segunda-feira, 5 de outubro de 2009

[RESENHA] Fringe s02e03 - "Fracture"

Gosto de episódios como este último, em que somos levados a crer que se trata de uma coisa pra no final nos mostrarem que é outra.

No caso de "Fracture" ele segue o mesmo esquema ao qual já nos habituamos. Abre com um acontecimento bizarro, que neste caso é um homem que se transforma numa bomba humana após um processo instantâneo de cristalização dos tecidos (idéia MUITO parecida com a usada no atual arco de histórias do Homem de Ferro, do qual eu falei aqui), um pouco de desenvolvimento de personagens, um pouco de cenas bobinhas sem muita finalidade, daí parte pra investigação, mais desenvolvimento, mais cenas sem muito propósito, e a conclusão.

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Protetor solar uma ovaaaaAAAARGH...!!!!

Falemos um pouco de cada lance.

Desta vez o que eu havia suposto na resenha do episódio de estréia da temporada começou a se concretizar. Astrid ganhou um pouco mais de destaque neste episódio. Nada muito importante, só uma conversa com Walter a respeito da mudança de apartamento que Peter insiste em fazer, e sobre quão pouco nós podemos conhecer de nossa vizinhança. O detalhe notável foi a mudança de postura da garota, que soou até carinhosa e um tanto admirada por Walter. Aos poucos ela está se afeiçoando pelo coroa, e arrisco dizer que sua relação com ele está caminhando para um nível mais "paternal". Além disto, foi bacana ver o cientista finalmente demonstrando um pouco mais de interesse pela vida pessoal da garota. Essa demora foi justificável, pois soubemos na temporada passada que ele perdeu uma de suas assistentes vítima de um de seus experimentos, portanto, nada mais natural do que ele levar um tempo até se permitir um envolvimento maior.

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Walter + Astrid + 1 seringa + 1 melancia = Combinação explosiva
(adivinhem pra quem)

E Sam Weiss, que mal chegou e já foi montando banca, está se mostrando uma espécie de guru dentro da história, ou, como Olivia disse, vem fazendo "aquelas porcarias do Yoda". É aquele esquema estilo Sr. Miyagi, "amarre este cadarço de sapatos, e você aprenderá a controlar essa tremedeira nas mãos", "marque os pontos da liga infantil de boliche e vai aprender a ter paciência". Fora isto, o mistério em torno do figura prevalece. Por que ele é tão respeitado por Nina Sharp? Qual é o seu envolvimento com William Bell e a Massive Dinamic? Será ele um Mestre Jedi vindo de outro universo paralelo?

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Desse tamanho e ainda não sabe amarrar os sapatos? tsc tsc tsc...

E já que mencionei Olivia, vale destacar que agora ela é oficialmente vítima de mais um "autoplágio" do J. J. Abrams. Se a temporada já estreou introduzindo a idéia de transmorfos, num conceito semelhante ao usado na 2ª temporada de Alias, neste Olívia começa a ter flashs vagos de fatos que lhe ocorreram enquanto estava no universo paralelo onde se encontrou com William Bell, tal qual Sidney Bristow na 3ª temporada de Alias, quando ela ficou metade dela sem lembrar-se de nada do que aconteceu em sua vida durante um ano.

Agora, cá entre nós, não acham que já demorou pro Walter convidá-la para um mergulho naquele tanque visto na 1ª temporada onde ela tinha acesso às memórias do seu ex-parceiro e amante morto John Scott misturadas com as suas? Se deu certo pra ajudá-la a acessar partes de seu cérebro que armazenavam as memórias do falecido, por que não daria com a sua, desde que ele aperfeiçoasse a tecnologia, algo que Walter não teria grandes dificuldades em fazer?

Outro "lance Alias" deste episódio foi a seqüência em que Olivia e Peter viajam para o Iraque em busca de mais informações sobre o projeto "Homem de Lata". Este era o tipo de situação que ocorria direto no antigo seriado de J. J. Abrams, com personagens indo e vindo pra tudo quanto era canto do mundo.

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Sid... Digo, Olivia e Peter enxugando o copo no Iraque.

A viagem serviu pra nos apresentar a outro experimento militar ultra-secreto que ferrou com a vida de um monte de soldados, e a mais um coronel malvado e fanático.

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Por que estou cultivando bombas humanas no meu quintal?
Uma guerra interdimensional está chegando, oras! Não é óbvio? Hunf...

Além disto, tivemos mais menções sobre o passado misterioso de Peter no Iraque, algo que já fazia um tempo que não era citado na série. Ainda há muito a ser esclarecido sobre isto, o que não deixa de ser animador, pois Peter já vem se tornando um personagem interessante. Um pouco mais de informações que o tornem mais complexo serão bem vindas.

E depois de muita investigação descobrimos que... não era só mais um caso isolado da Divisão Fringe, e sim algo ligado à Grande Guerra Interdimensional vindoura! Tudo isto num discurso sinistro do Coronel Raymond Gordon, que nos entrega mais uma peça do quebra-cabeça: ele tentava deter os espiões de outro universo paralelo que estavam recolhendo e repassando informações sobre nossa cultura, tecnologia e ciências para seus compatriotas do "outro lado do espelho". E quem é o responsável por recolher estas informações? Quem?! O carequinha fã de sanduíches extremamente apimentados! Isto mesmo, o Observador! Que se mostrou mais uma vez interessado em Walter, depois de sua aparição pra lá de enigmática no final da temporada passada. E com isto desvendamos mais uma faceta deste que foi o personagem que me "tragou" definitivamente para Fringe, e mostrou que a coisa podia ser melhor do que eu imaginava. E de fato é o que vem sendo.

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Não parecem fotos tiradas de câmeras embutidas em olhos?
Hmm... Vai pra lista de detalhes suspeitos.

Agora é esperar até 5ª feira pra conferir "Momentun Deferred", e ficar na torcida pra Olivia botar aquele biquini preto e mergulhar no tanque pra mais uma viagem em suas memórias. Já passou da hora de termos algumas respostas sobre seu encontro com Bell. E nem vem com esta de deixar só pro final da temporada, sr. J. J., que esta estratégia já tá batida demais!

domingo, 4 de outubro de 2009

[OPINIÃO] Rio 2016: eu apoio

Algumas pessoas, não muitas, tiveram uma reação muito ruim com a nomeação do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas (acentuação intencional). Admito que eu inclusive, mas depois parei para pensar realmente no assunto e a questão é: pq não?

Bem, são varios motivos pq isso é uma má idéia. Entre eles que serão 29 BILHÕES de reais, que com a corrupção logo duplicarão ou triplicarão que serão TORRADOS numa FESTA de 28 dias. Não vamos falar de "legado de infraestrutura" ou "desenvolvimento do Brasil como potência esportiva", ja estamos um pouco grandinhos demais para esse tipo de coisa.

