domingo, 13 de junho de 2004

[REFLEXÕES] Cacos

Bronken Glass

Sabe, uma forma bem simples, e, na minha opinião, até justa de descrever os seres humanos é a figura de uma taça de vidro.

Não exatamente a taça de vidro inteira, brilhante, e translúcida. Tão transparente e límpida que qualquer um poderia beber nela o mais fino dos vinhos, e a mais pura das águas.

Na verdade a taça intacta seria um representativo do momento anterior ao surgimento da humanidade. É a perfeita imagem daquilo que um dia foi, e que pode deixar de ser a qualquer momento.

E, sendo a taça intacta aquilo que existia antes do ser humano surgir, o momento derradeiro, onde ela, por algum motivo, foi jogada no chão, ou, quem sabe, ela própria se jogou, marca, conseqüentemente, a criação da espécie humana.

Sim, essa seria uma visão bem fiel ao que a raça humana é, na minha humilde opinião, obviamente: cacos de vidro.

Nada mais nada menos do que pedaços de algo que já foi uma forma sublime, pura e límpida, e do qual restou apenas fragmentos disformes, incompletos por si só, rústicos em demasia, se comparados àquilo que um dia compunham, quando unidos.

Mas, não acaba por ai. Cacos, além de figuras que são a própria imagem da imperfeição e "incompletude"humana, também representam perfeitamente um de seus aspectos mais marcantes: a capacidade que eles têm de machucar, caso não sejam manuseados cuidadosa e delicadamente.

E, o pior, conseguem ferir, arranhar, usando um termo mais adequado à esse trecho, uns aos outros, mesmo que sua intenção seja justamente se unirem novamente, talvez tentando, em vão, resgatar parte da forma que originalmente compunham em conjunto.

A história está aí pra provar que no início a gente bem que tentou voltar a trabalhar em equipe, apoiando uns aos outros, em uma tentativa de retornar, mesmo que rusticamente, a um estágio anterior, onde ainda éramos um só objeto de sublimidade ímpar.

Mas, como toda taça de vidro que se quebra, por mais que se tente juntar seus cacos, jamais eles voltarão a formar o objeto puro, intacto, e cheio de virgindade que um dia formavam, quando nem cacos eles, de fato, eram.

Hoje temos esse vasto mundo ao qual todos podem ter acesso através de um computador. Uma rede, novamente tentando unir aqueles que há muito tempo se separaram, na grande e decisiva queda.

Infelizmente, não há cola que suporte por muito tempo cacos que não querem voltar a se unirem.

Perdeu-se a taça, o vinho foi derramado, e nada pode ser feito a esse respeito...

Que os cacos sejam varridos, levados à reciclagem, e uma nova taça seja forjada!


Quem dera fosse tão simples assim...

[DESABAFO] Esponja

Sponge

Às vezes queria ser como uma esponja.

Não uma esponja comum, ou, pelo menos, não em seu "estado natural". Ficar lá sequinha, parada, apenas curtindo seu momento de secura durante boa parte do dia. Talvez até conversando com os mosquitinhos que insistem em ficar pousados nas paredes de azulejo dentro do banheiro (especialmente no box).

Não, isso não seria interessante pra mim. Uma esponja seca é só uma esponja seca, e nada mais além disso.

Queria, sim, ser uma esponja molhada, mas não apenas molhada. Queria ficar embebedada. Encharcada mesmo. Mergulhada na água e me ocupar apenas disso: de absorver toda a água que me fosse possível em meu corpo esponjoso.

Mas, na verdade, o importante não seria nem ser uma esponja, mas ser qualquer coisa que tentasse absorver o meio no qual se enfiou. Absorver o ambiente no qual está. Se entregar a ele.

Minha vontade era justamente me prostituir para o meio, e não absorvê-lo, mas sim deixar que ele me absorva, de forma que eu não mais tenha que me preocupar com o fato de ser uma esponja. Não uma esponja novinha em folha, mas uma esponja suja, fétida, cheia de pêlos e cabelos presos ao meu corpo, e impurezas, e todo o tipo de coisa suja que se impregnou com o tempo em mim.

Assim, ao invés de me prostituir àqueles que não querem de mim nada além de ficarem se esfregando com o meu corpo, de me usarem para seus propósitos mais estúpidos, livrando seus corpos da imundice do mundo ao qual pertencem, me prostituiria para algo mais limpo, mais puro (até certo ponto, claro), e mais agradável para se conviver.

