quinta-feira, 9 de julho de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 4

"Redical Solutions" de Creatyves

Perdeu os primeiros capítulos deste conto? Então clique nos links ao lado para atualizar-se: 1º capítulo | 2º capítulo | 3º capítulo


O primeiro detalhe que chamou sua atenção foi a descoberta de que as folhas brancas presas aos galhos também traziam palavras escritas em si. As letras eram pretas, e no lugar de palavras isoladas formavam frases inteiras. Uma folha em especial destacou-se aos seus olhos. Dizia: "EU NÃO VOU PRO HOSPITAL!"

Resolveu arrancá-la do galho, e para a sua surpresa, tão logo fez isto, uma nova folha, idêntica, carregando em si as mesmas palavras, nasceu instantaneamente no lugar da retirada.

Encarou a folha que tinha na mão, e leu a frase novamente: EU NÃO VOU PRO HOSPITAL! No mesmo instante ficou tonta, sentiu um repuxo na cabeça, o cenário ao redor piscou, e no momento seguinte viu-se em outro lugar: ladrilhos caramelados cobriam o chão. Sobre ele cacos de vidro, uma pequena poça de sangue, na qual uma gota acabava de pingar. Seguiu a trajetória inversa da gota e encontrou sua fonte: um corte na palma de uma mão pequena e rosada. Era sua mão, só que diferente, mais jovem. Um tanto confusa, sentiu uma súbita vontade de gritar "AI!" e gritou. Apertou o corte na mão, procurando conter o sangue que escorria. Em seguida virou a cabeça para a esquerda e, varrendo o cenário com os olhos, viu-se em uma cozinha com paredes cobertas de azulejos amarelos, uma geladeira azul clara combinando com o fogão de mesma cor, uma pia com um balcão ao lado, e um armário embutido embaixo, com três portas de madeira. Bem no centro do cômodo ficava uma mesinha quadrada com quatro cadeiras. Sentiu duas discretas lágrimas desprenderem-se de seus olhos enquanto olhava com eles uma porta, por onde acabara de entrar uma mulher bonita de cabelos ruivos, usando um vestido de alcinhas verde-claro com bolinhas brancas e chinelos de dedo vermelhos. A surpresa e preocupação em seu semblante eram evidentes.

Veio correndo até ela, agachou-se, deixando seus olhos na altura dos dela, carinhosamente pegou a mão cortada, e perguntou:

- Mas o que foi que aconteceu, afinal?!
- Caí com o copo na mão - respondeu, enxugando uma lágrima teimosa.
- Ai, filha! Aposto que fez isto com pressa, como sempre!
- Eu não tava correndo, mãe! Só tropecei e caí!
- E geralmente quem tropeça faz isto porque tá fazendo algo com pressa!
- Ai mãe, não briga comigo agora, tá! O corte tá doendo!
- Eu imagino! Vem cá, vamos jogar uma água nele pra limpar.
- Tá...

Quando sua mãe levantou-se, teve uma idéia melhor de quão jovem estava. Devia estar no limiar entre a infância e a adolescência. Observava todo o cuidadoso ritual de sua mãe lavando sua mão na torneira da pia como se fosse a primeira vez, embora tudo aquilo lhe soasse nostálgico.

Olhou para a janela à esquerda enquanto a mãe enxugava a mão lavada com um pano de prato velho. A janela dava para um quintal gramado. Lá no fundo via uma casinha de cachorro bem debaixo da sombra de uma árvore.

Sentiu um aperto na mão cortada. Sua mãe havia amarrado o pano de prato em torno do corte.

- Pronto! Agora aperta bem firme o pano contra o corte, e continua assim. Eu vou buscar as chaves.
- Que chaves, mãe?!
- As do carro, oras! Vou te levar pro hospital pra cuidarem disto.
- EU NÃO VOU PRO HOSPITAL!
- Como não vai? Tá achando o que, menina? Que esse corte vai fechar sozinho?
- Claro que vai! Do mesmo jeito que fechou aquele que eu fiz no joelho mês passado.
- Filha, esse aí é diferente daquele! É mais fundo!
- É só caprichar mais no curativo!
- E é maior também!
- Aperta mais o esparadrapo que ele fecha direitinho!
- Ah, vai! Deixa de ser teimosa e vamos pra lá! Não custa nada! Eles resolvem isto rapidinho!
- Eu não vou, mãe! Tá resolvido! É só cuidar bem do corte que ele logo fecha. Não tô afim de deixar alguém costurar uma coisinha tão pequena assim. É perda de tempo!
- Ai meu Deus! Era só o que me faltava! Uma filha teimosa até na hora de ser socorrida!

De repente um latido veio do quintal, assustando-a. Parou de apertar a mão machucada. A tontura voltou, sofreu um novo repuxo na cabeça, o cenário mais uma vez piscou, e viu-se novamente sobre o degrau vermelho, diante da árvore de folhas brancas. A mão onde segurava a folha arrancada estava vazia.