Cabe fazer uma análise do contexto atual e não agir como se fôssemos um marciano que tivesse colocado os pés no país na sexta-feira passada. Vivemos hoje uma crise de corrupção sem precedentes, com escândalos pipocando diariamente nas três esferas do executivo, para não falarmos dos outros poderes. No médio e longo prazos não vemos nenhuma perspectiva de mudança nesse cenário. Já tivemos, recentemente, o exemplo claríssimo Pan 2007 que, além de elefantes brancos abandonados, não deixou nada para a cidade. Nem mesmo nosso desempenho esportivo melhorou significativamente nos jogos de Pequim.

Então serão 50 bilhões ou mais torrados numa FESTA.
Estamos acordados nessa parte? Ótimo.

Qualquer duvida, basta lembrar que a comemoração não poderia ser mais brasileira

Então resolvida essa questão, como exatamente eu posso dizer que sou a favor disso?
Quer dizer, entre todos as pessoas eu sou um dos envolvidos diretamente. Como funcionario publico, a possibilidade de ter ou não aumento depende do bom humor do caixa do governo. Então estaria eu louco, atirando contra o proprio patrimonio? (que é o unico que me importa realmente, o meu)

Não, não exatamente
Vamos ser honestos de verdade? Papo de gente grande? Então tá.

Na boa, o Brasil não tem mais jeito, a corrupção rola mesmo solta com ou sem jogos Olímpicos. Então, já que estamos no inferno, que abracemos o capeta. Perdido, perdido e meio.

Não, sério, pq não? Não fazer vai resolver alguma coisa? Alguma coisa vai melhorar? Claro que não. Esse dinheiro seria melhor empregado de alguma outra forma? Seria algo util? Pois é, claro que não? Então pq não? Honestamente não consegui pensar em nenhum motivo para ser contra.

Acho até que deviamos manter a pira olímpica acesa o tempo todo jogando caminhões de dinheiro publico alimentando a chama. Pq não? Qual a diferença entre 60 ou 65 bilhões jogados fora?

Então é isso. Party fast, party hard.
Afinal, o que é um peido pra quem já está cagado?

[RESENHA] FlashForward s01e02 - "White to Play"

Após duas semanas de espera desde que assisti o piloto que vazou na net, pude finalmente retomar a história do mundo em que todas as pessoas viram suas vidas tal qual elas serão daqui a 6 meses.

Minha grande preocupação com relação não só a este episódio mas ao restante da série era se os realizadores de FlashForward conseguiriam manter o grande clima de suspense e intriga visto no primeiro episódio. Para o meu alívio a seqüência que abre "White to Play" é tão boa quanto a do piloto. A forma como foi construída é tão envolvente que em poucos segundos me fez pensar se o que eu estava vendo era um flashback de algum ponto do planeta durante o apagão mundial, para logo me fazer considerar a idéia de que era um sonho de Charlie, até finalmente revelar que se tratava apenas de uma brincadeira que as crianças inventaram baseada no evento que todas vivenciaram. É com cenas como esta que David S. Goyer mostra que ainda tem muito a nos oferecer como diretor (alcançando aos poucos sua redenção após o fiasco que foi Blade: Trinity).

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Flashback? Flashforward? Um sonho?
Nah... era só brincadeirinha...

A cena inicial serviu também como dica para a mudança de foco que veremos logo adiante, onde conheceremos um pouco mais de Charlie.

Se no episódio piloto eu a achei apenas uma garotinha meiga sem muito a acrescentar, neste Lennon Wynn se mostrou uma atriz-mirim mais competente do que eu suspeitava, oferecendo uma atuação convincente no papel de uma criança que se encontra assustada diante de eventos que ela mal compreende. Destaque para a cena em que Charlie vê Dylan pela primeira vez no hospital, levando-nos a crer que o conheceu em seu futuro. Sempre me comovo diante do desespero autêntico de uma criança.

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Quem é que não se derrete com uma cena assim?

Enquanto isto o mundo inteiro tenta assimilar a experiência que viveu. Membros do AA compartilham suas visões durante as reuniões semanais (destaque para a participação especial do Alan Ruck, o Cameron Frye de Curtindo a Vida Adoidado). As pessoas andam inquietas pelas ruas. Todas ainda esperam uma explicação sobre a origem do fenômeno, ou uma confirmação de que suas visões proféticas se realizarão.

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Será que nem daqui a 6 meses o Ferris vai vir me visitar?
Já faz 23 anos...

Gosto de como vêm mostrando a variedade das reações dos personagens diante de seus futuros. Por exemplo, Mark vive um dilema: precisa acreditar na realidade de seu flashforward para que obtenha sucesso em suas investigações, ao mesmo tempo que tenta impedi-lo de acontecer, pois isto representaria o fim de seu relacionamento com o Olivia. Neste 2º episódio ele até tenta se rebelar contra o seu futuro, livrando-se da pulseira da amizade feita por Charlie, que ele usava durante seu flashforward.

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"Pobre Yorick..."

Já Olivia faz de tudo para escapar de seu destino, mas acaba fatalmente se encontrando com Lloyd no hospital, em mais um sinal de que seu futuro possível está se concretizando.

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É, não teve jeito...

E Demetri conhece uma policial que, assim como ele, não viu nada durante o apagão, o que inicialmente o deixa um pouco aliviado por descobrir que não foi o único que passou por isto, apenas para, mais tarde, ver a mulher ser morta a tiros, reforçando a idéia de que no futuro ele pode mesmo estar morto antes que 29 de abril de 2010 chegue.

Dando continuidade à investigação baseada no quadro de pistas que viu no futuro, Mark e Demetri topam com a primeira delas, o misterioso D. Gibbins, que por enquanto parece ocupar o papel de "vilão" da série, e talvez seja uma das pessoas que sabem algo sobre a origem do flashforward global. Sua ligação com o "Suspeito Zero" (o carinha do estádio que foi o único que não caiu no sono) é intrigante, e reforça a teoria de que pode existir um grupo por trás do fenômeno.

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Até onde ele sabe das coisas?

Tão intrigante quanto é a revelação de que Charlie conhecerá D. Gibbins no futuro. Pela forma como a menina falou do sujeito, não parece ser um cara legal. Ligando esta informação à que ela revela no início do episódio, dá pra supôr que Charlie e Dylan passarão por maus bocados nas mãos do cara. Por hora levanto a hipótese de que foram seqüestrados e mantidos reféns como forma de Gibbins chantagear Mark a fim de impedi-lo de prosseguir com as investigações.

