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segunda-feira, 9 de maio de 2011

[CRÍTICAS] Ajuste Final :: Terra de Ninguém :: Bad Guy :: Yojimbo

Ajuste Final (Millers's Crossing, EUA)


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Direção: Joel Coen

Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen

Elenco: John Turturro (Bernie Bernbaum), Steve Buscemi (Mink), Marcia Gay Harden (Verna), Jon Polito (Johnny Caspar), J. E. Freeman (Eddie Dane), Albert Finney (Leo)

Ano de lançamento: 1990

Duração: 115 min.

Sinopse: O mafioso Johnny Caspar (Jon Polito) procura o irlandês Leo (Albert Finney), o poderoso chefão da cidade, para contar-lhe sobre alguns problemas que está tendo com Bernie Bernbaum (John Turturro), o irmão de Verna (Marcia Gay Harden), que vem a ser o interesse romântico de Leo e do seu braço-direito Tommy (Gabriel Byrne).

Sem desconfiar que seu homem de confiança sai com a mulher que ele deseja casar, Leo resolve colocar uma pedra no assunto, para desespero de Caspar, que não vê a hora de tomar o lugar de Leo, inclusive seduzindo seu parceiro Tom.

Flertando com o noir, Ajuste Final foi concebido durante um bloqueio criativo, que acabou sendo sinopse do próximo projeto dos Coen, Barton Fink (1991).


Crítica:
O apuro e virtuosismo técnico dos Coen já é velho conhecido de quem acompanha a carreira dos irmãos. Apesar de ser o 3º filme escrito e dirigido por eles, Ajuste Final ainda hoje é um dos melhores de sua carreira.

Os diálogos são inteligentes, espirituosos, e cheios de ótimas tiradas, e só ganham mais força graças ao ótimo elenco.

Gabriel Bynne interpreta Tommy com segurança, mas quem acaba se destacando é Jon Polito. Fazendo um dos conhecidos tipos excêntricos que habitam a filmografia dos Coen, o ator diverte com sua atuação cheia de caras e bocas. John Turturro novamente não decepciona, se saindo especialmente bem numa das cenas mais tensas do filme. Albert Finney, uma presença imponente em cena, ganha uma das melhores seqüências de ação do longa. Enquanto isto Marcia Gay Harden, que poucas vezes esteve tão linda como neste filme, reforça o clima noir da história, interpretando uma clássica femme fatale.

A montagem é excelente, e torna o ritmo da história fluido, jamais cansando o espectador, além de ser responsável por momentos de puro brilhantismo, como o ataque à casa de Leo, que por si só é uma verdadeira aula de narrativa cinematográfica. Dá vontade de voltar a seqüência diversas vezes só para observar o cuidado com que cada cena foi filmada, cada ângulo escolhido, e cada corte feito com precisão. Além disto as transições de cena são sempre elegantes, criando inspiradas rimas visuais.

Por fim, a trilha sonora de Carter Burwell, apesar de girar toda em torno de um só tema, estabelece um contraste interessante com a violência que surge a todo momento no filme, dando um toque de placidez à história.

Mais uma grande realização dos Coen, e um prazer imenso para os apreciadores da 7ª arte.

Nota: 5 de 5



Terra de Ninguém (Badlands, EUA)


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Direção: Terrence Malick

Roteiro: Terrence Malick

Elenco: Martin Sheen (Kit), Sissy Spacek (Holly), Warren Oates (Pai), Ramon Bieri (Cato)

Ano de lançamento: 1973

Duração: 94 min.

Sinopse: Fort Dupree, Dakota do Sul, 1959. Kit Carruthers (Martin Sheen) é um jovem peão que mata o pai de Holly Sargis (Sissy Spacek), sua namorada de 15 anos, o qual não aprovava o relacionamento deles.

Kit e Holly fogem juntos para Montana, enquanto Carruthers faz mais vítimas, o que faz a polícia ir em seu encalço.


