outubro, com 15 anos, 3 semanas, 1 dia, 6 horas, 47 minutos, 12 segundos

Virou-a uma vez mais, e leu "Primeiro beijo roubado."

Estava nua. De pé. Seu quarto em semi-escuridão, iluminado apenas pelo abajur no canto ao lado da porta. Ainda sentia seu sexo úmido e quente. Ainda estava muito viva em sua memória a loucura que acabara de fazer.

Esperou todos dormirem, ou seja, seus pais, e sua irmã caçula. Cobriu-se da cabeça aos pés com o lençol. Era primavera, mas fazia uma noite quente. O ventilador ligado não ajudava muito. Resolveu tirar toda a roupa por debaixo do lençol, fez um embrulho com ela, achatou-o e enfiou debaixo do travesseiro. Deu uma sensação gostosa nela, de leveza e... O tecido fino, tocando de leve sua pele... Ondulando sobre seu corpo com a ajuda do vento que vinha do ventilador... Arrepiou-se toda, depois sentiu um calor em seu ventre, um calor que vinha dela, de dentro dela, e não de fora. Lembrou daquelas meninas chatas e implicantes da escola, que ficavam toda hora enchendo a cabeça dela com uma pergunta incômoda. "Você já se tocou?" E elas não se contentavam em apenas dizer, faziam questão de mostrar como, enfiando a mão por dentro da calça, se contorcendo e gemendo.

Sim, ela já havia se tocado, algumas vezes enquanto tomava banho. Era gostoso, mas geralmente não demorava tanto tempo. Mas fazer aquilo a incomodava, porque sentia que estava se tornando como aquelas meninas da escola, mesmo que só por alguns minutos. E Paula achava que elas pareciam todas muito... Ela diria putas hoje, mas naquela época não lhe ocorreu nenhuma palavra que as definisse tão bem.

E naquela noite, de madrugada, debaixo do lençol, a vontade de tocar-se era maior do que em toda as vezes anteriores. E foi o que ela fez, e continuou fazendo isto por muito tempo, até seu corpo tremer, e gotículas de suor brotarem de cada poro, ensopando o lençol, o colchão, e fazendo seu sexo ficar muito úmido... E então... Então veio a verdadeira loucura...

Sua excitação era tamanha que já não sabia mais o que fazer. Continuar naquela espécie de dança estranha com suas mãos não fazia sentido. Ela precisava extravasar aquele desejo todo de outra forma, e por isto, num impulso, jogou o lençol para o lado, levantou-se num pulo, e ficou de pé, descalça e nua sobre o piso frio de ardósia, ofegante, olhando sua irmã, que dormia tranqüilamente na cama ao lado da sua. Na verdade não era bem pra sua irmã que ela olhava, mas para um ponto em especial dela: sua boca. Seus lábios carnudos entreabertos, inspirando e expirando, inspirando e expirando...

Trêmula de ansiedade, medo, desespero, desejo, Paula lambeu seus lábios, agachou-se lentamente ao lado da cama da irmã, mirou aqueles olhos fechados e pacíficos, mergulhados num sono profundo, voltou a olhar aquela boca que parecia convidá-la, e logo depois não viu mais nada. Só sentiu sua boca tocando a da irmã de um jeito totalmente desajeitado, fez menção de abrir e fechar seus lábios e... Não passou disto. Logo em seguida recuou.

Estava confusa agora. Foi uma sensação estranha. Pareceu que tinha beijado uma Geleinha, tamanha era a flacidez daqueles lábios.

E foi assim que Paula descobriu quão brochante era um beijo não correspondido...

Largou a folha branca. Estava novamente diante da árvore de memórias.

"Tem horas que não dá pra acreditar nas coisas que eu já fiz..." Estava excitada. Não demorou muito até pegar outra folha onde leu "Beijo atrapalhado."

Acabara de chegar na casa da tia. Era véspera da reveillon. Os parentes ainda estavam chegando pra festa da virada. Beijo na bochecha de um, beijo na bochecha de outro. Chegou a vez dos filhos adotivos de uma prima de sua mãe.

Sabe, aquele negócio de beijo pra lá, beijo pra cá, pode mesmo atordoar uma pessoa que não está acostumada com esse tipo de coisa todos os dias, de modos que Paula, quando abaixou-se na direção do rosto de um dos meninos, cometeu um erro de cálculo na hora de decidir em qual direção virar sua cabeça e então... Seus lábios se tocaram, suas bochechas ficaram coradas segundos depois, um sorriso nervoso e constrangido abriu-se em sua boca recém-tocada, e tudo que ela conseguia pensar naquela hora era "Não sou mais BV! Não sou mais BV! Que jeito ridículo de deixar de ser!! E eu provavelmente DESVIRGINEI A BOCA DESSE PIRRALHO TAMBÉM!!!"