Outra figura suspeita é Lloyd, que ainda não mostrou a que veio, mas pela forma como agiu, um tanto evasivo, parece saber mais do que contou. Muito estranho ele não reconhecer Olivia, sendo que no episódio piloto uma das "regras" estabelecidas é que, se uma pessoa se encontrou com outra no flashforward, a outra também consegue se lembrar do mesmo encontro, já que todos ocorreram simultaneamente. E, conforme descobrimos neste, ele esteve com Olivia poucos minutos antes de deixá-la sozinha no quarto, para atender um telefonena. Seria ele mais um dos "acordados"?

Por fim, tivemos a introdução de outra personagem nova, interpretada por Shohreh Aghdashloo (diga isto com um bolo de fubá na boca e você ganha um prêmio), cujo nome ainda não foi revelado, que também vai pra lista de suspeitos, já que não quis dar muitas informações a seu respeito para Demetri além da data de seu assassinato: 15 de março de 2010, pouco mais de um mês antes do dia focado pelos flashforwards. Será ele mais uma das vítimas dos conspiradores por trás do fenômeno? Esse aí vai ter muito o que pensar até lá.


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Tá, agora me diz o seu nome pra eu saber quem acabou com o meu dia...

Lançando mais ganchos a serem explorados nos próximos episódios, e esclarecendo alguns pontos vagos apresentados no piloto, Flashforward manteve a qualidade de sua estréia, reafirmando sua intenção de ser uma série dramática que vale a pena acompanhar.

Até a próxima semana, com "137 Sekunden"!

sábado, 3 de outubro de 2009

[REVIEW] A Marvel fora da Invasão Secreta - Parte 3: Homem de Ferro

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Desde a saga Guerra Civil o Homem de Ferro virou um dos maiores alvos dos holofotes do Universo Marvel. Como principal defensor da Lei de Registro de Super-Humanos, Tony Stark vem sendo considerado por muitos como um sujeito arrogante, um tanto prepotente, metido a sabe-tudo, um bilionário enobe, ou ainda um futurólogo que se acha dono da verdade.

Logo após a saga o herói passou por uma breve fase em seu título solo onde os escritores Daniel e Charles Knauff procuraram enfocar o lado mais humano do herói, mostrando-o como alguém que vivia uma crise de consciência por ter escolhido se voltar contra muitos de seus antigos companheiros em defesa do que acreditava ser o melhor para o futuro dos super-heróis dos Estados Unidos. Tony Stark foi retratado como um sujeito amargurado, que se sentia com o peso do mundo nas costas, e cheio de um desejo desesperador de provar que estava certo, apesar de tudo.

Tony Stark sempre foi um homem de muitas facetas. É o empresário, o industrial, o gênio inventor, o super-herói, e, após a Guerra Civil, ganhou mais uma delas, se tornando o diretor da SHIELD. A fase de Daniel e Charles Knauff focou-se mais neste aspecto, nos apresentando histórias que oscilavam muito em termos de qualidade, chegando a uma média final regular.

Após o lançamento de seu filme ano passado, a Marvel optou por dar uma nova revitalizada no personagem (antes ela já havia pedido a Warren Ellis para atualizar a origem do personagem, sobre a qual eu falei bastante aqui), criando um novo título pra ele, daí ressurgiu O Invencível Homem de Ferro (The Invincible Iron Man, no original), com histórias mais voltadas para o lado super-heróico de Tony Stark, e com várias referências retiradas diretamente da adaptação cinematográfica. A tarefa ficou nas mãos do escritor Matt Fraction e do desenhista Salvador Larroca.

O primeiro arco já começa promissor, apresentando uma premissa simples, mas que toca num ponto pertinente levantado pela seguinte questão: o que aconteceria se a tecnologia do Homem de Ferro fosse desvendada e barateada, a ponto de tornar-se descartável e à disposição de qualquer um que quisesse usá-la para seus próprios fins? É através da figura de Ezekiel Stane, filho de Obadiah Stane (o vilão do primeiro filme), um dos maiores inimigos de Tony Stark , que temos a resposta.

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Ele só quer vingança, e se divertir muito com isto

Ezekiel alcança um novo patamar de ameaça ao transformar homens em verdadeiras fontes de energia super-econômicas. Usando engenharia reversa em sucatas provenientes de armaduras do Homem de Ferro avariadas em combate, compradas no mercado negro, o rapaz encontra um meio de converter seres humanos em raios repulsores vivos, ou melhor, bombas repulsoras, sem a necessidade de fontes externas de energia. A idéia de converter a energia economizada pelo corpo humano em poder explosivo é ótima!

Outro detalhe que merece elogios é a construção narrativa da primeira parte do arco, inteiramente feita com base nos cinco maiores pesadelos de Tony Stark. Cada um é apresentado no decorrer da história contribuindo na criação de um clima de tensão crescente.

Matt Fraction também demonstra que foi bastante a fundo em seus estudos sobre o personagem, algo que nota-se na forma como mostra a mente de Tony Stark trabalhando: sempre tentando ficar um passo à frente, procurando antecipar eventos com base em probabilidades, e fazendo notas mentais para uso em futuras pesquisas e experimentos de aprimoração tecnológica, isto tudo até durante as batalhas.

E o autor, que parece ser um grande fã do herói, ainda faz bom uso da alta tecnologia à disposição de Tony Stark, como na cena em que o vemos trabalhando num programa secreto de monitoramento de todos os heróis e vilões usuários de armaduras tecnológicas espalhados pelo planeta. Ou naquela em que é mencionada a inexistência de um "suporte técnico" exclusivo da armadura do Homem de Ferro, fato que o obrigada a realizar autodiagnósticos periódicos sempre que nota pequenas distorções em seu funcionamento.

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Tony e sua preocupação com o uso de tecnologias derivadas de seus inventos

Outra que merece destaque é a seqüência que demonstra com mais clareza a idéia de que o grande objetivo de Tony Stark, ao criar o Homem de Ferro, foi estender os sentidos humanos através da tecnologia: ele e a armadura alcançam um nível de integração tamanho que, ao acessar a constelação de satélites da Starktec, se torna capaz de lutar contra membros da IGA (Idéias de Genocídio Avançadas) ouvindo um concerto de Bach, enquanto acompanha uma apresentação da filial inglesa das Indústrias Stark, ouve os lances de um jogo de beisebol, monitora um satélite prestes a ser invadido por um hacker, e retransmite dados de desempenho da armadura para sua diretora de operações, tudo isto em questão de segundos.

As histórias de Fraction ainda reservam espaço para reflexões filosóficas e políticas referentes à era em que vivemos, onde o avanço tecnológico ameaça lançar a humanidade em uma nova onda de ataques terroristas e guerras inimagináveis, o que ajuda o leitor a se envolver mais com a trama ao encontrar "ecos" de nosso mundo na ficção inteligente que conseguiu criar.