Crítica:

Apesar da premissa, Terra de Ninguém se mostra um roadmovie romântico e agradável de se assistir. Kit desperta simpatia no espectador, graças ao ótimo trabalho de composição feito por Martin Sheen, e ao hábil roteiro de Terrence Malick. Seu assassino é um rapaz com pinta de James Jean, fala mansa e aquele sotaque acaipirado de Dakota do Sul que sempre soa bem aos ouvidos (eu pelo menos acho). Há uma ótima química entre o seu personagem e o de Sissy Spacek, que confere a Holly o ar de inocência ideal para uma garota que ainda preserva um lado infantil em plena adolescência, sempre trazendo um olhar perplexo e fascinado de quem está começando a conhecer o mundo e os mistérios da natureza humana, e uma doçura nos gestos, e na maneira de falar sobre os sentimentos que nutre por Kit, e suas impressões da aventura que vivem juntos.

Claro que não seria um filme de Malick se não houvesse aquela poesia visual que tanto agrada seus apreciadores, e aqui ele não decepciona, com panorâmicas deslumbrantes, tomadas que privilegiam a beleza natural do cenário, e dividem com o espectador a liberdade e arrebatamento sentidos pelo casal de protagonistas em diversos pontos de sua viagem. Acompanhamos de perto a paz momentânea conquistada por Kit e Holly quando constroem uma casa improvisada no meio de uma floresta, onde, num tema recorrente na filmografia do diretor, vemos os personagens tão rodeados pela flora local, que muitas vezes quase se perdem em meio ao emaranhado de galhos, folhas e mato. A sensação de embevecimento e integração com o ambiente é tamanha que, quando seu território é invadido por caçadores de recompensa, não hesitamos em ficar do lado do casal, que mais se assemelham a animais silvestres acuados em seu habitat natural, se defendendo com os recursos que possuem.

É notável o equilíbrio alcançado por Malick, que confere serenidade a uma trama que tinha tudo para ser tomada por uma atmosfera mais sombria. A favor disto há o fato de boa parte da história se passar durante o dia, privilegiando espaços amplos e descampados, com paisagens e cenários quase sempre banhados pela luz do sol.

Os assassinatos surgem não como recurso para chocar o espectador, mas como uma conseqüência natural da situação em que o casal se encontra, e o alívio que sentimos por eles sempre que se livram de mais um empecilho, mesmo que por intermédio da morte de alguém, novamente confirma o cuidado com que os personagens foram construídos e desenvolvidos, a fim de torná-los agradáveis o suficiente para acompanharmos sua jornada.

Neste, que é seu primeiro longa, Terrence Malick já demonstra sua enorme competência e habilidade como contador de histórias, e sua admirável sensibilidade que o leva a capturar belezas singelas, as quais transformam todos os seus filmes em um repositório de encantamentos que leva o espectador a viajar ao lado de seus personagens.

O cinema de Malick traz sempre uma riqueza sensorial e filosófica que jamais carrega consigo um peso puramente intelectual. Está mais para a leveza que invade o ser num estado de contemplação que o faz sentir-se completo por alguns instantes, mesmo ao lado de personagens moralmente reprováveis, mas suficientemente humanos para assumirem sua pequenez e se comoverem com ela.

Nota: 4,0 de 5



Bad Guy (Nabbeun namja, Coréia do Sul)


Direção: Ki-duk Kim

Roteiro: Ki-duk Kim

Elenco: Jae-hyeon Jo (Han-ki), Won Seo (Sun hwa), Yun-tae Kim (Yun-tae), Duek-mun Choi (Myeong-su), Yoon-young Choi (Hyun-ja), Yoo-jin Shin (Min-jung), Jung-young Kim (Eun-hye)

Ano de lançamento: 2001

Duração: 100 min.

Sinopse: Han-ki é um sujeito com cara de poucos amigos que senta-se ao lado uma jovem e bela colegial chamada Sun hwa, num banco de praça em pleno movimentado centro de Seoul. Dali ele passa a observá-la com interesse, apenas para ser desprezado em troca. Não demora muito até chegar o namorado de Sun hwa, que se joga nos braços dele, se afastando de Han-ki com nojo. Mas ele não deixa barato: agarra Sun hwa a força e a beija na boca diante do namorado. A confusão se instala, Han-ki apanha de guardas que intervém na situação, e Sun hwa, exige que ele peça desculpas. Ele se recusa a dizer uma palavra que seja, ela lhe dá um tapa, e cospe em sua cara. No dia seguinte Han-ki decide arruinar a vida da garota. E este é apenas o começo da história.