- Mãe..? - seus olhos correram turvamente sem rumo sobre as centenas de folhas. Fixou-se em uma que trazia a frase: "Eu não te amo mais, Roger." Retirou-a do galho com certa cautela. Uma nova e idêntica a substituiu de imediato. Olhou atentamente a que segurava, e leu a frase em voz alta.

CONTINUA...

________________________________

Comentários:

Coincidência. Hoje eu estava pensando em nomes que são usados por brasileiros e americanos, e me veio o nome Roger. Hahahaha.

Aélsio Viégas | Email | 17-07-2009 22:56:49

quarta-feira, 8 de julho de 2009

[NEWS] Novo autor

É com orgulho que anuncio a entrada de um novo colaborador no blog, o João Flávio, mais conhecido pela net afora como Quezacolt, ou simplesmente Queza.

Dei total liberdade a ele pra escrever por aqui sobre o assunto que desejar, portanto, caberá ao Queza decidir e, obviamente, a vocês, leitores, opinarem, criticarem, enfim, fazerem o que nós, pretensos escritores, tanto gostamos que façam por nós.

Assim, a partir de hoje, o Existindo na Inexistência deixa de pertencer somente a mim, cedendo espaço ao meu velho amigo Queza.

Se quiserem saber mais sobre ele antes que se apresente oficialmente por aqui é só darem uma olhada em sua ficha no link Sobre os autores, logo abaixo (se forem preguiçosos pra descer até lá é só clicar aqui).

Seja bem-vindo, Queza!

domingo, 5 de julho de 2009

[CRÍTICAS E REVIEW] Watchmen - O Filme; Wolverine - Inimigo de Estado; 24 horas - Final da 7ª temporada

Photobucket
Watchmen - O Filme


E enfim chegou minha hora de assistir a adaptação de uma das HQs que mais aprecio. Depois de meses esperando que saísse uma versão decente do filme, depois de passar esse mesmo tempo frustrado por não tê-lo assistido no cinema, graças ao "pragmatismo" do dono do que tem aqui em Guaxupé, finalmente, aqui estou, uns poucos minutos depois de conferi-lo.

Apesar de toda aquela empolgação que me arrebatava nos meses anteriores ao lançamento do filme ter se dissolvido depois de tanta espera, eu diria que, no final, foi uma boa eu ter assistido Watchmen longe daquela carga de expectativas que rodeavam o filme na época de seu lançamento. Também fiz bem em não chegar perto da versão original da história, apesar de ter comprado, semanas antes do filme sair, a versão encadernada que a Panini lançou (não resisti à tentação de tê-la na minha futura gibiteca). Portanto, assisti o filme como um admirador de sua fonte primeira, mas sem ter lembranças frescas da mesma em minha mente, o que não fez tanta diferença assim, pois já li Watchmen, até onde me lembro, umas três vezes.

Acho que vale a pena explicar aqui que minha relação com Watchmen, os quadrinhos, é um tanto parecida com minha ligação afetiva com De Volta Para o Futuro. Enquanto Watchmen foi a primeira HQ que conseguiu me deixar arrepiado e boqueaberto inumeras vezes enquanto lia aquela preciosidade criativa em 12 edições, a trilogia De Volta Para o Futuro foi a grande responsável por me deixar fascinado por histórias de viajantes no tempo, tanto que até hoje corro atrás de filmes com este tema do mesmo jeito que colecionadores de selos correm atrás dos mais raros. Não faz muito tempo enchi dois DVDs só com filmes do gênero.

Mas, voltemos a Watchmen. Achei-o, de um modo geral, uma ótima adaptação. Faltou um bocado pra atingir a impressionante complexidade da história em quadrinhos em que se baseou, mais pela necessidade de enxugar uma história que se desenvolve ao longo de mais de 40o páginas, cheia de subtramas cuja tarefa de adaptá-las todas para o formato seria impossível dentro de suas limitações.

Sempre falei com meus amigos leitores de quadrinhos que na minha cabeça o formato perfeito pra adaptar Watchmen seria uma mini-série televisiva de alto orçamento em 12 episódios de, no mínimo, uma hora cada. E mesmo assim ainda acabaria ficando alguns detalhes de fora. É um sonho que ainda nutro ver se realizando um dia, mas tenho consciência de que muito provavelmente não passará de um sonho.

Prefiro começar falando do que não gostei no filme. A começar pelo ator que escolheram pra interpretar Ozymandias. Matthew Goode não tem porte físico do original, é até um tanto franzino. Além disto, nos quadrinhos ele transmite um ar de serenidade que não vi no filme, o que contribui para acreditamos na inocência do personagem até a cartada final. Ele não se porta como um alienado com fome de grandeza, como se vê em diversos momentos do filme. Sempre o imaginava, enquanto lia suas falas nas HQs, usando um tom de voz contido, preciso e inalterado, semelhante ao usado pelo intérprete do Dr. Manhattan, este, na minha opinião, perfeitamente adaptado.