Deixaria, assim, de me lembrar do ser horrendo no qual me transformei com o tempo. Deixaria de me lembrar do ser puro e lindo que um dia fui. Da esponja limpinha, clarinha e cheirosa que o tempo procurou destruir. Que meus donos procuraram usar à exaustão.

E agora estou aqui, desgastado, infeliz, e me sentindo esgotado, como a esponja, que ao tomar consciência de sua inutilidade, preferiu se deixar absorver pela água, e não o contrário, pois não queria mais se sentir esponja, mas sim um nada que o meio absorveu para si, tendo um pouco de importância no fim de sua vida...

sexta-feira, 11 de junho de 2004

[CONTO] A Pena

Sleep in the sand

Meu dono levanta vôo e não demora muito para que eu finalmente me desprenda dele quando começa a bater suas asas.

Lá no alto posso vê-lo se distanciando cada vez mais. Ele parece querer acompanhar o movimento das nuvens, enquanto eu me encontro em queda livre.

Não me sinto preocupada com isso, pois tudo é muito lento pra mim. E isto é bom.

Por tanto tempo sonhei com este dia. Não agüentava mais me sentir presa àquelas asas, tendo que ficar me esfregando o tempo todo com minhas irmãs, conforme o vento batia em nós.

Agora eu finalmente me sinto livre. Sinto que posso poder ir pra qualquer lugar, e com a certeza de que jamais serei obrigada a fazer parte das asas daquele mal-cheiroso.

Mas, no momento em que não consigo mais ver limites à minha frente, não sei exatamente o que fazer...

Por todo esse tempo em que fui prisioneira daquele corpo não havia reparado em como tudo daqui de cima é maior. Mais vasto...

É de se encher os olhos mesmo. E justamente por isso, não sei por onde começar.

Fui abandonada à sorte a partir do momento que me desprendi das asas de meu antigo dono, e talvez não seja uma má idéia deixar que ela decida meu próximo destino.

Assim, penso que o melhor a fazer é deixar que o vento me conduza até o início de minha primeira grande jornada.

Ele me joga de um lado para o outro...

No início é divertido, mas depois, tudo fica entediante demais. Tanto que começo a torcer pra cair em algum lugar logo e descansar.

Felizmente isso não demora muito pra acontecer, e acabo pousando em uma praia, onde fico cravada na areia.

Bem na minha frente posso ver o mar. Se estendendo por um horizonte que parece não ter fim, quase se confundindo com o céu acima dele.

É uma visão pra tirar o fôlego de qualquer um que pare para apreciar a paisagem, ao contrário da maioria, que se contenta apenas em vê-la.

Começo a gostar de ficar aqui, e ver o movimento calmo das ondas, que muitas vezes chegam até mim. E isso é bom, pois já fazia tempo que eu não sentia um pouco de água me banhando, tamanha a falta de higiene de meu ex-dono.

Finalmente, depois de um tempo, também começo a me cansar do lugar. Tudo passa a ficar repetitivo demais, e começo a torcer para que alguém me arranque daqui, e me leve pra outras paragens.

Olho para um lado, e não vejo uma viva alma. Olho para o outro, e nada.

Por fim, olho pro céu, e sinto um vazio dentro de mim. Começo a me lembrar das minhas irmãs, com quem provavelmente nunca mais me encontrarei...

De repente, quando tudo parecia caminhar para um chatíssimo momento de reflexão sobre minha vida como escrava daquele animal nojento, ouço uma grande onda se aproximando. Quando, enfim, volto meu olhar para as águas à minha frente, já é tarde demais...

...

A escuridão se dissipa...

Sinto meu corpo flutuar. As águas me carregam sobre si... Águas que se estendem ao infinito...

Acima vejo o céu, e sinto tédio só de olhá-lo. Abaixo, só há um mar que parece me convidar para conhecê-lo.

Finalmente percebo a ironia da situação: quando alguém como eu teria essa chance?

Na verdade, isso não importa.

Sempre detestei rotina...

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Comentários:

Passa no meu novo blog e deixa comementario!!!! Fui.

Isabelle | Homepage | 12-06-2004 21:39:27
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Oieee seu blog tah mto bonitinho!!!!!Te adoro! Passa no meu blog tb...bjos Calling Kisses

Isabelle | Email | Homepage | 12-06-2004 10:02:04
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Depende muito da rotina, afinal, isso é isso e aquilo é aquilo

Ceres | Homepage | 12-06-2004 03:14:41
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hmmm eu gosto de rotina....

Tabi | Email | 12-06-2004 02:54:27
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mais uma coisa, akele texto q escreveu no blog na anne é muito bom! Parabens! Fui!