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Ataque de uma das bombas repulsoras humanas de
Ezekiel Stane à filial de Valência das Indústrias Stark

Outra bola dentro do escritor é a forma como trata a relação entre Tony e Pepper, mais uma conseqüência do filme, que deu grande destaque à personagem, interpretada por Gwyneth Paltrow. Fraction faz uso de uma ironia trágica para lançar o relacionamento do casal a um novo nível de envolvimento, tornando-os ligados por um fator em comum, e reforçando o papel fundamental da tecnologia sobre a vida das pessoas mais íntimas de Stark. Basta dizer que agora não apenas Jim Rhodes (a.k.a. Máquina de Combate) é um exemplar dos híbridos humanos/máquinas criados por Tony Stark.

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Cena meiga: Tony ensinando Pepper a voar até
ser interrompido pela vaca da Maria Hill

Mas tais histórias não teriam o mesmo brilho se não contassem com os desenhos de Salvador Larroca, um desenhista espanhol que, a exemplo do protagonista das mesmas, vem se aprimorando a cada novo trabalho.

Lembro-me dos primeiros trabalhos que li desenhados pelo Larroca, onde ele emulava o traço de Jim Lee, quando este ainda era muito aclamado (hoje em dia seu traço perdeu-se no meio de tantos "sósias"). Mais tarde aderiu a um estilo semelhante ao seu conterrâneo, Carlos Pacheco; teve sua fase influenciada pelos mangás; mas agora ele finalmente atingiu a maturidade, criando um estilo próprio, fotorealístico até certo ponto, que ainda assim consegue manter-se fluido e dinâmico, o que confere às cenas de ação o ritmo adequado e a clareza necessária para acompanharmos cada um de seus lances. Além disto Larroca é um ótimo desenhista de máquinas, requisito fundamental para as histórias do Homem de Ferro.

Mas Larroca é um desenhista que depende muito de um bom colorista, já que não faz muito uso de sombras e hachuras em seus desenhos. Felizmente ele conta com o ótimo Frank D'Armata, que soube usar os tons certos pra dar peso à arte do rapaz, fazendo uso de uma paleta de cores que confere mais realismo às cenas, e um visual cinematográfico às histórias.

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Tá na hora de virar o jogo, Tony!

Restando apenas mais um capítulo para sua conclusão, o arco "Os Cinco Pesadelos" tem se mostrado tenso, com suspense, ação e ficção-científica muito bem equilibrados em uma narrativa excepcionalmente bem conduzida por Matt Fraction e Salvador Larroca. O penúltimo capítulo, publicado mês passado em Avante, Vingadores! 33, mostrando a primeira luta direta entre Tony e Ezekiel, é empolgante o suficiente pra deixar qualquer leitor ansiosíssimo pra conferir o desfecho.

Homem de Ferro de Fraction e Larroca vem sendo publicado no Brasil desde Avante, Vingadores! 30. Torço para que a dupla ainda tenham muitas histórias pra contar. Os apreciadores de boas narrativas em quadrinhos agradecem.

E na 4ª parte desta série falarei sobre o Motoqueiro Fantasma de Jason Aaron. Até lá!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

[POKÉMON SICKNESS] - #039 Jigglypuff

Pokémon Sickness é uma nova série de textos que eu postarei aqui no blog, em parceria com o Aélsio, que fará ilustrações.

Bem, o que é Pokémon Sickness? São contos isolados, cada um sobre um dos monstrinhos, sem nenhuma relação entre si, senão o fato de que se passam no mesmo universo.

Outro ponto em comum às histórias é que elas tentarão buscar o que há de mais doentio, asqueroso e perverso na pobre alma deste que vos escreve. O que implica que as histórias envolverão temas como drogras, estupro, mutilação, suicídio, tortura, incesto, abuso infantil, e daí ladeira abaixo. Sim, isto com pokémons.

Então, eu realmente recomendo que simplesmente pule os textos desta série caso se sinta ofendido, tenha menos de 18 anos, ou simplesmente não vá muito com a minha cara. Bem, era o que tinha a explanar. Aos que decidiram continuar, bom texto, e obrigado pela preferência.

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Ricardo foi tomado por um sentimento branco, puro e cristalino. Como se mergulhasse em uma piscina de luz quente. Isto deveria ser a sensação equivalente, ele ponderou, a perder a virgindade, embora quanto a isto ele poderia tão somente imaginar. Fosse como fosse, o que realmente importava é que ele havia finalmente feito. Estava concluído, não podia ser desfeito agora.

Não que ele sequer pensasse em desfazer, é claro. A inigualável sensação de possuir borboletas dançando no seu estomago lhe dizia que ele estava fazendo certo, era uma embriagante sensação de triunfo – até onde ele se lembrava, a primeira em muitos anos que não tinha qualquer relação com World of Warcraft.

Passou a língua sobre os lábios secos mais uma vez, e seus dedos correram pelo teclado, checou seu e-mail no Gmail, e um abismo de decepção o invadiu quando não viu a faixinha branca de nova mensagem no alto da lista de e-mails (todos compostos por mensagens em fóruns, notificações do YouTube, listas de discussão e coisas do gênero – nenhum email pessoal, até onde podia ser visto na tela). Respirou fundo, e então ele viu o contador de novas mensagens modificar para (1), e novamente a euforia triunfante tomou conta de si. Era isso, havia sido confirmado, tudo aconteceria conforme ele planejara. Estava confirmado. Havia feito. Haviafinalmente comprado.

Tamanha foi a euforia que quase emitiu um som – definitivamente estava nos seus melhores dias.

Finalmente aliviado, se largou para trás na cadeira. Quem olhasse sua expressão poderia julgar que ele acabara de desarmar uma bomba, completar uma neurocirurgia de 14 horas, ou construir um castelo de cartas de 4 andares. Mas nada disso, não foi isso que ele fez. O que ele havia feito era comprar algo na internet.

Ora, não é a compra em si que o deixou nesse estado de vitória e superação, já que nenhuma anormalidade consistia para ele comprar produtos pela rede, a bem da verdade muito mais era o processo inverso, sobretudo quando envolvia (bate na madeira) falar com pessoas. Não, não foi o que ele comprara, e sim a finalidade com a qual ele comprara. Esse era o segredo aqui, essa era a pergunta do milhão de dólares: não “o que”, nem “como”, mas... por quê?

O que, você me pergunta, leva alguém a este estado semi-nirvanístico apenas com uma simples compra na internet? E eu te responderei: o mais antigo e nobre de todos os sentimentos, aquilo que nos define como espécie única dentre todas. O sentimento sobre o qual foram construídos reinos, impérios e nações, o sentimento em nome do qual vidas foram arruinadas, purezas maculadas e chagas propagadas. Enfim, o mais humano de todos os sentimentos, filha mais velha do ódio com a impotência: a vingança.