Crítica:

Kim Ki-Duk é um diretor que parece sentir prazer em dividir opiniões pela natureza quase hermética de suas histórias, que apresentam uma lógica interna um tanto confusa, onde causa e efeito parecem trocar de lugar, dando nós em torno de si mesmos, e deixando o espectador atordoado no final de boa parte de seus filmes.

Não sou profundo conhecedor da obra do diretor, mas dos quatro filmes que assisti dele torna-se evidente sua fixação por personagens de poucas palavras, ou totalmente mudos; o papel que o silêncio têm em suas histórias; e sua obsessão por transformá-las em ciclos que se fecham, e remetem ao início da narrativa, ou a algum ponto anterior dela, gerando paradoxos onde é impossível precisar a causa primeira de determinado evento.

Em Bad Guy o paradoxo se esconde numa foto que Sun Hwa (Won Seo) encontra rasgada em pedaços na praia onde vai com Han-Ki (Jae-hyeon Jo). A confusão que se instala no espectador quando o mistério da foto é revelado pode ser sanada se levarmos em consideração a natureza da relação passivo-agressiva que se estabelece entre eles. A foto seria uma mera projeção do desejo desesperado da garota em reunir os cacos de sua vida, e dar algum sentido a ela.

O filme inteiro é sobre essa busca por algo desejado, embora por vias não convencionais. Sun Hwa perde sua liberdade e seu orgulho por menosprezar um homem que mal conhecida, o qual não mede esforços para demonstrar seu desejo de possuí-la através de gestos agressivos e compensadores de sua deficiência. Já Han-ki, com o orgulho ferido, arma um cruel plano de vingança para Sun Hwa. Ao mesmo tempo que alcança o que tanto desejava, não se permite provar da fruta que tanto ansiava, numa espécie de penitência que aplica a si mesmo, pois no fundo é consciente de sua própria crueldade.

Não demora muito para a história se converter num jogo de provocações erótico-agressivas, em que o caos sentimental, e as emoções em retalhos de ambos transforma seus mundos em uma torrente de violência e sexo movidos puramente por uma impulsividade represada.

Bad Guy é um drama de difícil assimilação, que foge do convencional, mostrando-se um tanto seco na progressão dos eventos, e propondo um enigma a seu espectador com a estranheza de seu final. Vale como um ótimo exercício de interpretação das intenções do diretor, mas mostra-se um tanto irregular em sua execução.

Nota: 3,5 de 5



Yojimbo (Yôjinbô, Japão)


Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Ryûzô Kikushima
Elenco: Toshirô Mifune (Sanjuro Kuwabatake / O Samurai), Tatsuya Nakadai (Unosuke, o pistoleiro), Eijirô Tonô (Jongi, taberneiro), Yôko Tsukasa (Nui), Isuzu Yamada (Orin),
Kyû Sazanka (Ushitora),
Daisuke Katô (Inokichi, o irmão gordo de Ushitora),
Yoshio Tsuchiya (Kohei),
Seizaburô Kawazu (Seibei, operadora do bordel),
Yosuke Natsuki (filho de Kohei)
Ano de lançamento: 1961
Duração: 110 min.
Sinopse: Um habilidoso samurai (Toshirô Mifune) chega a uma cidade que é dominada e aterrorizada por duas gangues rivais, e decide jogar uma contra a outra para libertá-la do domínio dos criminosos.


Crítica:

Este é o 3º filme do Kurosawa que assisto, e novamente chama a atenção todo cuidado com que o diretor escolhe seus enquadramentos, e distribui com elegância os atores pelo cenário, deixando clara a posição de cada um deles no espaço, algo que muitos diretores atuais não têm o cuidado de fazer, o que compromete o entendimento da dinâmica dos atores em cena.