Paula largou a folha quando desatou a rir de si mesma. Olhando praquele dia agora, tudo parecia ainda mais cômico.

E embalada por aquele divertimento, arrancou outra folha de um jeito meio desleixado, e leu "O primeiro beijo (oficial)."

Estava sentada na cama, sentia um friozinho na barriga, mãos e pés tremendo. Na verdade ela inteira parecia tremer. Sempre fora muito ansiosa, mas aquele com certeza era seu recorde de ansiedade. Já devia fazer quase uma hora desde que começaram a conversa. Agora finalmente havia chegado aquele momento em que ambos não sabiam mais o que dizer ao outro, e tudo que restava era pensar num jeito de preencher aquele silêncio. "Vai, diz! Diz logo, sua idiota!", dizia sua consciência, e ela disse:

- Ro...
- Hm?!
- Me beija!

E dali em diante o mundo inteiro pareceu desacelerar. Sentiu a mão dele afundar no colchão, amassar o lençol enquanto inclinava-se pra ela. Sentiu os dedos de sua mão direita tocando de leve sua bochecha, e os da esquerda mergulhando em seus cabelos. Fechou os olhos pra sentir tudo ainda mais forte, e logo depois sentiu lábios pousando nos seus, caminhando pacientemente sobre eles, acariciando-os, como que medindo cada sulco de cada dobrinha que eles faziam. E quando pareceram satisfeitos, algo úmido entrou leeentamente por sua boca entreaberta, umedecendo-a ainda mais, deslizando sobre ela, e depois dentro, como um patinador dançando no gelo, em movimentos suaves, amplos. Aos poucos foi ousando penetrar mais alguns milímetros, até tocar-lhe o ponto de encontro entre a boca e a gengiva, o que a fez sentir um calor percorrer-lhe a espinha de cima a baixo, concentrando-se no ventre, e descendo aos poucos até seu sexo. Aquela boca parecia beijar-lhe toda. E era uma sensação tão deliciosa, que ela preferia que durasse uma noite inteira, para que não esquecesse daquilo nunca. Mas tudo durou não mais que 2 minutos, 2 inesquecíveis minutos. Foi pouco comparado aos beijos longos que trocaria com Rogério depois daqueles. Beijos que muitas vezes chegavam a quase 10 minutos, tamanha era sua fome pela boca dele.

Ele a ensinou a beijar, e ela não se cansava de tentar aperfeiçoar a técnica.

Largou a folha. Estava sedenta. "O que eu não daria por uma boca agora..."


CONTINUA...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 7


Blocks de Jennifer Davis


Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links abaixo para atualizar-se:
1º capítulo | 2º capítulo | 3º capítulo | 4º capítulo | 5º capítulo | 6º capítulo



Viu-se em uma ampla varanda, toda cercada de vidro. Havia muitas plantas espalhadas por ela. Samambaias de três tipos, um coqueirinho, duas orquídeas, dezenas de violetas roxas, rosadas e brancas. Ao seu lado uma garotinha, que aparentava uns sete anos, brincava sentada no chão com bloquinhos de madeira que imitavam tijolos. Havia dezenas deles espalhados à frente de suas pernas abertas em arco. Sentada no piso, construía um castelo. Uma boneca de plástico estava sentada, recostada na parede de frente pra menina.

- Só mais um pouquinho e eu termino, princesinha! - tinha os cabelos castanhos, ondulados, pele rosada. Usava um vestido bege, e um par de sandálias azuis com fivelas.
- Tô com saudades da Lúcia... - sua voz era de menina. Devia ter seus nove anos, a julgar pelo tamanho das mãos, que repousavam sobre o encosto da varanda, cuja parede subia até cerca de um metro e meio. Estava ajoelhada sobre uma cadeira de madeira azul. Olhava os carros passando pela rua, a árvore que fazia sombra na varanda, e o movimento do supermercado na esquina que formava uma diagonal com a de sua casa. Não conseguia decidir onde fixar seus olhos - Essa casa é tão grande! Tem o balanço no quintal, e o banheiro escondido dentro do guarda-roupas. Ia ser muito legal mostrar esses lugares pra Lúcia. E pra Marcinha! Sinto falta dela também.
- É, ia ser divertido se elas viessem pra cá. - terminou de montar a torre central.
- Se não fosse tão difícil pra elas viajarem...
- É... - botou o segundo bloco da ponte dupla.
- Nosso quarto é tão grande! Dava pra brincar muito lá dentro.
- A tampa de privada de vidro com a borboleta dentro é tão bonita! Elas iam gostar de ver. - começou a construir o muro da biblioteca.
- É. E também é legal olhar a rua pela janela do banheiro enquanto a gente toma banho.
- Uhum! O Felipe também ia gostar bastante do balanço - estava na metade do muro.
- E o Fábio e o Douglas iam adorar o fliperama lá da praça!
- O Sílvio e o Leo também! - terminou o muro.
- Aham! E a Gisele ia gostar muito do jardim lá do centro, principalmente dos arcos de flores!
- E acho que todo mundo ia querer andar de pedalinho lá na lagoa. - começou a torre direita.
- É, todo mundo ia querer... - três garotinhas passavam na calçada do outro lado da rua. Riam muito, cochichando entre elas. Uma abraçava uma boneca de pano, outra carregava um caderno rosa cheio de adesivos brilhantes, e a terceira levava uma bolsinha branca com detalhes azuis nas costas. - Queria que todos estivessem aqui!