Ricardo tocou o seu próprio ombro, tenso. Imaginou por um momento como seria a sensação de ser tocado por outra pessoa, mas tentou afastar esses pensamentos: uma coisa de cada vez, e não podia sonhar longe demais, ao menos não agora. Não agora que finalmente estava tão perto de finalmente realizar alguma coisa. E só então se deu conta de que estava tão perto, embora essa súbita ciência também o fez perceber o quão profundamente apavorado estava. Realmente ia acontecer, não ia? Não era mais um plano idiota de criança, ou nada do tipo, era uma realidade... Cara, isso realmente o assustou!

Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, afastando os pesados óculos de aro grosso com a outra mão. Tentou se concentrar, lembrar do que estava fazendo, do por quê estava fazendo, do que ele precisava fazer para finalmente poder seguir com a sua vida.

A primeira vez que ele viu Amanda foi no dia em que ela foi transferida para a sua escola. Isso era por volta dos seus catorze anos e, Deus!, como ela era perfeita. “Ela sorria como um anjo, e deve chupar como um demônio”, foram esses seus exatos primeiros pensamentos ao vê-la pairando graciosamente no corredor da escola daquele verão. Mesmo naquela idade ela já possuía seios empinados e firmes, e pernas que fariam um cavalo de corrida ficar deprimido. Ah, o rosto de anjo e as madeixas loiras, tão absolutamente perfeita...

O segundo pensamento depois disso envolve uma parede branca, e um bocado de sangue e reboco no seu nariz. Aparentemente algumas pessoas pensavam que ela era boa demais para ser observada por alguém como ele, o que era uma opinião da qual ele próprio compartilhava. Quer dizer, se Deus quisesse que ele pudesse ficar no mesmo hectare de alguém como ela teria lhe dado alguma qualidade, não é mesmo?

A resposta mais provável era “sim”, e naturalmente poucos neste mundo duvidariam disso. E Marcos era uma dessas pessoas. Marcos, no entanto, tinha uma forma toda própria e especial de demonstrar ao mundo, e sobretudo ao patético Ricardo, o que ele pensava. Essas “demonstrações de opinião” usualmente terminavam com Ricardo na enfermaria, e essa não seria uma exceção.

Obviamente que ele disse, quando questionado pela professora responsável, que escorregou. Sozinho. Parado no meio do corredor. Ok, Ricardo era um péssimo mentiroso, mas o que mais ele poderia dizer? Que o cara mais “cool” do colégio bateu com a cabeça dele contra a parede, apenas porque ele estava olhando a garota nova, e absolutamente perfeita, que provavelmente Marcos já estaria enjoado de comer até o fim da próxima semana? É, certo...

Ser feio, tosco e patético já era suficiente, não precisava ser suicida também, obrigado.

E além disso, mesmo que ele contasse a verdade, que diferença faria? Se em um sonho louco de verão Marcos fosse, sei lá, expulso, e ele sobrevivesse o bastante para continuar freqüentando o colégio, e a turminha de Marcos simplesmente “deixasse passar”, se todas essas coisas improváveis acontecessem... mesmo assim nada mudaria. Levaria menos de uma hora para que algum candidato a macho alfa do colégio tomasse o seu lugar. Afinal de contas, era isso que as garotas gostavam e, infelizmente para ele, pisar em caras como ele (literalmente também, mas não limitado a) é parte do ritual de acasalamento da nossa espécie. Alguns nascem para ser o herói do filme de artes marciais, alguns nascem para ser o figurante que entra em cena só para tomar porrada e fazer o herói parecer mais heróico ainda.

Essa, naturalmente, não foi a única vez que os “caras legais” da escola o lembraram de qual era o lugar dele, sob o olhar de aprovação das garotas que ele queria para si. Nem todas as vezes envolviam dano físico, embora seus algozes não fizessem muito esforço para impedi-lo, e sim toda sorte de humilhação que se possa imaginar. Nesses anos todos, Ricardo acabou aprendendo algumas lições valiosas: que havia uma forma certa de se vestir (que envolvia nunca, jamais, chamar a atenção, e apenas usar roupas basicamente iguais), que sua memória era a única coisa com a qual ele podia contar ao voltar da escola (cadernos, livros e materiais escolares NÃO eram para os fracos, conforme ele constatou), e que havia pessoas para as quais ele não podia olhar, lugares que ele não podia ir, e caminhos que ele não devia seguir. Falhar em compreender essas lições, entre outras, lhe resultou aprendizados extremamente desagradáveis, como por exemplo: poucas pessoas podem realmente dizer qual o gosto do excremento humano ao paladar. Ricardo podia.

Como eu disse, não foram lições nem tampouco fáceis de se aprender, e isso é mais do que é necessário dizer sobre sua adolescência.

A partir desse ponto, você já deve ter concluído sobre quem se tratava a sua vingança. O que você deve estar se perguntando é como ele faria isso. Havia Ricardo comprado uma arma na internet, e pretendia entrar em uma festa e sair atirando em todos aqueles cães cretinos? A resposta é não.

Vou mentir se disser que Ricardo realmente nunca considerou essa possibilidade, mas essa não é uma boa idéia. Não porque ele seja capaz de sentir qualquer proto-sentimento de compaixão ou perdão, nada disso. O que fez Ricardo abandonar essa idéia foi simplesmente que outras pessoas já haviam feito isso, e o resultado simplesmente não era bom. As “vítimas” saiam como pobres anjinhos imaculados do Senhor, enquanto o cretino miserável que havia feito isso era apenas um desequilibrado mental sem motivo, provavelmente nazista e pedófilo nas horas vagas. O que, absolutamente, não era verdade, mas no fim era como as pessoas viam as coisas. Isso o fez abandonar a idéia das armas, se Ricardo fizesse isso eles venceriam.

E ele teria sua vitória, nem que fosse a última coisa que pudesse fazer na vida, pelo menos uma vez na vida ele venceria. Nem que fosse uma só, mas ele a teria, e faria valer a pena, faria valer cada segundo. Esse era o pensamento que o mantinha agora, e o fazia se sentir tão vivo e, pela primeira vez, tão … no controle. Essa vez, e só dessa vez, as coisas aconteceriam do seu jeito. Ele teria sua vingança.

O e-mail na caixa de entrada do Gmail confirmava isso.

Teria sua vingança pois o que ele havia comprado não era nenhum tipo de arma, nem nada do tipo, era na verdade algo muito, muito, muito mais... especial...

Duas semanas depois, Ricardo estava agachado atrás de um arbusto do outro lado da rua, onde era a festa de formatura da turma do segundo grau. Todos foram convidados, inclusive Ricardo – o que era uma espécie de última sacaneada para com ele. Não que ele fosse tão importante assim a ponto de merecer uma última pegadinha trabalhada, ele nunca foi nada disso na vida de ninguém.

Depois daquilo cada um provavelmente seguiria um rumo diferente. Alguns iriam para a faculdade, alguns iriam abraçar um emprego, alguns viveriam do dinheiro dos pais, e alguns viveriam da sua boa aparência enquanto pudessem. Enfim, um final de segundo ano particularmente comum, e não era preciso dizer qual dentre esses seria o destino que Amanda abraçaria, ou vice-versa.