Também há o bom uso de espaços amplos, muitos deles desertos, que põem o indivíduo em perspectiva com o mundo que o cerca, um recurso muito usado por Sergio Leone em seus faroestes, o que deixa clara a influência de Kurosawa em sua obra.

Toshirô Mifune, mais a vontade do que nunca após ter interpretado tantos samurais em sua carreira, compõe um personagem que desperta carisma no espectador conforme seu caráter, bravura, e habilidade no manejo da espada se manifestam.

Mesmo tratando-se do retrato de um período conturbado do Japão, e apesar da premissa, que poderia perfeitamente render um filme com uma abordagem mais séria, Kurosawa é habilidoso em dosar tensão e humor, sem que um prevaleça sobre o outro. As interpretações caricatas contribuem para o tom cômico de algumas cenas que intermeiam combates mais violentos, embora estes surjam mais teatrais do que realistas.

O filme pode incomodar aqueles que esperam uma história mais movimentada, pois sua primeira metade é reservada para a apresentação do cenário e dos personagens, e para mostrar, sem pressa, as estratégias usadas por Sanjuro para acirrar a rivalidade entre as gangues, e acelerar um conflito direto.

A metade final guarda alguns dos melhores momentos, revelando as reais intenções do samurai e, o mais importante, sua humanidade. Neste ponto a seqüência mais emblemática é a fuga de Seijuro do covil onde foi espancado. Realista nos obstátulos enfrentados, e sem façanhas impossíveis, a seqüência expõe a fragilidade do herói, que passa por apuros quando depende apenas de sua arma para defender-se. Assim, quando a vitória vem, seus valores ganham um peso maior, pois os mesmos trazem consigo a superação da fragilidade humana que todos nós partilhamos.

Akira Kurosawa e Toshirô Mifune novamente mostram porque sua longa parceria é considerada uma das melhores da história do cinema.

Nota: 4,5 de 5

segunda-feira, 2 de maio de 2011

[CRÍTICAS] Filmes do Final de Semana

A partir de hoje postarei no blog pequenas críticas de filmes que assisti no final de semana. Pra começar temos: Barton Fink - Delírios de Hollywood, Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo, Rashomon e Minha Amada Imortal.

A idéia é postar semanalmente quatro críticas de uma só vez, mas estou aceitando sugestões para o formato.


Barton Fink - Delírios de Hollywood (Barton Fink, EUA)

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Direção: Joel Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: John Turturro (Barton Fink), John Goodman (Charlie Meadows), July Davis (Audrey Taylor), Michael Lerner (Jack Lipnick), John Mahoney (W. P. Mayhew), Tony Shalholb (Ben Geisler), Steve Buscemi (Chet)
Ano de lançamento: 1991
Duração: 116 min.

Sinopse: Nova York, 1941. Barton Fink (John Turturro) é o dramaturgo do momento e toda a Broadway, além da imprensa, se curva ao seu talento. Como conseqüência Fink vai para Hollywood para escrever um roteiro para um filme B, que aborda a luta livre. Ele se hospeda em Los Angeles no Earle, um hotel de segunda categoria, mas o objetivo de Fink é ficar longe de tudo e todos e se concentrar no seu roteiro. Porém, ele é atingido por um bloqueio de escritor de tal natureza que não consegue escrever nada. Charlie Meadows (John Goodman), seu vizinho, um amigável vendedor de seguros, tenta ajudá-lo, mas diversos acontecimentos bizarros, aliados a um calor infernal, surgem na vida de Barton.

Crítica:
Desde a fotografia primorosa de Roger Deakins, passando pelo visual opressor do hotel onde Fink se hospeda, e o uso inteligente de espaços vazios, e corredores vertiginosos, que ilustram a solidão e desorientação do protagonista num mundo ao qual não está habituado, a direção de Joel Coen funciona magnificamente a favor da história.

Barton Fink é quase um "irmão mais velho" de Adaptação, de Spike Jonze, outro filme excelente sobre um escritor com crise criativa. Neste a abordagem do tema é mais sóbria que naquele roteirizado por Charlie Kaufman, embora tenha sua parcela de delírios, como o subtítulo brasileiro deixa bem claro.