Piscou, e no momento seguinte estava de volta ao degrau vermelho. Virou a folha e leu em seu verso:


18 de setembro, com 9 anos, 1 semana, 10 horas, 13 minutos, 26 segundos


"A Cidade Ideal..." Um sorriso triste e contido formou-se. "Apesar de tudo, era bom..."

Esqueceu-se da folha, e soltou-a no abismo branco sem dar muita bola. Vagou com os olhos por poucos segundos sobre o aglomerado de folhas brancas à sua frente, e parou com eles sobre o portal vermelho do qual saía a árvore. Notou que ela prosseguia longamente pra dentro dele. "O que será que existe do outro lado?"


CONTINUA...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 6


Trees in Snow de Pnewbery


Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links abaixo para atualizar-se:
1º capítulo | 2º capítulo | 3º capítulo | 4º capítulo | 5º capítulo



Voltou seus olhos mais uma vez para a "Árvore das Negações", e começou a refletir sobre o que faria a seguir. Pegaria uma nova folha para sorver mais uma de suas lembranças perdidas? Ali era o melhor ponto de partida para dar início à sua busca por si mesma? Não seria mais adequado pensar cuidadosamente antes de dar o próximo passo?

Decidiu voltar para o degrau onde estava quando quebrou o cubo de vidro. Lembrou-se de que havia arrancado o degrau que viria logo após o seu, o qual largara no abismo branco. Por isto ficou confusa quando notou que o degrau vermelho estava lá novamente, como se jamais houvesse saído do lugar. "Auto-reparo?! Estou começando a gostar daqui!" Prosseguiu a subida.

Esquerdo, direito, esquerdo, direito... Braços abertos. Atenção nos degraus e nos pés. Apreciação da paisagem belamente surreal. "Mas... se os degraus são reparados automaticamente... por que o cubo não se reconstruiu? (...) Isto significa que eu recuperei definitivamente o acesso àquela árvore?" Continuou subindo até um novo cubo chamar-lhe a atenção. Era de vidro negro, o que tornava impossível enxergar seu interior. Em todas as suas faces trazia uma placa vermelha com letras brancas dizendo: "REPRIMIDA"

Sentiu-se novamente invadida por uma impulsividade incontrolável, arrancou o degrau vermelho seguinte, e bateu com ele no cubo negro. Nem sequer tremeu, ao contrário de seus braços. Perdeu ligeiramente o equilíbrio, mas não o bastante para derrubá-la. Aproximou os olhos do ponto onde batera, e não viu nenhum arranhão. "Essa proteção toda deve ter um motivo realmente forte." Olhou mais uma vez para a placa vermelha gritando REPRIMIDA em letras quase ofuscantes, e isto foi o suficiente pra retomar a subida, carregando consigo o degrau arrancado.

Agora subia os degraus com menos pressa, observando atentamente o conteúdo dos cubos de vidro transparente, especialmente o que traziam escritos em seus portais. Ao longo da subida passou por árvores que carregavam MEDOS, DESAFETOS, DORES, FILMES, LIVROS, COMIDAS, TEXTURAS, FRASES, CHEIROS, DECEPÇÕES. Parou em DESEJOS. Arrebentou seu cubo, degraus vermelhos brotaram até a árvore deitada em seu interior, caminhou até ela, arrancou uma folha a esmo, e leu: "Queria que todos estivessem aqui!"


CONTINUA...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 5

"Warm Embrace" de Alifsu17

Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links abaixo para atualizar-se:

Tontura. Repuxo. Piscada. Roger. Olhar triste e apaixonado. Noite fria de vento cortante. Rua vazia. Céu com nuvens. Lua minguante. Calçada ao lado de um Monza cinza. Silêncio incômodo.