A forma como transmitiram para o cinema a "presença" de Manhattan é exemplar. Seu corpo irradiando aquele brilho azulado o tempo todo, o zumbido elétrico constante, seu físico de músculos exageradamente perfeitos e contrastados, como aquelas estátuas de deuses gregos. Merece aplausos a equipe de efeitos especiais.

É Manhattan que protagoniza uma das cenas melhor adaptadas da HQ, que por sua vez é um dos meus seguimentos preferidos da história, aquele em que presenciamos a origem do Dr. Manhattan sendo contada através de sua visão multifacetada do tempo. Confesso que fiquei arrepiado, sentindo um engasgo de choro reprimido na garganta enquanto a assistia, pois, opinião minha, não poderia ter ficado melhor. Se eu fosse o Alan Moore ficaria emocionado com ela. A composição minimalista de Phillip Glass tocando ao fundo... Um momento de genialidade de Zack Snyder, sem dúvida alguma.

Do Rorschach nem vou falar muito, porque já virou praticamente um consenso quão bem interpretado ele foi durante todo o filme por Jackie Earle Haley. Um trabalho brilhante de composição de personagem. A voz rouca, sempre num tom bem baixo? Perfeita!

Outro detalhe que não me agradou no filme, já apontado por muitos críticos, foram as maquiagens de alguns atores simulando envelhecimento. Carla Gugino ficou muito longe de parecer uma idosa de 67 anos. Digamos que o responsável por sua maquiagem foi bonzinho demais a ponto de preservá-la "pegável" mesmo com a idade que alega ter.

Também andei lendo por aí muita gente criticando a máscara que enfiaram em Robert Wisden pra fazê-lo parecer-se com Richard Nixon, com o que não dá pra discordar.

Mas, há muitos aspectos positivos no filme. A trilha sonora é inspirada, conseguindo na maior parte do tempo transmitir o clima de cada década retratada pelos inúmeros flashbacks espalhados pela trama. A recriação dos diversos cenários vistos na HQ, como o centro de Nova York, a oficina do Coruja, o presídio, ficou excelente. Não foi a toa que Dave Gibbons, o desenhista de Watchmen, ficou tão emocionado ao entrar pela primeira vez na Archie, a nave do Coruja, construída para o filme. Deve ter sido uma experiência surreal pisar dentro de sua própria criação.

Desagradou-me um pouco as liberdades tomadas por Snyder ao retratar a força física dos personagens, especialmente na batalha final do Ártico. Eram todos seres humanos normais, pôxa! Não precisava daquele show de saltos impossíveis, e gente quebrando paredes com murros. Mas, fazer o que...

O final... Bem. É como muitos disseram, dentro da lógica adotada pelos roteiristas da adaptação pra construir o plano final do "vilão", funcionou muito bem. Ainda gosto muito do final da HQ, mas o do filme não chegou a comprometer a essência do original (embora ainda acredite que a visão de uma lula gigante em meio aos destroços de Nova York soaria mais impactante que apenas um monte de prédios em pedaços).

Enfim, uma adaptação tão ousada quanto pôde ser num circuito comercial. Violência gráfica e nudez como jamais vistas numa adaptação de quadrinhos pro cinema (fiquei surpreso em ver que o Snyder conseguiu convencer os figurões de seu estúdio de que dava pra mostrar o pinto do Manhattan sem parecer chocante).

Agora é aguardar a versão director's cut, que promete ter 40 minutos a mais, e a inclusão de seguimentos em animação adaptando os famosos Contos do Cargueiro Negro, entre outros detalhes pra fazer os fãs nerds ainda mais felizes. Quando conferi-la voltarei a falar de Watchmen por aqui.


Photobucket

Wolverine: Inimigo do Estado


E cá estou falando de mais um trabalho de Mark Millar, uma semana depois de escrever minhas impressões sobre sua fase no Quarteto Fantástico. Desta vez a pauta é sua fase como escritor da revista mensal de Wolverine, concluída há pouco menos de 4 anos atrás.

Recentemente, embarcando na onda de atenções voltadas para o personagem graças ao lançamento de seu filme solo, a Panini Comics relançou um encadernado contendo todas as doze edições dos dois arcos escritos por Millar e desenhados por John Romita Jr., todas devidamente apresentadas num formato luxuoso, capa dura, papel brilhante, de boa gramatura. Enfim, aquela frescurada toda que adoramos ter para que a história pareça ainda melhor aos nossos olhos. E que história!

A premissa de toda a fase de Millar em Wolverine é muito simples. O Tentáculo e a Hidra, duas organizações criminosas terroristas do Universo Marvel, armam uma emboscada para o Sr. Logan. Já nas primeiras páginas ele é morto (depois de trucidar algumas dezenas de ninjas mortos-vivos, obviamente), e ressuscitado através da magia negra dominada pelos sacerdotes das sombras do Tentáculo. Com isto, agora eles têm total controle sobre Wolverine, transformando-o numa arma humana a seu serviço.