4 Gø! 10 | Email | Homepage | 11-06-2004 22:55:38
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Muito legal seu blog! Muito bunito esses textos e as imagens.. Se puder, visite meu blog tbm!...

4 Gø! 10 | Homepage | 11-06-2004 22:44:30
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A rotina cansa mesmo, mas nem sempre conseguimos mudá-la. Belo texto e imagem. beijos e bom fds.

anne | Email | Homepage | 11-06-2004 21:04:01

[CONTO] Paisagem

Naiad

O tempo se fecha, deixando o ar mais frio.

O vento passando entre minhas folhas é como uma massagem. Me sinto mais leve com isso.

Não demora muito até que as gotas comecem a cair.

Elas limpam as pequenas impurezas que se acumularam durante o dia, escorrem por entre os veios das folhas, e caem no solo.

Parte delas lutam para se manterem acumuladas em bolhas d'água sobre as folhas secas. Outras preferem esquecer a batalha contra a separação e não demoram muito até se deixarem escorrer por entre as camadas do tapete de folhas, entrando diretamente em meu solo, que a absorve.

Finalmente posso me refrescar um pouco. Já faz tempo que não me molho tanto assim.

Compartilho parte da água que se acumula em mim, deixando que as raízes de minhas tão queridas árvores possam matar sua sede.

Tambem não deixo de fazer isso com as minhas pequenas plantas, obviamente. Afinal, cada vida, seja de qual tamanho for, que constribua para minha beleza, é de extrema importância pra mim. E todas, sem exceção, fazem esse papel por aqui.

A chuva de verão não dura mais que alguns minutos, mas é tempo suficiente para aliviar o calor gerado pelo Sol, que não demora muito para reaparecer, conforme as nuvens carregadas se vão.

Porém, não posso reclamar dele. É de seus raios luminosos que tiro o alimento de minhas filhas, as quais acolho com tanto carinho em meu solo.

É gratificante sentir o lento movimento de seu crescer. Seus galhos sempre tentando alcançar o céu. Suas folhas surgindo cada vez mais verdes, e suas flores desabrochando a cada dia mais belas.

Faço questão de acompanhar o desenvolvimento de tudo que brota do meu solo.

Me alegro muito em saber o quanto todas gostam daqui. O quanto minhas árvores se sentem felizes ao ter seus galhos chacoalhados por um vento mais forte.

Sou muito ligada a elas. E por isso, posso sentir cada pequeno pássaro que pousa sobre seus galhos.

Sinto prazer em acolhê-los. Deixar que eles construam seus ninhos, e abrir espaço para o surgimento de novas vidas, pois não quero que minhas filhas se sintam sozinhas.

É sempre bom ter companhia por aqui.

Não exito em deixar que todos os animais que vivem em meu interior comam dos frutos produzidos por elas. Ou que bebam da água que corre por meu rio.

Ah, e como é relaxante senti-la passar em um movimento constante por meu solo!

Cada ser que vive em meu interior é um motivo a mais pra eu me sentir feliz do jeito que sou. Pois todos são importantes para que tudo corra bem comigo.

Essa integração me fortalece. Esse respeito mútuo entre cada elemento que me constitui gera uma grande satisfação, que me mantém em um constante estado de felicidade quase plena.

Mas, ao olhar para fora, sinto que me falta algo, e sei exatamente o que é.

Como eu gostaria que eles também se juntassem a nós...

Aqueles humanos...

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Comentários:

Linda tua forma de escrita, tal a beleza dos textos. Fico perplexa com tanta imaginação. beijos.

anne | Homepage | 11-06-2004 20:56:55

quinta-feira, 10 de junho de 2004

[CONTO] Floresta

Mistic Dream

Uma brisa fria desliza por minha nuca, me dando calafrios...

Olho para os lados e noto os restos de uma civilização que já não existe mais, sendo consumidos pela vegetação, que parece absorvê-los, tentando tomar aquilo que um dia foi seu.

O tempo nublado complementa o cenário sombrio que se posta à frente.

A mata densa parece possuir uma força misteriosa, me chamando para seu interior.

Não tenho nada que me prenda aqui.

Evito olhar para trás, mas sei o que encontrarei por lá caso o faça.

Não há nada interessante o bastante para me fazer voltar. De fato, não existe nada para o qual retornar.

A decisão já foi tomada, e estou plantado aqui durante longos minutos apenas por mero capricho. Ou seria pelo medo do que encontrarei lá dentro?