Ah, Amanda... tinha planos muito especiais para ela essa noite. Com certeza ela jamais esqueceria enquanto vivesse, e esse pensamento em particular causou um sorriso em Ricardo. Se de nervosismo ou felicidade, ou qualquer outra coisa, jamais saberemos. Nesse instante ele a viu de relance enquanto ela descia de algum carro que custava mais do que todo dinheiro que já passara nas suas mãos até então, embora não tenha visto mais detalhes, pois instintivamente se escondeu no arbusto do outro lado da rua como se ela pudesse vê-lo se ele a enxergasse. “Não que ela fosse se importar”, acrescentou mentalmente. “Não que alguém fosse se importar”, tornou a acrescentar.

Feito isto, só restava esperar. Mil dúvidas percorreram a sua cabeça: e se a entrega atrasasse? E se não funcionasse? Quer dizer, era algo bastante fora da realidade do dia-a-dia, e toda certeza que ele tinha eram alguns vídeos no YouTube e olhe lá.. Tamborilou com os dedos no pulso coberto por uma manga escura, olhou para a sacola de viagem ao seu lado. Repassou um checklist das coisas que havia pego, e não lembrou de ter esquecido nenhuma. Em seguida pensou que seria muito estranho ele lembrar de ter esquecido alguma coisa...

Alguns tensos minutos depois, um som de carro parando em frente a casa onde acontecia a festa chamou sua atenção. Seu coração deu um salto: era um furgão da Fedex. Era isso, estava finalmente acontecendo!

O entregador desceu do carro, deu a volta, e abriu a porta traseira do furgão, conferiu em uma prancheta com auxílio da luz do poste, pegou uma caixa do tamanho aproximado de uma televisão, e se dirigiu em direção à casa. Tocou a campainha e, instantes depois, a porta abriu. Mesmo do outro lado da rua Ricardo pôde ouvir música alta incomodando os seus ouvidos, ali dentro devia estar praticamente insuportável... ou ao menos para quem não era acostumado. Mas se ele fosse o tipo de pessoa que se habituara a este tipo de lugar, aquela entrega não estaria sendo feita agora, e tudo seria tão diferente... Mas não era e, de qualquer forma, era tarde demais para voltar atrás agora. A entrega estava feita, e o homem da Fedex entrava em seu furgão para ir embora. A porta da casa onde acontecia a festa fechou.

Do outro lado daquela porta, dentro da festa, a entrega da caixa havia causado uma certa comoção. As pessoas se acotovelavam para ver o que estava dentro da caixa, já que era não era normal fazerem entregas em uma festa. E esse era o tipo de “não-normal” bom e aceitável, o que as pessoas gostavam e contavam depois, como se fosse uma aventura para se vangloriar depois, mas dentro do socialmente esperado.

Dentre as pessoas na festa, Marcos e Amanda abriram seu caminho até a caixa, cada um a seu próprio modo, e chegaram vindo de lados opostos da festa. Se olharam por um instante de forma tensa, dando a entender que havia uma história entre eles, e então voltaram a atenção para a caixa, que uma garota estava abrindo nesse instante. O som da música baixou, e várias vozes em tons diferentes se fizeram ouvir:

- O que é?

- Ai, que fofo!

- É de verdade?

- É de pelúcia?

- Tá vivo?

- Eu nunca tinha visto um desses pessoalmente... Qual o nome dele?

- Tá perguntando pra mim? Eu lá tenho cara de quem assiste Globo Repórter?

Entre as várias perguntas que permeavam o ar daquela sala, um grito agudo se elevou, e então houve silêncio.

- O-os... os olhos... olhos dele... meu deus...

Várias garotas fizeram uma expressão misturada de asco e medo, virando o rosto. Um garoto comentou em tom baixo, quase um tanto constrangido em não ser ignorante sobre o que era aquela coisa:

- Ouvi dizer que os caçadores arrancam os olhos deles para que eles não fiquem estressados e cantem em qualquer lugar.

O que estava dentro da caixa era uma espécie de criatura... estranha. Parecia uma almofada, um puff redondo com orelhas de gato e patas curtinhas. Era de uma cor rosada, quase roxa, um tanto perturbadora na verdade, mas não tanto quanto o fato de que, no lugar de seus olhos (que ocupariam a maior parte da cabeça), haviam apenas profundos espaços escuros. Era uma figura que ao mesmo tempo evocava uma certa inquietação e tensão, ao mesmo tempo que era fofo e digno de pena.

- Tem mais alguma coisa dentro da caixa – alguém comentou, pegando uma caneta marca-texto do fundo da caixa – E tem um bilhete também... “dar para ele”.

Sem ter muita certeza do que estava fazendo, a jovem apenas colocou a caneta na pata da ... coisa, de uma forma que ela parecia que ia segurá-la. Ao sentir a caneta em sua pata, a criatura de tonalidade roxo-doentia começou a se mexer um pouco mais, e parecer um pouco menos um puff estático. A criatura se debateu um pouco com certa ferocidade, até que finalmente a colocaram de pé sobre uma mesinha. Todos na festa agora prestavam atenção nessa cena bastante incomum, afinal, não era todo dia que um animal exótico de um canto obscuro do mundo era entregue no meio da sua festa e começava a ... cantar?!?

Sim, cantar. A pequena criaturinha exótica começou a cantar naquele dia que acordou cinza, de olhos inchados, em que a noite havia fugido com a lua. A canção se derramou pela sala, ela se despedaçou em mil gotas de dor mais profunda que o som de mil trovões rasgando a noite. Foi essa a maneira que encontrou de entoar uma canção de amor, e fazer sangrar a noite sua dor.

Após alguns instantes, não havia quem presente estava naquela sala que não estivesse com os olhos marejados. Fosse pelo sono, que inexplicavelmente abatia com violência as pálpebras, fosse pela profunda dor e melancolia, que a canção da criaturinha infligia em seus corações. De alguma forma, eles sabiam que a criatura cantava sobre a dor, sobre a melancolia do cativeiro, da mutilação, e da desesperança, mesmo que nenhuma palavra houvesse naquela canção. Essa é uma daquelas coisas que só a música consegue fazer.

Em poucos minutos todos estavam dormindo no chão da sala, não poucos com o rosto inchado em lágrimas.

Alheia a tudo isso, pois não enxergava de qualquer maneira, a criatura mutilada apenas continuou cantando e cantando, mesmo que ninguém ali houvesse para ouvi-la.