A primeira metade do encadernado compõe o arco que dá nome à edição. É simplesmente Wolverine enfrentando os maiores figurões da sociedade super-heroística da Marvel Comics, em seqüências de luta e ação que conseguem se tornar a cada hora mais empolgantes. Tudo isto muito bem encenado graças aos desenhos competentes e precisos de John Romita Jr.

E aqui eu aproveito pra abrir um parêntese sobre John Romita Jr. Já faz alguns anos que sou implicado com a opinião de alguns amigos meus a respeito desse veterano dos quadrinhos, cujo traço é bastante subestimado. Seus desenhos são de uma simplicidade mais do que apropriada para a cinética constante exigida pela história. Sem detalhes desnecessários. É um traço solto e estilizado na medida certa, sem chamar tanta atenção para si, estabelecendo um equilíbrio apropriado entre o texto e as imagens. Consegue transmitir tanto a brutalidade das seqüências de pancadaria, com músculos selvagemente contraídos, a fúria exalando de olhos e bocas, como a graciosidade dos movimentos ninja de Elektra, em seu passeio seminua numa noite fria em Nova York, antes de ser emboscada por mais um bando de ninjas do Tentáculo. Falando nela, notem o sutil, quase imperceptível, sorriso de fascínio disfarçado estampado no rosto da ex-assassina ao presenciar Wolverine dando cabo de seis agentes da SHIELD ao mesmo tempo. É por detalhes assim, acrescidos em sua interpretação dos roteiros que lhe encarregaram de adaptar, que John Romita Jr. merece uma menção mais do que honrosa aqui.

O mesmo posso dizer de Klaus Janson, o arte-finalista de seus desenhos, dando o peso adequado às cenas, sem excluir a vibração dos traços de Romita. Seu pincel solto, muitas vezes borrado, inquieto, casa perfeitamente com o estilo do desenhista.

E os desenhos de Romita nunca foram tão bem tratados por um colorista como nestas histórias. Toda a atmosfera subentendida nos cenários e na composição das cenas é trazida à tona na colorização digital de Paul Mounts, cujo trabalho atinge o ápice na seqüência introdutória do segundo arco do encadernado, Agente da SHIELD, quando temos um vislumbre da origem do vilão Gargan, treinando com sua espada em meio a folhas secas de uma floresta em pleno outono. O traço de Romita, a arte-final de Janson, e as cores de Mounts combinam de forma sublime nestas páginas da mesma forma que nas páginas finais da história, cuja melancolia não seria tão bem transmitida sem toda a sensibilidade com a qual trabalhou com as cores digitais.

Mas, o foco principal de Millar é a ação praticamente ininterrupta. A intenção do autor ao longo de toda história é facilmente notável: explorar todo o potencial agressivo de Wolverine das mais variadas formas. Ele sabe muito bem o que fazer com um baixinho invocado dotado de fator de cura, esqueleto e garras de adamantium. Seu Wolverine tem tanto os conflitos psicológicos gerados pelo contraste entre a impulsividade de seus instintos animais e seu lado humano, como a cabeça quente de um ex-assassino que só quer saber de derramar o sangue daqueles que ferraram com a sua vida. E esta sede de vingança chega ao melhor momento de toda a trama, tão memorável e clássico quanto a primeira missão solo de Wolverine nos X-Men (quem é leitor de longa data, ou pelo menos conhecedor das fases mais clássicas do grupo, sabe que estou falando do resgate na mansão do Clube do Inferno, durante a Saga da Fênix), quando, numa seqüência de ação e porradaria de tirar o fôlego, ele invade o covil do Tentáculo montado num Sentinela. Cena pra ficar gravada na memória por muito tempo!

Inimigo de Estado é Mark Millar, mais uma vez, escrevendo um novo roteiro de seus sonhos para um filme de super-heróis que dificilmente será adaptado para o cinema. Toda a história transpira "blockbuster", que se um dia for convertida em filme, certamente proporcionará uns bons "orgasmos nérdicos" neste que vos escreve. Mas, enquanto isto não ocorre, dá pra eu me contentar com o bom e velho Millar atacando como escritor de mais uma história exemplar de super-heróis, entregando o que tanto gostamos de ver em matéria de ação e selvageria mutante, sem restrições orçamentárias.


Photobucket

24 horas - 7ª temporada


Não poderia deixar de passar minhas impressões a respeito do final da 7ª temporada de 24 horas, que terminou como sendo a melhor desde o início da série, na minha opinião de admirador da mesma.

Jack Bauer nunca buscou tão intensamente redenção como nesta seqüência de episódios. Nunca esteve tão próximo do fim de sua jornada. Nunca soou tão humano. E apenas por isto os roteiristas do seriado já merecem muitos créditos (assim como Kiefer Sutherland).