Existem muitas entradas para essa floresta, e conheço muitas delas. Não sei exatamente por que escolhi essa. Só sei que há um motivo, mas ele não me interessa no momento.

Dou meu primeiro passo rumo ao corredor formado pelas imensas árvores que parecem dar as boas vindas àqueles que se aventuram em adentrar sua floresta. Ele parece se estreitar gradativamente mais adiante, pelo pouco que consigo ver daqui.

Ao pisar sobre o solo, noto a maciez que ele apresenta. Mais parece um tapete daqueles bem grossos e gostosos de se pisar.

Com um pouco mais de atenção, percebo que são as folhas recém-caídas das árvores que criam essa sensação. Elas, porém, são apenas a superfície do tapete natural. Curioso, agacho-me, e vejo que, embaixo delas, existem inúmeras camadas de folhas mais velhas, algumas secas, outras perdendo sua coloração esverdeada.

Penso que até no fim de suas vidas elas tiveram um papel especial.

Conforme avanço, a camada de folhas novas, gradativamente, cede lugar a um velho tapete formado apenas por suas antepassadas, estas mais secas e quebradiças. O barulho delas se quebrando sob meus pés ajuda a distrair minha mente, o que faz com que eu não me preocupe por alguns instantes com a jornada que acabara de iniciar.

A cada passo que dou a floresta parece se fechar ao meu redor.

Tudo fica mais abafado, mais terrivelmente silencioso, e o barulho dos meus pés sobre as folhas secas já não servem mais como distração.

Paro por alguns instantes, tentando ouvir qualquer som que me aponte um caminho, que me dê um foco, mas a floresta parece não querer dar uma dica sequer para aqueles que procuram explorá-la.

Olho para cada canto do local onde me encontro, e só vejo galhos se misturando uns com os outros, de cujas folhas tampam quase que completamente a pouca iluminação que parte lá de fora, já muito pouca graças ao tempo nublado.

Sinto que, bem aos poucos, a floresta parece tentar me consumir, assim como aqueles destroços que avistei em sua entrada.

De repente, uma leve brisa consegue chegar até mim. O farfalhar das folhas se chocando umas com as outras nos galhos logo acima são de uma força tranqüilizadora sem igual.

Começo a ouvir, bem de longe, alguns pássaros se comunicando uns com os outros, além de outros animais de cujos sons não consigo identificar, me impedindo de determinar quais são.

Finalmente, volto a respirar com mais facilidade.

Me sinto mais à vontade agora.

Não sou mais um mero visitante. Um corpo estranho nesse meio. Eu sou parte dele. Sou o próprio meio em si.

E a floresta retoma aquele que um dia foi seu...

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Comentários:

Faz tempo... muito tempo... Mas eu voltei lá... as fundações ainda existe, embora seja um arremedo do que um dia foram. Agora, não passa de um grande cemitério... um cemitério onde estão enterrados sonhos... mas AQUELE LUGAR ainda existe... eu estive lá...

Ceres | Homepage | 10-06-2004 15:35:56

quarta-feira, 9 de junho de 2004

[CONTO] Sobre trilhos

Railway I

Não me lembro quando embarquei nessa viagem... Nem se fui eu quem escolheu realizá-la...

Há pouco me dei conta de que não fazia idéia de nada disso, e mesmo assim, em momento algum, tal fato me provocou estranheza...

Quando começo a me sentir absorto pelas dúvidas em minha mente, algo desfoca meus pensamentos...

Ouço o barulho de rodas metálicas em atrito com os trilhos logo abaixo, e isso desvia minha atenção para a paisagem lá fora.

Vejo árvores dos mais variados tamanhos passando rapidamente, uma vegetação rasteira, e animais pastando calmamente sobre os campos que se estendem em um horizonte aparentemente sem fim.

Logo adiante, pequenas casas começam a se aproximar de meu campo de visão.

Penso em como deve ser bom viver em um lugar tão calmo... Tão distante de todo o caos que pode ser encontrado em outras partes deste mundo tão vasto.

Alguns moradores, pessoas simples, parecem sair delas unicamente pelo prazer de nos ver passar.

Parte delas acenam pros passageiros, e eu, como que para me sentir, por alguns segundos, parte de suas vidas, retribuo o cumprimento.

Lá no alto, nuvens de uma brancura sem igual enfeitam o céu, que apresenta um azul contrastante, aumentando ainda mais a beleza deste dia, que parece não ter fim.

Agora entramos em um túnel. A escuridão invade os vagões.