Foi mais ou menos nessa altura que a porta de entrada se escancarou, e Ricardo entrou marchando triunfante na sala, com pesados fones acústicos cobrindo seus ouvidos. Embora a proteção o impedisse de ouvir a música, aquela cena o comoveu quase tanto quanto: havia dezenas de adolescentes inconscientes no chão, dormindo profundamente um coma induzido. E ele conhecia muitos deles ali. Ah, como os conhecia...

Havia sonhado com aquilo por semanas, não meses, não, não, anos a fio! Bem, não aquela forma de vingança específica, mas aquela sensação, aquele momento. Era quase bom demais para ser verdade. Mas ERA verdade, e isso fez seus olhos marejarem de alegria.

Ricardo colocou sua bolsa de viagem ao seu lado, e agora abria o zíper lentamente, enquanto olhava em volta sem saber por onde começar. Se sentia como um nerd que descobriu um emulador novo, e agora não fazia idéia do que começar a baixar diante de uma vasta biblioteca de títulos. Na dúvida, decidiu começar pelo básico. Enquanto mexia na sacola podia-se perceber que haviam diversos objetos ali e, após algum tempo, Ricardo puxou um bastão de beisebol e uma filmadora digital.

Colocou a câmera sobre o suporte de marfim da lareira, de modo que ela enfocasse toda sala.

Enquanto se deslocava entre os corpos inconscientes no chão (a princípio tomando o cuidado de não pisar em ninguém, mas então, se auto-corrigindo para lembrar do que estava fazendo ali) pensava honestamente que seria mais difícil. Que na hora teria alguma crise de humanidade, ou falta de coragem, ou piedade, enfim, essas coisas que a gente adora falar que faria, mas na hora apenas seria um bom rapazinho civilizado. Entretanto não foi difícil lembrar de piedade, mais precisamente de todas as vezes que ele não teve isso. Uma terceira pessoa, um expectador externo, ao ver essa cena, seria bastante rápido em condená-lo pelo que estava fazendo, mas onde estavam esses condenadores anônimos quando ele precisou de ajuda? Agora na vez dele é que era errado? Não, definitivamente não. O que estava fazendo era absolutamente direito, era o SEU direito. Esses pensamentos lhe deram forças, e uma determinação que ele não imaginava ter, e quando ele viu já havia terminado os preparativos: dois rapazes do grupo de Marcos estavam deitados sobre o braço do sofá, com as costas arqueadas para cima formando um sinistro U invertido.

Imediatamente Ricardo ergueu o taco de beisebol acima da cabeça e começou a bater. Apenas bater. Com fúria, com ódio. Cada pensamento, cada lembrança lhe dava mais força e determinação. O atrito da madeira com suas mãos queimava, mas isso só lhe dava mais prazer ao imaginar que muito pior estariam os que estavam na outra extremidade do taco. Lembrou também que aqueles cretinos tinham notas pavorosas, mas que estavam em vias de conseguir uma bolsa de estudos esportiva em uma faculdade local. “Bem, não mais” ele pensou, com um sorriso inspirado e divino. Continuou golpeando, batendo com a força que tinha até seus braços absolutamente cansarem. Decorridos cinco minutos (chutou num cálculo mental, talvez fosse bem menos), observou satisfeito (e cansado) que o osso da coluna dos dois fazia uma forma estranha e bizarra sob a pele. É, aquilo iria ser suficiente, era hora de seguir em frente ... O prato principal...

O prato principal, o prato principal... Onde estava Marcos?

Olhou ao redor e não viu ninguém parecido com ele na sala. Viu, contudo, o pequeno Jigglypuff cego que havia comprado na internet, ainda entretido, cantando sozinho. Evitou olhar por mais de um instante, aquela figura sem olhos o perturbava profundamente, e ele não precisava de outros pensamentos agora. Precisava era achar Marcos... Quando ele achou algo muito mais valioso.

Amanda estava caída e dormia no tapete de lá como um anjo. Bem, talvez anjos não fossem tão bonitos. O que importa realmente é que ela estava particularmente linda essa noite, em seu vestido azul de cetim, semi-transparente em algumas partes, numa combinação tão encantadora de fofura e gostosura que até mesmo um soldado de Terracota se apaixonaria se olhasse por tempo demais, mesmo com a notável desvantagem de estar morto. Claro, tinha aquela coisa da calça pra dentro das botas que as gostosas sempre usam (deve ser um código que eles ensinam no clube das pessoas bonitas, vai saber), mas, fora isso, estava perfeita.

Entretanto, Ricardo não foi tomado por nenhum sentimento de paixão ou sublimação artística. Foi tomado apenas por... ódio e raiva.

Veja, Marcos era um idiota, um monstro, um animal. Mas era apenas isso, era um animal que fazia o que fazia porque era o que precisava fazer para ter garotas como ela. Era apenas um animal que seguia seus instintos, não é como se ele tivesse muita escolha sobre isso. É um fato da vida que, para ter garotas desse nível, você tem que ser um monstro sem coração, e usar quem preciso for da forma que possível for. Mas Marcos era apenas um lacaio, um capanga. Amanda era diferente.

Ela... E mulheres como ela sabem exatamente que tipo de pessoas são os canalhas pra quem elas dão. Elas têm total ciência disso e, mais importante ainda: têm total controle sobre isso. Bastava uma palavra dela e Marcos, ou qualquer outro candidato a macho alfa, não precisaria ferrar com a vida de ninguém apenas para se mostrar digno. APENAS UMA PALAVRA. Ela podia ter feito isso a qualquer momento, ELA PODIA TER PARADO ISSO A HORA QUE QUISESSE. Ela podia. Bastava apenas uma ordem. Ela podia, mas não quis.

Seu orgulho como fêmea exigia do macho que desejasse ejacular em suas entranhas (ou em sua garganta, dependendo do quão macho fosse) provasse constantemente que era o dono do território. O tempo todo, sem demonstrar fraquezas, sem demonstrar piedade ou consideração por outro ser humano (que são um tipo de fraqueza, afinal). Era apenas esse o comportamento que ela e garotas como ela exigem do seu macho favorito.

Não fosse por ela, e pelos caprichos dela, Ricardo ainda teria uma vida...

Levou menos de um segundo para ir até a sacola e voltar carregando um pequeno pote de vidro. Se abaixou até ela, inclinava-se pra ela. Tocou de leve sua bochecha e fechou os olhos, como faziam nos filmes. Sentiu os lábios macios e quentes dela, mas de alguma forma não foi exatamente tudo que ele sempre sonhou, tudo que ele sempre achou que seria. Na verdade não foi lá muito mágico, foi meio sem graça até.

Então era isso? Era por causa disso que a sua vida foi destruída? É por causa dessa porcariazinha que cogitou por anos cada forma de suicídio, por mais dolorosa que fosse, como prêmio absoluto? Para que alguém sentisse essa porcariazinha? Ah, mas era a gota d’água. Era só o que faltava MESMO! Agora chega, não tinha ido longe demais, não tinha sequer é começado! FILHA DA PUTA! VADIA! MISERÁVEIS! CRETINOS! FILHOS DA PUTA DESGRAÇADOS DO INFERNO! Agora eles iam ver!