Mas, não são apenas estes os seus méritos. Mais contidos que nas temporadas anteriores, os responsáveis por mais este dia na vida do ex-agente da UCT, souberam trabalhar muito bem com as reviravoltas na trama, sem jamais soarem forçados (pelo menos não de maneira gritante o suficiente pra eu me lembrar agora), como ocorreu tantas vezes em temporadas anteriores. E mesmo assim conseguiram ousar no nível a que chegaram as muitas ameaças que surgiram no decorrer da temporada.

Kiefer Sutherland continua a cada dia mais a vontade interpretando Bauer, mas desta vez o destaque ficou pra veterana Cherry Jones, que interpretou a primeira presidente dos Estados Unidos, passando todo ar de formalidade exigido pelo papel, sem com isto ignorar o lado humano de uma mulher na posição em que se encontra. Nos episódios finais da temporada, em especial, ela foi brilhante.

Outro que merece elogios é Sean Callery, responsável pela trilha sonora dos episódios. Não me recordo se foi ele o responsável pela trilha das temporadas anteriores, mas nesta as músicas foram um das grandes responsáveis por estabelecer o clima sombrio e tenso que permeou toda a temporada, outro fator que contribuiu pra torná-la tão envolvente.

Por fim, é reconfortante saber que os criadores da série não se esqueceram da trama maior que vinha se desenvolvendo ao longo das últimas temporadas, envolvendo um grupo de figurões americanos conspirando contra o governo. Finalmente resolveram jogar um pouco mais de luz nisto, e tudo indica que este será o foco principal da próxima temporada de 24 horas, que pelo pouco de informações divulgadas a respeito promete ser a última da série, o que eu sinceramente espero que seja verdade. Jack Bauer merece um pouco de paz, e nós, que o acompanhamos há mais de 7 anos, merecemos um final digno para uma série que nos proporcionou tantas horas de taquicardia, unhas roídas, e ansiedade à flor da pele esperando que a semana seguinte chegasse logo pra termos mais uma hora de mais um longo dia na vida de Jack.

________________________________

Comentários:

Ha! Finalmente viu Watchmen! Eu tive a sorte de vê-lo na tela grande e também mal posso esperar para a director's cut!

Lucil Jr | Email | 05-07-2009 16:53:07

sexta-feira, 3 de julho de 2009

[CONTO] Sara

Recorte de "Tears in my eyes" de Etoile06

Era uma vez uma garota, seu nome era Sara...

"- Eu não suporto mais viver com você!! Eu sou assim! Será que nunca vai entender isto?! Eu SOU assim! Não tem nada de errado comigo! Eu não SINTO que exista algo de errado comigo! Dá pra entender?!"

E a briga durou a noite inteira, terminando com uma batida seca de porta, um barulho que parecia rachar algo dentro de sua alma. Mais tarde, tudo que ela pôde fazer foi:

1) Fechar os olhos bem devagar;
2) Suspirar profundamente;
3) Deitar encolhida sobre a cama;
4) Esforçar-se pra não cair no velho clichê de cair em prantos depois de mais uma briga com a mãe.

Conseguiu livrar-se do 4º item, ao menos por um tempo, mas não pôde evitar uma cena que invadiu sua mente sem pedir licença.

"Olá, Sara com 4 anos..."

Brincava toda feliz com suas bonecas. Mal terminara de aprender a dizer suas primeiras palavras e já dava indícios de que seria uma ótima mãe. Um ano mais tarde as bonecas ficariam obsoletas. Seu irmão nasceria, e seria seu primeiro "filho de verdade". Mas ela não sabia disto naquela ocasião, de modos que as bonecas foram as primeiras a receber aqueles lampejos de um sentimento até então indefinido, ainda sem saber muito bem o que fazer com aquele quentinho gostoso que brotava de seu peito.


"Ela era tão..."

Era uma garota linda. Doze anos de toda a exuberância que aquela idade lhe permitia. Sara não sabia bem como explicar o que estava sentindo por ela. Sua pele estava arrepiada, seu coração acelerado, parecia ter o dobro de seu próprio tamanho, mas sentia-se pelo menos dez vezes mais leve, como se seu corpo inteiro se espalhasse no ar, pegando carona com aquela brisa gostosa que levava até suas narinas aquele perfume. Talvez, se alguém lhe perguntasse naquele momento o que sentia, Sara diria que era vontade de ter aquela beleza toda só pra ela, e encontrar uma forma de fazê-la sentir o quanto era bela, e o quanto havia mexido consigo.


"- Nunca mais se atreva a dizer isto sobre ele!!"

Sua bochecha ainda formigava. Sabia que segundos depois começaria a queimar, a pele a ficar vermelha, inchada. Mas a voz de sua mãe falava mais alto que qualquer coisa que seu corpo tentasse lhe dizer. Era como se pegasse uma parte dela e jogasse contra a parede. Algo de que ela gostava muito. Algo que precisava de certo cuidado na hora de manusear. E ela via aquele algo aos poucos se desfazendo em pedaços, mas ainda conseguia manter-se esperançosa, imaginando que mais tarde aquilo tudo não significaria quase nada.