As atuações são muito equilibradas, com destaque para Michael Lerner, como o hilário e verborrágico Jack Lipnick; John Mahoney, que diverte muito em suas poucas partipações como o excêntrico W. P. Mayhew; e John Goodman, que sem muito esforço conquista a simpatia de Barton e do espectador interpretando Charlie Meadows.

Já John Turturro faz um de seus melhores papéis aqui, oscilando com segurança entre as pequenas neuras do personagem e os picos de histerismo, e torna palpável toda a angústia por ele sofrida.

A direção de arte também merece elogios pelo trabalho de recriação de época, e pelo quarto de Fink, que ao longo da história passa a refletir sutilmente o estado interior do personagem, desde os papéis de parede se despregando, até o quadro da moça diante do oceano que ele usa a todo momento buscando recuperar a paz que tanto almeja alcançar consigo mesmo. O design de som também é ótimo, reproduzindo com grande eficácia a tão conhecida sensação de desconforto que sentimos quando um pernilongo vem atrapalhar nosso sono, e os pequenos ruídos que ouvimos à noite quando o "silêncio" impera.

Mais um trabalho de direção exemplar de Joel Coen, que ao lado do irmão prova mais uma vez seu talento em equilibrar comédia e drama, e ainda se permite acrescentar uma dose de suspense que perdura até o último take, que é tanto poético quanto enigmático.

Nota: 4,5 de 5


Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo (Shi gan, Japão e Coréia do Sul)


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Direção: Ki-duk Kim
Roteiro: Ki-duk Kim
Elenco: Jung-woo Ha (Ji-woo), Hyeon-a Seong (See-hee), Park Ji-Yeon (Seh hee - antes da cirurgia), Sung-min Kim (cirurgião plástico)
Ano de lançamento: 2006
Duração: 97 min.

Sinopse: Seh-Hee (Park Ji-Yeon) e Ji-Woo (Jung-Woo Ha) são namorados de longa data. Eles estão apaixonados, mas Seh-Hee tem uma crise de ciúmes quando seu namorado se sente atraído por outra mulher. Ela está convencida de que Ji-Woo perderá o interesse no relacionamento à medida que o tempo for passando. Para prevenir o rompimento, Seh-Hee decide passar secretamente por uma cirurgia plástica, de modo que ela se torne uma "nova mulher" para o namorado. Certo dia ela desaparece do mapa, deixando Ji-Woo magoado. Com o tempo, porém, ele vai se esquecendo de Seh-Hee, e termina por se apaixonar por uma mulher misteriosa, que guarda um segredo que mudará suas vidas.

Crítica:

Sempre admirei a qualidade plástica dos filmes de Ki-duk Kim, e sua capacidade de dizer muito com poucas palavras, como em Casa Vazia, ou no visualmente arrebatador Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. Porém neste filme achei que pesou-lhe um pouco a mão.

A premissa é criativa, e toca sem rodeios num tema contemporâneo e relevante. Além disto Ki-duk faz bom uso de metáforas visuais que ilustram os anseios dos personagens, sendo a mais evidente delas a praia de esculturas, em sua falsa ilusão de imutabilidade diante da passagem do tempo. Tinha tudo para ser um ótimo thriller psicológico, mas...

A recorrência com que alguns cenários são revisitados no decorrer da história acaba tornando-a redundante a partir de um certo ponto. A impressão que o diretor passa é de que ele queria deixar bem claro o significado de determinados cenários para aqueles personagens, como fica evidente nas inúmeras vezes em que aparece a escultura que ilustra o cartaz do filme.

Além disto as interpretações soam exageradas em diversos momentos, o que acaba comprometendo o efeito dramático de algumas cenas.

Reconheço o talento do diretor, e entendo as intenções que o levaram a dirigir este filme, e o que fez com que tomasse certas escolhas, mas a execução me pareceu um tanto desarticulada. Os personagens são frágeis, pouco desenvolvidos, e não cativam. Assim fica difícil se importar com seus dilemas.

Ainda assim, a história funciona como uma boa crítica à superficialidade de grande parte das relações humanas.