- Você não pode fazer isto comigo, Paula! Eu ainda te amo! - Roger e seus cabelos castanhos encaracolados, seus olhos azuis-cinzentos, sua pele queimada, sua costumeira camisa de mangas curtas laranja desabotoada por cima de outra branca, calça jeans desbotada e tênis brancos surrados.
- A maioria dos namoros termina assim, Roger. Raramente os dois deixam de amar ao mesmo tempo.
- Mas eu não quero deixar de te amar! Será que não entende?
- Claro que eu entendo! Também não queria parar de amar você, mas aconteceu! Não podemos controlar um sentimento tão além de nós feito o amor! Ele vem quando quer e parte quando esgota.
- Não, isto não é verdade! O amor depende de nós pra existir! Depende de nossa vontade para que persista!
- Não depende, Roger. Infelizmente não. Por mais que eu não queira te magoar, em consideração a quem você foi pra mim, é inevitável. Alguém sempre sofre nessas horas. Eu sofro, não tanto quanto você, mas sofro, como a amiga que quero...
- Não, NÃO!! Por favor, não termina essa frase, tá? (...) Deus, como eu detesto estar vivendo um clichê agora..!
- Não é só um "clichê", Roger, é uma das alternativas que temos, uma que eu não quero desperdiçar.
- Paula, será que é tão difícil entender que... (ó Deus da Criatividade, que me perdoe por dizer isto) a pior coisa que pode acontecer entre nós é continuarmos como amigos?!
- Não, a pior coisa é começarmos a nos odiar, e da minha parte eu desejo sincera e profundamente que isto não aconteça. Não quero alimentar qualquer tipo de sentimento negativo por você.
- E eu sou a última pessoa desse... universo (!) que desejaria esse fim pra nós dois, Paula! Mas não sei se conseguiria evitar que isto acontecesse se você for adiante com isto.
- Roger... (...) "Fim" é uma questão de escolha. Se você realmente acha que o melhor a fazer é terminarmos definitivamente, sem qualquer possibilidade de prosseguirmos nosso relacionamento em outro nível, o da amizade, tudo bem... Eu aceito, muito relutantemente, mas aceito. Se for mesmo o melhor pra você, eu faço esse sacrifício. Só não quero te magoar mais do que já está.
(...)
- Eu... - luz da lua minguante refletindo dolorosamente em seus chorosos olhos - Não sei mais o que te dizer... - nariz começando a escorrer - pra te convencer de não desistir de mim...
- Eu não estou desistindo de você... - os braços dela envolvem-no carinhosa e compassivamente - Só estou te libertando de um relacionamento que não tem mais um futuro da forma como está. Meu amor por você se foi. Eu não te amo mais, Roger! Mas isto não significa que rejeito o que você ainda sente por mim. Eu não posso controlar isto - lágrimas quentes pingam em seus ombros - Não posso tirar esse amor daí de dentro do seu coração. Só posso rezar para que ele não te consuma, não te machuque tanto quanto estou te machucando agora. Eu não conseguiria viver em paz se soubesse que fui responsável por sua ruína.
- Então não seja... - ele finalmente retribui o abraço, apertando-a forte e docemente.
- Isto não é algo que eu posso fazer sozinha. Depende de você também... Especialmente de você! Eu sei que você é forte! Sei que tem condições de lidar com isto, e terminar como um vencedor. Sei porque foi esta força que você tem um dos motivos por eu ter começado a gostar de você. Mas também sei que no começo é difícil nos lembrarmos dessa força que temos em nós, ter acesso a ela e usá-la pra nos fortalecer. Mas passado o choque, você vai encontrar um caminho pra chegar até ela.

Vento frio. Um leve tremor parte dela.

- Eu adoraria continuar te amando, mas... - sente em seu peito o coração de Roger palpitando, bombeando sangue e amor por ele todo, fornecendo o calor que agora usava pra aquecer ambos, protegendo-se do ar gelado daquela triste noite de lua minguante.

Uma lágrima escorre de seu olho direito. Estava quente, deslizando por seu rosto, terminando pendurada no lado direito do queixo. Despencou. Veio o piscar do mundo, a tontura, o repuxo, e o retorno ao degrau vermelho.

Desta vez ainda segurava a folha em sua mão. Sentiu seus olhos molhados: "As lágrimas foram reais... (como se todo o resto não tivesse sido...)"

Observou novamente a folha arrancada, mas não leu a frase. Por mera curiosidade virou-a ao contrário, e para a sua surpresa encontrou isto escrito em seu verso:

13 de dezembro de 2005, com 22 anos, 3 meses, 2 dias, 22 horas, 17 minutos, 55 segundos

Olhou para o alto onde ainda pairava o aglomerado flutuante de árvores contidas em seus respectivos cubos de vidro. "Em que ano estou?! E que lugar é este?!"

[CONTINUA...]

________________________________

Comentários:

É. Agora a personagem começou a realmente se perguntar onde está.

Aélsio Viégas | Email | 17-07-2009 23:09:53