"Com o tempo eu aprendi que o mais tarde seria sempre adiado..."

Perdeu a conta de quantos copos havia tomado. Foi praticamente um milagre ter conseguido chegar em casa sem abraçar a idéia de permanecer deitada na calçada depois do terceiro tombo que tomou. Sentia a mente anestesiada, insensível a tudo. O corte no joelho, o gosto de cigarro e sexo na boca, aquele cheiro de suor alheio e um ou dois perfumes que definitivamente não eram o dela. No dia seguinte acordaria com mais uma daquelas dores de cabeça que chegava a dar náuseas, uma sensação horrível no peito, uma vontade de chorar um choro que não vinha e afogava, e a certeza de que ainda não conseguira encontrar a estratégia perfeita pra enganar-se totalmente.


"Eu a amo tanto que não saberia nem por onde começar a demonstrar isto..."

... e a olhava com aquele ar de orgulho materno. Mesmo não sendo sua mãe, era como se fosse. Sabia que era apenas sua irmã caçula, mas há muito tempo havia abandonado conceitos que pra ela não significavam quase nada. Amor, no fundo, partia de um só princípio, mesmo que assumisse formas de demonstração tão distintas, a ponto de muitas vezes aproximá-lo perigosamente do ódio. Mas não era o caso. Só desejava nutrir os sonhos doces daquela menina, alimentar aquele sorriso lindo, e vê-la crescer como o ser mais feliz da face da Terra. E só.


"- Sabe, Sara, eu olho pra esses seus olhos cinzentos, que nuns dias parecem de um verde desbotado, e em outros de um azul um tanto incerto, e tudo que vejo por trás deles é um grande enigma. E é por isto que você me fascina tanto."

O rapaz terminou de dizer-lhe as duas frases que ecoariam por sua mente em muitas ocasiões futuras com um sorriso tão enigmático quanto o brilho sereno de seus olhos. Pensaria muito naquelas duas frases, mais do que nele, como se elas guardassem uma verdade que não pertencia a ninguém mais além dela.


"- Ela sempre foi muito dada, sabe? Era algo bonitinho de se ver quando era pequena. Todos achavam uma gracinha aquela meiguice toda, mas depois de um tempo é o tipo de coisa que vai desaparecendo. Acontece com a maioria delas. Mas não com ela! Nãaao! Ela TINHA que ser diferente de todas as outras! E agora ela veio com aquela história absurda de que... (...) O quê?! Como assim é culpa minha?! Vai começar de novo com esse papo de que ela não devia ter ficado comigo desde que nos separamos? (...) Olha aqui, se tem alguém que é culpado nessa história toda é ela! A gente devia ter dado um basta naquilo antes que chegasse a esse ponto!"

Sua vontade era a de tomar o telefone de sua mão e jogar no meio da rua, torcendo para que passasse um caminhão bem na hora, acertando-o em cheio com a roda. Mas tudo que fez foi ouvir a primeira das muitas conversas que seus pais teriam depois da primeira vez que trouxe aquele assunto à tona. Aquela mancha vermelha e sanguínea que turvava pedaços de sua inocência.


"- Shhh! Fica quietinha, tá? Vai terminar logo..."

Suas mãos pequenas, do tamanho de bisnaguinhas Seven Boys, suavam. Uma dor aguda subia lá de baixo, e parecia espalhar-se por ela toda. Sentia um embrulho no estômago, uma vontade de vomitar. Uma saudade imensa de suas bonecas... e dos movimentos líquidos de seu irmãozinho que nem aprendera a chorar dentro daquela barrigona. Imaginava-o chorando por ela, mesmo sem saber ainda como seria seu rosto...


"Você é feia. Sabia? Muito feia. Eu odeio o seu corpo. Não consigo enxergar a beleza que vêem em você. Esses seios enormes, essa barriga... Você não merece nada do que te oferecem. Você..."

Viu a mão delicada surgindo atrás dela, pousando sobre seu ombro nu. Após a mão apareceu o rosto. Sua diva. Sua vida. "Ela é tão linda..." Enlaçou-lhe a barriga com os braços. Aquele toque era seu conforto. Aquele olhar de desejo, vindo dela, por alguns instantes fez com que se esquecesse do que vinha pensando há pouco. "Eu não mereço toda essa beleza... Mas, meu Deus, que isto dure mais esta noite, só esta..." E as duas, nudez com nudez, abraçaram-se, beijaram-se, e amaram-se durante mais aquela madrugada inteira.


"- Ela é louca por ter feito isto! Só pode! PRA QUE tentar acabar com tudo assim? Será que... Será que ela nunca notou o quanto os amigos gostam dela?!"

O suicídio não era novidade para Sara. Já havia se matado de muitas formas. Numa das primeiras cortou os pulsos. Lembrava-se nitidamente de sentir-se leve como um pássaro em pleno vôo enquanto o sangue corria pra fora de seu corpo, e da maneira como a mancha deixada na lâmina do gilete misturou-se com o pouco que escorrera dela quando caiu no chão do banheiro, formando um coração. "Bastante apropriado pra ocasião", pensou ela, "Tão dramática!", acrescentou, imaginando que seria isto o que Hiei diria diante daquela cena, ou talvez Vegeta, ou ambos.