Nota: 3 de 5



Rashomon (Rashômon, Japão)

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Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Kazuo Miyagawa, Ryonosuke Akutagawa, Shinobu Hashimoto
Elenco: Minoru Chiaki (Sacerdote), Takashi Shimura (Lenhador), Kichijiro Ueda (Plebeu), Machiko Kyô (Masako Kanasawa), Toshirô Mifune (Tajômaru), Masayuki Mori (Takehiro Kanasawa), Fumiko Honma (Médium), Daisuke Katô (Policial)
Ano de lançamento: 1950
Duração: 88 min.

Sinopse: O filme descreve um estupro e assassinato através dos relatos amplamente divergentes de quatro testemunhas. A história se desvela em flashbacks conforme quatro personagens recontam os eventos de uma tarde em um bosque, através de um flashback dentro de outro, pois os relatos das testemunhas são recontados por um lenhador (Takashi Shimura) e um sacerdote (Minoru Chiaki) para um grosseiro plebeu (Kichijiro Ueda), enquanto eles esperam por uma tempestade em um portal arruinado. Cada história é mutuamente contraditória, deixando o espectador incapaz de determinar a verdade sobre os eventos.

Crítica:
Considerado a obra-prima de Akira Kurosawa, dono de um dos roteiros mais inovadores do cinema, Rashomon é um dos filmes de maior influência da história da 7ª arte, tendo servido de fonte de inspiração tanto para inúmeras produções cinematográficas, como também para séries de TV e até desenhos animados. Com tantos atributos, falar desta obra de Kurosawa se torna uma tarefa que intimida qualquer cinéfilo que se dedica a escrever sobre sua paixão e tem o mínimo de respeito por ela.

A trama é envolvente do início ao fim, explorando múltiplos pontos de vista, e a verdade por trás do assassinado de um samurai. Nela importa mais desvendar os motivos que levaram cada personagem a contar versões contraditórias de um mesmo fato, do que a verdade em si. É interessante notar que cada narrador opta por uma abordagem que, de uma maneira ou de outra, preserve sua honra, uma das virtudes mais valorizadas pelos japoneses.

Já a direção de Kurosawa exibe um virtuosismo que em nenhum momento é usado gratuitamente. Seus travellings surgem na medida certa, embrenhando-se na floresta em que se passa boa parte da trama, sem que a câmera que acompanha toda a ação do elenco se perca em tomadas confusas. Seus ângulos e enquadramentos são determinados com precisão, compondo um mise en scène harmônico. Além disso, durante as cenas dos depoimentos, Kurosawa opta por jamais mostrar os interrogadores, cujas vozes sequer são ouvidas, evidenciando seu desejo de reservar tal papel a nós, espectadores, que acompanhamos as narrativas conflituosas.

É notória ainda a estrutura engenhosa do roteiro, que se desenrola em três níveis distintos: o primeiro sendo aquele em que o padre, o lenhador e o plebeu conversam debaixo do portal Rashomon; enquanto no segundo temos as seqüências que correspondem às narrativas do lenhador e do padre referentes aos interrogatórios; e no terceiro temos as múltiplas versões do crime da floresta. A maneira com que os três são apresentados e se alternam é elegante o bastante para tornar a trama mais intrigante do que confusa (embora haja uma parcela intencional de confusão).

Confesso que as atuações me incomodaram um pouco por seu overacting, mas, levando em conta que a maioria delas estão inseridas nas narrativas apresentadas pelo lenhador e o padre ao plebeu, não se pode descartar a idéia de que as mesmas refletem a impressão dos narradores sobre aqueles personagens, e não os personagens tais como são na realidade.

Seja como for, 61 anos depois, Rashomon permanece como uma obra que merece todo prestígio e respeito que conquistou. Magnum opus de um dos diretores cuja obra todo amante de cinema deve conhecer.

Nota: 5 de 5


Minha Amada Imortal (Immortal Beloved, Reino Unido e EUA)

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Direção: Bernard Rose
Roteiro:
Bernard Rose
Elenco: Gary Oldman (Ludwig van Beethoven), Jeroen Krabbé (Anton Feliz Schindler), Isabella Rossellini (Anna Marie Erdödy), Johanna ter Steege (Johanna Reiss), Marco Hofschneider (Karl van Beethoven), Valeria Golino (Giulietta Guicciardi)
Ano de lançamento: 1994
Duração: 121 min.