Fico apreensivo. As dúvidas iniciais tentam novamente invadir minha mente.

Minha ansiedade aumenta, e torço para que aqueles segundos passem logo, e eu possa ver algo que volte a atrair minha atenção para o exterior.

Enfim, chegamos ao fim do túnel, mas a viagem ainda promete ser bem longa.

Passamos por cidades, desde as pequenas e simples, às grandes metrópoles com seus monstros de concreto preenchendo o horizonte de um tom cinza.

Até o céu, que horas atrás parecia mais um monumento à sua natureza divina, parece agora refletir o acinzentado tom da paisagem abaixo de si.

Me sinto aliviado quando, novamente, voltamos a passar por campos de um verde exuberante, onde posso divisar algumas árvores que se espalham ao longo deles. Parecem tão calmas... Tão a vontade onde se encontram... Chego a sentir inveja delas.

Várias vezes sinto vontade de pedir para que o maquinista pare o trem, a fim de que eu possa descer e ficar por lá mesmo. De pé, sentindo o vento fresco e o ar puro daqueles campos, tal qual as árvores que viviam sobre eles deviam fazer dia após dia.

Mas, tal decisão não é minha. Não na situação em que me encontro.

O trem também não tem escolha. Deve seguir seu curso, pois está preso a seus trilhos.

E eu preso a seu percurso, me restando apenas observar a paisagem lá fora, desejando um dia fazer parte dela...

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Comentários:

Eu nunca fiz dessas viagens!..~~'

Elt | 10-06-2004 01:21:54
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E o pior mesmo é que os vilões de hoje em dia nem amarram mas as mocinhas e as deixam em cima dos trilhos...

Ceres | Homepage | 10-06-2004 00:17:33
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É sempre um imenso prazer ler-te. Hoje foi um repousar nas tuas palavras. Viajei e encantei-me com a a paisagem. Muito bom! Abraços e bom feriado.

anne | Homepage | 09-06-2004 20:54:16

terça-feira, 8 de junho de 2004

[CONTO] Complexo de Super-Homem

Super-Homem by Alex Ross

Posso sentir o ar, passando por meu corpo nú, movendo cada um de meus pequenos pêlos. Cada um de meus fios de cabelo.

O vento bate forte em meu rosto, e fecho os olhos, apenas para senti-lo.

Sentir a sensação de liberdade. Sentir um mundo sem limites em cada um de seus cantos, que avisto aqui de cima ao abrir meus olhos novamente.

Meu corpo rasga o ar, abrindo espaço para que meu vôo continue, mas não há violência nisto. Ele me acolhe, como uma mãe segura o filho em seu colo quando pequeno. E também como quando ela o pega cuidadosamente pelas mãos, ajudando-o a dar seus primeiros passos.

É assim que eu me sinto.

Essa sensação inédita, e tão boa de ser sentida, me faz explorar uma nova capacidade.

Se abrir ao mundo, e expôr seu próprio ser a ele.

Aqui de cima, nada é insignificante. Tudo claramente faz parte de algo maior.

Cada peça tem seu lugar no todo. Cada ser tem sua significância na criação.

E, apesar de expôr a nudez de meu ser ao mundo que vejo abaixo, nada pode me atingir.

Sou invulnerável a tudo que, de negativo, parte lá de baixo.

Todo o egoísmo. Toda inveja e ganância. Todo sentimento mesquinho e pequeno que é lançado contra mim. Tudo isso ricocheteia em meu peito, e se desvia para o nada, ao qual deveria pertencer.

E a vontade de trazer outros para me acompanhar em meu vôo é inevitável.

Mas nem todos estão prontos para ver esse mundo sem limites que enxergo aqui de cima.

Nem todos estão prontos para a liberdade.

Prontos para exporem sua própria nudez a um mundo que quer sentir cada um de nós como parte dele.

Cada um de nós como partes uns dos outros.

Enquanto isso, continuo em meu vôo solitário, torcendo para que um dia eu tenha companhia...

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Comentários:

Muito legal o novo template..mas olha a Lain ae!! Pensei que ela sairia da sua vida! ~~' Mas ok! Meu, phodérrimo essas figuras que tu tah postando junto aos textos...e Elt torce para que sempre continue livre!! ^^ E bem..sobre o coment no meu blog...Alguém nos ajude..então! Bjo!

Elt | 09-06-2004 00:20:13
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Formidável o novo visual do seu Blog! Curti muito! Eu tbm to querendo voar.. aliás, sempre quis... falow.

A.Draeth | Email | Homepage | 08-06-2004 13:22:51