"Aquele frasco inteiro de anti-depressivos com vodka quase deu certo..."

Outra vaga lembrança era a overdose de cocaína que a matou pela quarta ou quinta vez.

Era uma garota de muitas mortes, mesmo que nenhuma houvesse atingido o completo êxito.


"- Tem horas que, lembrando de todas as vezes que você tentou acabar com tudo, Sara, eu me pergunto se na verdade você só quisesse arrumar um jeito de matar apenas uma parte de você que não te agradava."

"Talvez seja isto", respondeu ela na ocasião, "ou talvez eu só não agüente mais viver menos do que eu sou capaz, e ser menos pras pessoas do que eu posso ser", esta última parte ficou só no pensamento.


"- Você precisa acreditar em mim!! Foi isto que aconteceu! Isto tudo tá voltando sem que eu tenha controle! Eu preciso que você acredite em mim!!"

Mas ela não acreditava. Não queria acreditar. Talvez fosse demais pra ela. Talvez ela só quisesse iludir-se um pouco mais, fingindo que sua consciência não a atormentava tanto quanto aquelas lembranças horríveis que assombravam sua filha.

"Eu não posso acreditar em você", parecia ouvir sua mãe lhe dizendo por trás daquele olhar que vestia-se de desprezo por fora, mas que por dentro parecia carregar mais medo do que qualquer outro sentimento simulado. Mas que medo seria aquele?


"- Sara, sabia que você é minha melhor amiga? Você é como uma irmã pra mim. Nem minhas irmãs são tão carinhosas como você é comigo. E eu não consigo enxergar a menor malícia nisto. É só... Não sei... amor puro e inocente!"

Esta era a resposta para o enigma. Aquele que o rapaz de sorriso tímido enxergara nela. Sara nasceu carregando aquilo em seu peito. Aquela coisa que não conseguia definir, mas que parecia implorar pra sair dela. E aos poucos saiu. Inicialmente sob a forma de brincadeiras. Depois veio aquela atração pela beleza de uma garota, sua colega de escola. Mas logo descobriu que não sentia atração apenas por garotas. Garotos também eram o alvo de seus desejos. Tentou se envolver com muitos deles. Achou a maioria brutos demais, sujos, insensíveis. Teve ótimas experiências com alguns poucos. A maioria eram tímidos, sensíveis demais pra serem confundidos com gays, e alguns eram, mas que apesar disto embarcavam na viagem, tamanha era a atração que ela conseguia exercer sobre eles.

"Essa coisa... eu não consigo controlar..."

Mas é assim mesmo, Sara. Pessoas dotadas dessa capacidade de amar sem preconceitos não conseguem controlar essa vontade enorme de espalhar esse amor. É algo que gera desespero muitas vezes.

"Eu não sei fazer com que ela acredite em mim..."

Sei que você sente que ela precisa acreditar, porque é uma parte de você que você sente a necessidade de partilhar com alguém, por mais doloroso e incômodo que seja. Mas você tem seus amigos, e muitos deles te amam tanto como amariam uma irmã que sempre ofereceu a eles a maior atenção e amor que poderia oferecer a alguém. Eles são sua família até mais do que sua própria família sanguínea é pra você.

"Eu nunca me senti bonita... Meu rosto é estranho. Não parece ser nem de homem e nem mulher... É como se até hoje eu não houvesse decidido..."

Mas você É bonita! E nada mais apropriado pra você do que essa beleza andrógina! Até aqui você foi capaz de amar tanto homens como mulheres, e se ofereceu pra eles de corpo e alma. Muitos viram isto como promiscuidade, mas no fundo você sabe que é outra coisa, não?

"Desespero..."

Também. Mas acho que está mais pra um impulso incontrolável de fazer com que aqueles que fazem com que se sinta bem, sintam-se tão bem quanto. Um desejo sem pudores. Uma vontade louca de espalhar esse desejo todo de sentir-se amada amando tanto quanto lhe for possível.

"E mesmo assim eu passei a me destruir..."

Porque ainda há poucos neste mundo capazes de compreender alguém como você. Existem poucos neste mundo prontos pra aceitar um ser tão cheio de um sentimento tão poderoso incapaz de direcioná-lo pra uma só pessoa, para apenas um sexo, seja o seu oposto ou seu igual. Talvez por isto você se sinta mais atraída por mulheres. Elas parecem compreender mais essa necessidade de troca, são mais carinhosas, mais sensíveis a sentimentos muitas vezes vagos, sutis.

"Às vezes eu só queria morrer..."