Inclinou a cabeça da garota para trás, como ensinado no procedimento de RCP, o que fez com que ela ficasse com a boca bem aberta. Abriu então o pote de vidro, e despejou o líquido meio esverdeado sobre o rosto dela. Um vapor branco e fedorento ergueu-se, e quando ele olhou novamente, a carne do rosto estava completamente deformada, de forma que o fogo ficaria com inveja por jamais ser capaz de conseguir um resultado tão bom. Empolgado com o resultado da deformação que criara, derramou o resto do frasco sobre o corpo dela (sobretudo os seios e a genitália), e entornou novamente o restinho do frasco sobre o rosto dela de modo que um filme B de terror não faria maquiagem pior.

Atirou o frasco de ácido, agora vazio, para trás, e preparou o golpe de misericórdia: parou com os dois pés ao lado da cabeça dela, puxou o cinto da fivela, o arrancou com um movimento brusco, e logo fez o mesmo com a calça. Nu da cintura para baixo, se agachou sobre a cabeça de Amanda e então cagou. Cagou com força. Cagou firme. Cagou forte. Cagou muito.

Satisfeito (quando o estoque de tacos que havia comido nos preparativos acabara), ergueu-se e quase teve medo de olhar o resultado. Conseguiu acertar uma boa parte dentro da boca, não tudo, mas o suficiente para transbordar e cobrir de merda todo o rosto, e os recém-abertos ferimentos. Uma obra de arte de dar orgulho, se querem saber...

Aliviado, tanto espiritual quanto fisiologicamente, ergueu-se, ainda limpou a bunda com o vestido da garota, vestiu as calças, e decidiu prosseguir. Olhou mais uma vez ao redor, e dessa vez não viu o Jigglypuff sobre a mesa. Onde a coisinha havia ido? Pensou em tirar os fones para descobrir se a criatura ainda cantava, mas logo se deu conta que essa seria uma idéia profundamente estúpida. Decidiu apenas se apressar. Não sabia exatamente quanto tempo o efeito da canção duraria se o bicho tivesse parado de cantar.

Após uma rápida geral pela casa, finalmente encontrou Marcos, mas dessa vez a coisa teria que ser jogo rápido, sem direito a beijinho ou jantar a luz de velas. É, sim, seu humor estava ótimo, melhor do que em qualquer outro momento que ele conseguia se lembrar, finalmente estava... em paz. Uma rápida viagem de ida e volta a sua sacola e ele já estava pronto.

Levantou o rapaz que tinha quase duas vezes o seu tamanho, e três vezes a sua massa apenas em músculos. Com um certo esforço tirou as calças dele, e o colocou de bruços no chão com a bunda empinada, de forma que a câmera sobre a lareira tivesse um bom ângulo. Com tranqüilidade, e um prazer quase sexual, pegou o vibrador de 30cm, e mergulhou na lata de piche, para só então enfiá-lo com força no reto do seu antigo colega. Oh boy, o que era aquela sensação? Quem disse que a melhor sensação do mundo é amar e ser correspondido é porque nunca teve a oportunidade de enfiar um vibrador embebido em piche no ânus da pessoa que você odiou por anos e anos... Sentir as pregas do cu se rompendo uma a uma, o sangue escorrendo, a dor que ele sentiria quando acordasse... Aquela definitivamente foi a melhor sensação da sua vida, sem sombra de dúvida. Podia dizer que se morresse agora estaria satisfeito. Enfiou o objeto até ele desaparecer completamente, o que não foi tarefa fácil, ainda que extremamente gratificante, e desejou boa sorte aos que tentassem tirar ele dali. Ok, mentira, não desejou boa sorte.

Mas seu trabalho ali estava concluído. Havia, claro, mais o que gostaria de fazer, mas algo lhe dizia que esse era um tipo de tempo do qual ele não dispunha no momento. O Jigglypuff estava sumido, e aquelas pessoas podiam acordar a qualquer momento agora. Acendeu o isqueiro do bolso, e colocou fogo na cortina da sala, pegou sua sacola, a câmera, e saiu apressadamente.

Enquanto caminhava pelo quintal em direção à calçada, conectou a câmera ao seu celular, para uploadear o vídeo para o Metacafe (o YouTube baniria rápido demais), mas isso era apenas uma preocupação mundana perto de como ele se sentia no momento...

Dizer que havia tirado um peso do seu peito era um clichê batido e pequeno perto do que realmente sentia. A comparação mais correta seria dizer que sentia como se respirasse pela primeira vez na vida. Ricardo não fazia mais esforço em conter as lágrimas, ou gritar mesmo a plenos pulmões. Sentiu-se tão humano, tão vivo, como se a vida começasse do zero agora. Sentia-se assolada por sensações genuínas, contraditórias, dispersas, mas muito fortes...

Sua vida finalmente poderia começar agora, finalmente ele teria uma chance de apenas ser normal, deixar o passado para trás e ser ... TOMBO.

Ricardo sentiu o gosto pétreo do asfalto em sua boca misturado com o férreo do sangue dançando entre seus dentes. Havia tropeçado em alguma coisa e caído de boca no asfalto, sentiu com a ponta da língua que havia soltado alguns dentes na queda. Ao abrir os olhos, e procurar no que havia tropeçado, teria se cagado de medo se já não tivesse resolvido essa questão fisiológica há poucos minutos antes. A poucos centímetros da sua cabeça estava uma visão tão perturbadora quanto demoníaca. A iluminação pública da rua conferia um tom muito mais arroxeado e doentio à criatura, e o vazio no lugar dos olhos... como se sugassem a sua própria alma, jamais havia visto algo tão aterrador e apavorante tão de perto. Tomado por um pavor e perturbações sobrenaturais, rolou para longe daquela visão dantesca e profana o mais rápido que pôde, como se a corrupção de todo o mundo que recaiu sobre aquela criatura originalmente fofa e adorável agora devorasse suas tripas com fúria e rancor. Aquilo era desumano demais... até para ele.

Se afastou da criatura como pôde, rastejando em direção à rua.

E, apavorado que estava, não viu o caminhão se aproximando.

Ricardo não morreu após tropeçar na criatura mutilada e ser atropelado por um caminhão.

Mas também jamais se recuperou. Ricardo passou o resto de seus dias mantido por aparelhos no hospital, nem vivo nem morto. Sua família não permitiu que ele tivesse esse privilégio, morrer parecia ser bom demais para ele. Ele passou os próximos 70 anos enlouquecendo entre pensamentos, preso dentro de um corpo que não respondia, a mais cruel de todas as prisões, e infindáveis pesadelos sobre um perturbador monstro púrpura sem olhos...