Sinopse: Viena, 1827. Ludwig Von Beethoven (Gary Oldman) morre e um grande amigo do compositor, Anton Felix Schindler (Jeroen Krabbé), decide cumprir o último desejo do maestro, que deixava em testamento tudo para a "Amada Imortal", sem especificar o nome desta mulher.

Assim empreende uma jornada tentando localizá-la, encontrando em sua procura um retrato desconhecido de Beethoven.


Crítica:
Possuindo uma estrutura narrativa que lembra a de Cidadão Kane, a trama de Minha Amada Imortal é sustentada pelos depoimentos de personagens que conviveram em algum momento com Ludwig van Beethoven (Gary Oldman), do auge à decadência de sua carreira e de sua saúde.

Além da primorosa direção de arte e figurinos, que recriam com excelência o período histórico em que se passa a trama, a ótima fotografia valoriza os cenários e paisagens, seja realçando a suntuosidade de ambientes requintados, ou refletindo nestes o estado interior do protagonista.

Outra aspecto técnico que se destaca é o design de som, que reproduz com precisão a surdez de Beethoven em diversos momentos da história, levando o espectador a dividir com o personagem desde o aflitivo momento em que sai pelas ruas à procura de Karl (Marco Hofschneider), até o belíssimo instante em que ele demora alguns segundos para se dar conta de que estava sendo aplaudido de pé por uma platéia extasiada.

Usando de maneira inteligente composições do próprio Beethoven em quase toda a trilha sonora, ressaltando a importância de passagens marcantes na vida do compositor, Bernard Rose utiliza com brilhantismo o 2º movimento da 7ª Sinfonia em A maior, op. 92, para pontuar os conflitos entre Beethoven e Johanna (Johanna ter Steege) pela guarda de Karl, cuja profundidade só passamos a entender no último ato do filme. E, claro, a belíssima execução de Ode à Alegria, da 9ª Sinfonia, no momento mais sublime o filme, o qual faz por merecer um parágrafo à parte.

Beethoven sobe ao palco para acompanhar de perto a execução daquele que é o auge de sua obra mais famosa, e a partir daí começa uma alternância entre cenas do teatro onde ele se encontra diante da orquestra, e outras de um episódio marcante de sua infância. Toda a seqüência é de uma beleza arrebatadora, e termina com Beethoven, ainda menino, flutuando sobre a superfície de um lago que reflete o céu noturno acima. A câmera vai se afastando da criança, que se perde no meio das estrelas. O simbolismo é simples e direto: naquele que é seu momento de maior realização, Beethoven rememora o primeiro passo que deu na infância, para longe da pobreza e do sofrimento que o cercavam, e alcança com sua obra um patamar mais elevado, que o faz sentir-se parte de algo maior que ele próprio.

O filme poderia perfeitamente acabar sem prejuízos na cena descrita no parágrafo acima. Eu mesmo a considero o final ideal, mas o diretor preferiu se estender um pouco mais, e amarrar as pontas soltas que espalhou no decorrer da história, as quais são bem resolvidas, e emocionam na medida certa, mas não conseguem se igualar à catarse proporcionada minutos antes.

Com um elenco de interpretações competentes e equilibradas, destaca-se, obviamente, Gary Oldman, que faz um trabalho brilhante, conseguindo retratar bem o efeito dos anos sobre o personagem, e a deterioração física e mental de Beethoven, apoiado pela boa maquiagem. Isabella Rossellini também faz um ótimo trabalho interpretando Anna Marie Erdödy.

Minha Amada Imortal é tanto uma excelente cinebiografia de Beethoven, como um estudo sensível de um personagem cuja obra eternizou-se na consciência coletiva da humanidade. Não há neste mundo quem não conheça uma composição que seja deste gênio que até hoje desperta enorme fascínio, elevando a alma de quem ouve suas composições a dimensões apenas vislumbradas pelo homem em seus sonhos mais sublimes.

Nota: 5 de 5