Não. Você nunca quis isto. Não de verdade. Sua fome de viver é maior do que qualquer desejo de morte. Você só queria acabar com aquelas partes de você que insistem em voltar pra te atormentar em sonhos e flashs de memória que lhe ocorrem sem aviso. Mas você sabe que não é se matando que vai acabar com isto, pelo menos não de uma forma satisfatória. Você sabe que não é se dopando, se enchendo de álcool e drogas a fim de destruir alguns neurônios, que você vai eliminar parte de seu passado.

"Eu me sinto suja por..."

Não se sinta! O que aconteceu com você naqueles dias sombrios de seu passado é motivo para que outras pessoas sintam-se sujas. Você não se ofereceu pra elas, não da forma como elas imaginavam. Como eu disse, este mundo não está totalmente pronto pra tanto amor.

Este mundo não está preparado para você, Sara. Mas algumas pessoas sim. E sinto-me muitíssimo grato por dizer que, apesar de um início tão conturbado para nós, cuja relação chegou ao ponto de considerá-la uma espécie de inimiga, agora posso chamá-la não apenas de amiga, mas de irmã, e dizer, sem hesitar, que eu te amo, Sara. Amo esse amor enorme que você carrega em si. E amo seu grande esforço até aqui de espalhá-lo a quem quer que esteja disposto a recebê-lo, sob quaisquer formas.

E esta noite, você dormirá em paz.

___________________________________

Dedico este conto a uma amiga que é tão fascinante e tão apaixonante como Sara. Esta amiga, eu gostaria de abraçá-la agora, e dizer que a vejo como um exemplo do quanto a gente pode ir além se lutarmos contra o que nos impede de ser mais nós mesmos, e menos daquilo que esperam de nós.

Que ela continue sendo tanto quanto sempre foi, e que eu um dia consiga seguir seu exemplo.

Te amo, minha irmã, minha Sara.

_______________________________________

Comentários:

não tenho palavras pra descrever meus sentimentos ao ler o texto. Vou apenas ressaltar q não fica devendo nada pra ninguém, além de dar um estímulo pra uma mente preguiçosa... Continue assim

Lucão | Email | 03-07-2009 21:39:35

quarta-feira, 1 de julho de 2009

[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 3

"Spiral Stairs L" de nicky2003 (a imagem foi editada)

Se ainda não leu os primeiros capítulos, clique nos links ao lado: 1º capítulo | 2º capítulo

Os degraus formavam uma longa escada que subia em espiral bem aberta. Não havia corrimões nem nada em que pudesse agarrar-se durante a subida. Olhou para baixo e viu uma vastidão branca que se espalhava por todos os lados. Não soube definir se aquilo era melhor ou pior que as piranhas famintas.

O cenário lá no alto era mais animador, embora igualmente incômodo, para não dizer totalmente sem nexo: tufos redondos e brancos envolvidos por cubos de vidro transparente saiam de janelas vermelhas quadradas, dispersos no espaço. De onde estava não soube identificar o que eram os tufos.

O alívio sobreveio quando sentiu mais curiosidade do que medo. Procurou não pensar no que exatamente aconteceria se caísse na direção de toda aquela brancura abaixo e pisou com seu sortudo pé direito no primeiro degrau flutuante. Pareceu-lhe muito firme, mesmo não estando preso a nada sólido. Isto encorajou-a para que desse o passo seguinte. Compensou a falta de corrimões mantendo os braços abertos para equilibrar-se, totalmente atenta a onde pisava.

Sua confiança e segurança aumentavam a casa passo.

Dezenas de degraus depois já podia ver que os tufos eram árvores com galhos lotados de folhas brancas. Havia milhares delas espalhadas pelo espaço, vazando de janelas vermelhas que apontavam para o que parecia uma outra dimensão. Os degraus continuavam subindo por entre aquele verdadeiro arvoredo surrealista, congelado no espaço e no tempo em seu passo de valsa antigravitacional.

Aproximou-se de um dos cubos e notou que em cada um de seus lados trazia pequenas placas vermelhas com letras brancas coladas sobre a superfície. A primeira que conseguiu ler dizia: INACESSÍVEL. Chegando ainda mais perto, reparou que a janela de onde a árvore saia também tinha palavras escritas em branco em todos os quatro lados. Naquela estava escrito: NEGAÇÕES.

Percorreu todo o cubo com os olhos, em busca de algum tipo de entrada, mas logo concluiu que estava hermeticamente lacrado.

Sua intuição alertou-lhe de que ali havia uma pista da qual não podia desistir, algo relativo à sua identidade, e por isto, agindo puramente por impulso, agarrou o degrau acima do seu e, sem saber como, arrancou-o de sua base invisível, segurou-o firme com as duas mãos, com ele traçou um arco para atrás, e por fim acertou-o contra o cubo de vidro, que desfez-se em cacos, caindo como chuva cintilante em direção à brancura sem fim.

Três degraus vermelhos brotaram literalmente do nada no espaço que separava aquele onde mantinha-se de pé e o topo da árvore, que em relação a ela estava deitada. Avançou por eles sem hesitar.

CONTINUA...